Comunicação não pode esperar

5/10/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Comunicação não pode esperar

O início precoce da Comunicação Aumentativa e Alternativa e seu impacto no desenvolvimento da linguagem no autismo

Outubro é reconhecido como o mês de conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), um campo essencial para garantir que mais pessoas tenham acesso à comunicação.

No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a CAA amplia possibilidades de expressão, interação e participação. Mais do que um conjunto de recursos, trata-se de um sistema de acesso à linguagem, capaz de sustentar o desenvolvimento comunicativo desde os primeiros anos de vida.

A literatura contemporânea demonstra, de forma consistente, que o acesso precoce à comunicação exerce impacto direto sobre o desenvolvimento. Nesse contexto, adiar a introdução da CAA até a emergência da fala não é sustentado pela evidência científica atual e pode limitar experiências fundamentais para a aquisição da linguagem (Brady et al., 2020; Crowe et al., 2021).

CAA precoce e desenvolvimento da linguagem

Pesquisas recentes demonstram que a introdução precoce da CAA está associada a ganhos significativos em comunicação funcional, linguagem expressiva e participação social.

Observa-se aumento da intenção comunicativa e ampliação das produções expressivas, inclusive em crianças com repertório verbal inicial reduzido. De forma consistente, a literatura indica que o uso da CAA não impede o desenvolvimento da fala e pode, em muitos casos, favorecê-lo (Brady et al., 2020; Crowe et al., 2021).

Esses resultados podem ser compreendidos a partir de fatores como a ampliação das oportunidades de interação, a redução da frustração comunicativa, a maior clareza sobre a função da linguagem e o acesso a modelos linguísticos mais organizados.

Na prática clínica, esse conjunto sustenta um princípio central: o acesso à comunicação favorece e organiza o desenvolvimento da linguagem oral.

Limitações de sistemas restritos de CAA

Apesar dessas evidências, ainda é frequente a utilização de sistemas com vocabulário reduzido e foco restrito a pedidos.

Embora possam gerar respostas iniciais, esses sistemas tendem a limitar o desenvolvimento da linguagem ao restringirem as possibilidades de expressão. A comunicação humana não se reduz à obtenção de itens; ela envolve comentar, compartilhar, recusar, perguntar, narrar e expressar estados internos.

Quando essas funções não estão disponíveis, a comunicação tende a permanecer reduzida, pouco espontânea e dependente de mediação, o que pode limitar a participação da criança nas interações do dia a dia. Estudos indicam que abordagens restritas estão associadas a menor diversidade comunicativa e menor generalização da linguagem (Biggs et al., 2018; Light & McNaughton, 2021).

Sistemas robustos e desenvolvimento da linguagem

Diante desse cenário, destaca-se a relevância dos sistemas robustos de Comunicação Aumentativa e Alternativa.

Sistemas robustos oferecem um repertório amplo, estruturado e funcional de linguagem, permitindo que a criança vá além de respostas pontuais e passe a construir mensagens com maior autonomia. Estudos recentes, incluindo evidências nacionais, apontam que o uso de sistemas robustos está associado à ampliação do repertório comunicativo e ao aumento da funcionalidade da linguagem (Montenegro et al., 2022).

A organização do vocabulário nesses sistemas segue princípios linguísticos, priorizando palavras de alta frequência e ampla aplicabilidade, que permitem combinações e expansão da linguagem, conforme descrito na literatura sobre core vocabulary (Marden, 2015; Erickson et al., 2021). Palavras mais específicas complementam esse repertório, ampliando a precisão comunicativa.

Na prática, a diferença se torna clara no cotidiano. Uma criança com acesso restrito pode nomear um item, como “bola”. Já com um sistema mais amplo, passa a produzir combinações como “quero bola”, “acabou bola” ou “não quero bola”, ampliando suas possibilidades de expressão e participação.

Organização do sistema e uso funcional da linguagem

A efetividade da CAA não depende apenas do vocabulário disponível, mas também da forma como esse vocabulário é organizado e acessado. Modelos que priorizam a organização pragmática da linguagem e o uso contínuo em contextos interativos favorecem maior autonomia comunicativa e participação social. Intervenções baseadas em modelagem têm demonstrado impacto consistente na ampliação da comunicação expressiva e no uso mais funcional da linguagem (Sennott et al., 2016; O’Neill et al., 2021).

Evidências na prática clínica

Na prática, observa-se que crianças expostas a sistemas restritos tendem a apresentar uma comunicação mais reativa, com baixa generalização e maior dependência de mediação, especialmente em contextos nos quais há limitação de vocabulário e poucas oportunidades de modelagem linguística (Biggs et al., 2018; Light & McNaughton, 2021).

