Saúde mental no TEA: quando mudanças no comportamento merecem atenção?
Saúde mental no TEA: quando mudanças no comportamento merecem atenção?
Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem vivenciar quadros e oscilações na saúde mental, como ansiedade, depressão e estresse. No entanto, reconhecer quando algo não vai bem pode ser especialmente desafiador no autismo. Isso acontece porque algumas manifestações de sofrimento emocional podem se apresentar por meio de mudanças no comportamento, na comunicação ou na rotina e acabar sendo atribuídas ao próprio TEA.
Por isso, uma pergunta importante no cuidado é: o que é característico daquela pessoa devido ao diagnóstico de TEA e o que representa uma mudança em relação ao seu funcionamento habitual?
Nem toda mudança é “parte do autismo”
Imagine uma criança que sempre gostou de brincar com seus colegas e, de repente, passa a evitar as interações. Ou um adolescente que costumava participar das atividades da escola e começa a se isolar, dormir muito mais ou demonstrar irritabilidade frequente.
Essas mudanças não significam necessariamente que exista uma condição de saúde mental. Podem estar relacionadas a alterações na rotina, dificuldades de comunicação, sobrecarga sensorial, conflitos, bullying, dor, problemas de sono ou outras situações. Entretanto, elas merecem ser observadas e compreendidas a fundo, pois podem sim ter relação com a saúde mental.
A questão não é procurar um diagnóstico por trás de cada mudança, mas evitar que tudo seja automaticamente explicado pelo autismo.
Quando o comportamento comunica que algo não vai bem
Nem todas as pessoas autistas conseguem identificar ou comunicar facilmente o que estão sentindo. Algumas podem ter dificuldades em dizer e reconhecer sintomas como ansiedade, tristeza, angústia, mas expressam esse sofrimento de outras maneiras.
Podem surgir mudanças na comunicação, maior irritabilidade, isolamento, alterações no sono ou na alimentação, perda de interesse por atividades, aumento de comportamentos repetitivos ou maior dificuldade para lidar com situações que anteriormente eram toleradas.
Por isso, conhecer o funcionamento habitual da pessoa é fundamental.
Ao perceber uma alteração importante, algumas perguntas podem ajudar:
- O que mudou?
- Quando essa mudança começou?
- Aconteceu alguma coisa diferente nesse período?
- A pessoa está conseguindo comunicar o que precisa?
- Existe alguma situação no ambiente que pode estar gerando sofrimento?
- Essa mudança acontece em todos os contextos ou apenas em alguns?
Essas perguntas ajudam a olhar para o comportamento alterado como uma forma de comunicação e início de um planejamento para o cuidado.
Estar em constante contato com a equipe multidisciplinar (psicólogo, fonoaudiólogo etc.) que atende e acompanha aquela pessoa pode ser muito benéfico para ampliar o olhar para estas mudanças.
Saúde mental também depende do ambiente
A saúde mental não é construída apenas dentro do consultório, nas terapias. Para pessoas autistas, aspectos do ambiente podem ter um impacto importante no bem-estar. Excesso de demandas, dificuldades de comunicação, ambientes sensorialmente desconfortáveis, falta de previsibilidade, bullying, exclusão social e ausência de adaptações na rotina podem aumentar o estresse e contribuir para sofrimento emocional.
Por outro lado, relações seguras com cuidadores e colegas, comunicação acessível, respeito às necessidades individuais, previsibilidade e oportunidades reais de participação podem funcionar como importantes fatores de proteção à saúde mental.
Isso significa que cuidar da saúde mental também envolve se questionar: Há algo possível de modificar na rotina para que esta pessoa volte a ficar confortável e mais saudável frente as dificuldades apresentadas? Nem sempre a resposta está em ensinar a pessoa a lidar melhor com o ambiente. Às vezes, é o ambiente que precisa mudar e se adequar.
Quando procurar ajuda
Mudanças persistentes ou significativas no comportamento, especialmente quando interferem e trazem prejuízos para a rotina, nas relações, na escola, no trabalho ou na qualidade de vida, merecem avaliação.
A investigação deve considerar não apenas aspectos psicológicos, mas também condições físicas, alterações na rotina, sono, comunicação e questões sensoriais.
A avaliação em saúde mental também precisa respeitar as características individuais da pessoa autista. Isso inclui considerar sua forma de comunicação, seu nível de compreensão, suas experiências e os recursos necessários para que consiga expressar o que está vivendo.
Não existe uma única forma de demonstrar sofrimento
Por isso, familiares, professores e profissionais de saúde têm um papel importante na observação de mudanças e na construção de espaços em que a pessoa possa falar, sinalizar ou comunicar que precisa de ajuda.
Pensando em crianças menores, ensinar sobre as emoções e sentimentos desde pequenos, pode proporcionar maior entendimento das mudanças de humor e dificuldades enfrentadas em seu futuro.
Setembro Amarelo: prevenção também é cuidado
A campanha “Setembro Amarelo” amplia a discussão sobre prevenção do suicídio e importância do cuidado global, mas falar de prevenção significa também falar sobre aquilo que sustenta a saúde mental no cotidiano.
Para uma pessoa autista, isso pode significar ter acesso à comunicação, construir relações de confiança, encontrar espaços de pertencimento, ter suas necessidades respeitadas e contar com uma rede de apoio que reconheça seus sinais de sofrimento. Também significa ter acesso aos cuidados de saúde mental quando necessário, como acesso a terapias com psicólogos.
Olhar para a pessoa antes de olhar para o comportamento
Diante de uma mudança de comportamento, talvez a primeira pergunta não precise ser “como fazer isso parar?”. Pode ser: “O que essa mudança está nos contando?”
Quando conhecemos a história, as formas de comunicação e o funcionamento habitual de uma pessoa, conseguimos perceber melhor quando algo se transforma, quando algo não está bem. E reconhecer essa mudança pode ser o primeiro passo para compreender efetivamente o que está acontecendo, oferecer apoio e buscar o cuidado necessário.
Cuidar da saúde mental no autismo também é aprender a escutar aquilo que nem sempre é dito em palavras.
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