O brincar no desenvolvimento infantil: regulação, linguagem e expressão no TEA
O brincar no desenvolvimento infantil: regulação, linguagem e expressão no TEA
No mês do brincar, é importante retomar o papel da brincadeira no desenvolvimento infantil. Mais do que uma atividade de lazer, brincar é uma das principais formas pelas quais a criança aprende, se organiza emocionalmente e se comunica com o mundo ao seu redor.
Isso pode ser observado em situações simples do dia a dia: quando, por exemplo, a criança empurra um carrinho repetidas vezes, brinca de esconde-esconde ou finge dar comida a uma boneca. Nessas situações, ela não está apenas se distraindo, mas explorando relações de causa e efeito, construindo significados, ampliando seu repertório e ensaiando formas de interação.
O brincar e a autorregulação emocional
O brincar também exerce um papel central na autorregulação emocional. Durante a atividade lúdica, a criança aprende a modular níveis de excitação, sustentar a atenção e lidar com pequenas frustrações, como esperar sua vez ou tolerar mudanças na brincadeira. Jogos de turnos simples, como rolar uma bola ou montar algo em conjunto, já mobilizam habilidades importantes, como organização comportamental e controle inibitório.
Esse processo é especialmente relevante para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que frequentemente apresentam desafios na regulação emocional e na flexibilidade. Nesses casos, o brincar pode funcionar como um mediador potente, ajudando a criança a se organizar e a se engajar com o ambiente de forma mais previsível e segura, como apontam estudos recentes sobre intervenções baseadas em atividades lúdicas (Gibson et al., 2021).
Brincadeira e desenvolvimento da linguagem
Outro aspecto fundamental é a relação entre brincar e desenvolvimento da linguagem. Interações lúdicas favorecem a construção de habilidades comunicativas ao promover turnos, atenção compartilhada e intenção comunicativa, elementos centrais para o desenvolvimento da linguagem funcional.
Durante a brincadeira, a criança não apenas fala, mas aprende a importância do comunicar. Ela passa a usar gestos, vocalizações, palavras e, progressivamente, frases com intencionalidade, seja para solicitar, compartilhar interesse, comentar ou manter a interação. Esse uso funcional da linguagem emerge de forma natural em contextos significativos e motivadores.
Evidências recentes mostram que intervenções baseadas no brincar, especialmente aquelas mediadas por cuidadores, estão associadas a ganhos significativos na comunicação social e no desenvolvimento da linguagem em crianças com TEA (Deniz et al., 2024; Thompson et al., 2024).
A brincadeira simbólica, em especial, ocupa um papel central nesse processo. Ao atribuir novos significados aos objetos, a criança desenvolve habilidades representacionais que sustentam tanto o faz de conta quanto a compreensão e a produção da linguagem. Quando um objeto passa a representar outro, a criança demonstra capacidade de simbolização, diretamente relacionada ao desenvolvimento linguístico.
Além disso, o brincar cria oportunidades ricas para modelagem linguística por parte do adulto. Ao nomear ações, expandir produções da criança e interpretar suas tentativas comunicativas, o adulto favorece a ampliação do repertório linguístico de forma responsiva e contextualizada.
Como o brincar pode se apresentar no TEA
No contexto do autismo, o brincar pode se apresentar de forma diferente, com menor variabilidade, maior repetição de ações ou menor engajamento social. É comum, por exemplo, observar a criança alinhando objetos, focando em partes específicas dos brinquedos ou mantendo padrões mais rígidos de interação.
No entanto, isso não indica ausência de brincar, mas sim diferenças na forma como ele se organiza. A partir dessas características, o profissional pode construir intervenções mais eficazes, partindo do interesse da própria criança. Uma criança que gira rodas, por exemplo, pode ser convidada a ampliar essa ação para jogos compartilhados, com introdução de pausas, turnos e pequenas variações.
O brincar como eixo da intervenção
Abordagens baseadas em evidências, como os modelos naturalísticos e desenvolvimentais (Naturalistic Developmental Behavioral Interventions, NDBI), utilizam o brincar como eixo central da intervenção. Essas abordagens priorizam a responsividade do adulto, o seguimento do interesse da criança e a criação de oportunidades naturais de interação.
Revisões recentes destacam que o uso do brincar em contextos colaborativos e naturalísticos favorece o engajamento social e a comunicação em crianças autistas (Khatab et al., 2024).
Em vez de interromper o brincar, o adulto participa da brincadeira, ampliando, modelando e atribuindo significado às ações da criança.
Brincar também é expressão emocional
Nesse contexto, o brincar também se configura como um espaço de expressão emocional. A criança pode externalizar experiências, elaborar vivências e comunicar estados internos mesmo antes de dominar plenamente a linguagem verbal. Mudanças no enredo da brincadeira, repetições ou escolhas de personagens podem trazer pistas importantes sobre como a criança percebe e organiza suas experiências.
Brincar também é um recurso clínico
Compreender o brincar como um recurso clínico permite qualificar as práticas terapêuticas e orientar famílias de forma mais sensível. Isso inclui, por exemplo, seguir o interesse da criança, valorizar pequenas iniciativas comunicativas, criar momentos de interação com menor direcionamento e transformar situações do cotidiano em oportunidades de brincadeira.
Mais do que estimular habilidades isoladas, trata-se de construir contextos significativos de interação, nos quais a criança possa participar ativamente, comunicar-se e se desenvolver de forma integrada.
Valorizar o brincar, especialmente no contexto do TEA, é reconhecer que o desenvolvimento acontece na relação, e que é na interação lúdica que muitas das aprendizagens mais importantes se constroem.
Referências:
Deniz, E. et al. (2024). Parent-mediated play-based interventions to improve social communication and language in autistic children: A systematic review and meta-analysis.
https://doi.org/10.1007/s40489-024-00463-0
Thompson, K. et al. (2024). Parental language during play and its relation to development in children at risk for autism.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11052673/
Gibson, J. L. et al. (2021). Play-based interventions to support social and communication development in autistic children: A scoping review.
https://doi.org/10.1177/23969415211015840
Sandbank M, Bottema-Beutel K, Crowley LaPoint S, Feldman JI, Barrett DJ, Caldwell N, Dunham K, Crank J, Albarran S, Woynaroski T. Autism intervention meta-analysis of early childhood studies (Project AIM): updated systematic review and secondary analysis. BMJ. 2023 Nov 14;383:e076733. doi: 10.1136/bmj-2023-076733. PMID: 37963634; PMCID: PMC10644209.
Crank JE, Sandbank M, Dunham K, Crowley S, Bottema-Beutel K, Feldman J, Woynaroski TG. Understanding the Effects of Naturalistic Developmental Behavioral Interventions: A Project AIM Meta-analysis. Autism Res. 2021 Apr;14(4):817-834. doi: 10.1002/aur.2471. Epub 2021 Jan 22. PMID: 33480474; PMCID: PMC8862714.
Rautenbach, G. et al. (2025). The effect of play-based occupational therapy on children with developmental differences.
https://doi.org/10.1080/19411243.2024.2360414

Aline Andriotti
Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.
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