Em contraste, a introdução de sistemas robustos está associada a mudanças qualitativas relevantes, com ampliação do acesso à linguagem e das possibilidades comunicativas, como também descrito em estudos nacionais sobre o uso de CAA em crianças com TEA (Montenegro et al., 2022). Esse avanço se expressa no aumento da iniciativa comunicativa, na maior diversidade de funções de comunicação, na ampliação da participação em interações sociais e na melhora da organização da linguagem, especialmente quando há modelagem consistente e uso ampliado de vocabulário (O’Neill et al., 2021; Crowe et al., 2021; Sennott et al., 2016).

Em crianças com fala ecolálica, a CAA pode atuar como um suporte organizador, favorecendo produções mais funcionais ao oferecer modelos linguísticos estruturados e ampliar as possibilidades de combinação de enunciados (Light & McNaughton, 2021; O’Neill et al., 2021). Já em crianças verbais, seu uso pode reduzir a sobrecarga comunicativa e ampliar o repertório expressivo, especialmente em contextos de maior demanda (Brady et al., 2020; Crowe et al., 2021).

Integração da CAA no cotidiano: orientações para famílias e profissionais

A efetividade da CAA depende, sobretudo, da forma como ela é incorporada ao cotidiano da criança. Mais do que disponibilizar um recurso, é necessário construir um ambiente em que a linguagem esteja presente de forma contínua, significativa e compartilhada.

Por isso, a modelagem ocupa um papel central nesse processo. Ao utilizar a CAA enquanto fala com a criança, o adulto oferece exemplos concretos de como a linguagem pode acontecer no dia a dia. Durante o lanche, por exemplo, pode modelar expressões como “quer mais” ou “acabou”. Em momentos de brincadeira, expressões como “olha isso”, “vamos brincar” ou “caiu” ajudam a dar sentido à interação.

Esse mesmo princípio se estende às diferentes rotinas. No banho, é possível modelar palavras e combinações diretamente relacionadas à experiência da criança, como “sabão”, “lavar o cabelo”, “pé”, “água” ou “acabou”, acompanhando cada ação. Na escola, a CAA pode apoiar a participação em atividades cotidianas por meio de palavras e ações que fazem parte da rotina, como “guardar”, “sentar”, “abrir”, “fechar”, “esperar”, “terminar” ou “ir”, favorecendo a compreensão, a organização e a participação.

Quando a comunicação está presente em múltiplos contextos, ela deixa de ser pontual e passa a se tornar funcional, favorecendo a generalização e o uso espontâneo da linguagem.

A qualidade e a consistência do uso da CAA nos contextos cotidianos são determinantes para seus resultados.

Considerações finais

A Comunicação Aumentativa e Alternativa constitui uma via legítima de acesso à linguagem.

Seu impacto está diretamente relacionado à qualidade do sistema oferecido e à forma como é incorporada ao cotidiano. Evidências científicas indicam que a introdução precoce, aliada ao uso consistente e ao acesso a sistemas robustos, favorece a organização da linguagem e amplia as possibilidades de desenvolvimento.

Garantir acesso à comunicação desde os primeiros anos é, sobretudo, abrir caminhos para que cada criança possa se expressar, participar das relações e ser compreendida em suas formas próprias de comunicar.

Referências

Brady NC, Thiemann-Bourque K, Fleming K, Matthews K. Communication interventions for young children with severe disabilities: a review of the literature. Am J Intellect Dev Disabil. 2020;125(1):1–16.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31800371/

Crowe B, Machalicek W, Wei Q, Drew C. Augmentative and alternative communication and speech production in children with autism spectrum disorder: a systematic review. Am J Speech Lang Pathol. 2021;30(4):1809–1825. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33511525/

Biggs EE, Carter EW, Gilson CB. Systematic review of interventions involving aided AAC modeling for individuals with complex communication needs. Res Dev Disabil. 2018;71:1–15. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30198767/

Light J, McNaughton D. Toward a comprehensive model of AAC intervention to support language development. Augment Altern Commun. 2021;37(3):192–204. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8375506/

O’Neill T, Light J, Pope L. Effects of interventions that include aided AAC modeling on expressive language outcomes: a systematic review. Am J Speech Lang Pathol. 2021;30(2):1–16. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33511523/

Sennott S, Light J, McNaughton D. AAC modeling intervention research review. Res Pract Pers with Sev Disabil. 2016;41(2):101–115. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1540796916638822

Montenegro ACA, Silva LKSM, Bonotto RCS, Lima RASC, Xavier IALN. Use of a robust alternative communication system in autism spectrum disorder: a case report. Rev CEFAC. 2022;24(2):e11421. https://revistacefac.org.br/article/doi/10.1590/1982-0216/202224211421

Marden J. Teaching with core words: building blocks for communication and curriculum. Commun Matters. 2015;29(1):23–24. https://www.communicationmatters.org.uk/resources/publications/

Erickson KA, Hatch P, Geist LA. Teaching core vocabulary words and symbols to students with complex communication needs. In: Assistive Technology Industry Association. 2021.https://www.atia.org/at-resources/articles/core-vocabulary/

Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP.Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.

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