Quando a comunicação encontra barreiras: desafios e estratégias nos diferentes contextos

19/10/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Quando a comunicação encontra barreiras: desafios e estratégias nos diferentes contextos

A comunicação é um direito fundamental de todas as pessoas. Comunicação é muito mais do que apenas a fala: ela envolve expressar desejos, necessidades, opiniões, sentimentos e participar ativamente da vida social. Mas, e quando a pessoa apresenta alguma dificuldade na fala? Como garantir que a comunicação aconteça e que a pessoa exerça sua autonomia e participação?

Para muitas pessoas autistas, o processo de comunicação pode trazer desafios. Frequentemente, as barreiras encontradas não estão na pessoa, mas sim nas condições oferecidas pelo ambiente e pelos contextos em que ela está inserida. É importante lembrar que o processo de comunicação envolve trocas sociais. Portanto, quando uma pessoa apresenta dificuldades para se comunicar, precisamos pensar para além do indivíduo: o que impede que essa troca aconteça de forma satisfatória?

No caso de pessoas que apresentam necessidades complexas de comunicação, ou seja, que têm dificuldades significativas para compreender ou expressar mensagens de forma oral, escrita, gestual ou por meio de outras formas convencionais de comunicação, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) representa uma importante ferramenta para ampliar oportunidades de participação.

O que é Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)?

A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) contempla um conjunto de métodos, estratégias e recursos que complementam ou substituem a fala quando há dificuldades significativas na comunicação oral. Entre os recursos mais conhecidos estão:

  • Pranchas de comunicação com figuras
  • Cartões com símbolos ou fotografias
  • Aplicativos em tablets e celulares
  • Dispositivos geradores de voz
  • Sistemas de troca de figuras
  • Gestos, expressões faciais/corporais e recursos de escrita

Um dos grandes mitos em relação à CAA é que ela impede ou dificulta o desenvolvimento da fala. A CAA, na verdade, favorece o processo de comunicação, possibilitando que a pessoa exerça seu direito de participação social e autonomia. Diferentes estudos apontam que recursos de CAA podem favorecer o desenvolvimento comunicativo e social de pessoas autistas, além de não prejudicarem o desenvolvimento da fala (White et al., 2021; Syriopoulou-Delli e Gkiolanta, 2022).

Nesse sentido, identificar e superar as barreiras de comunicação depende de uma relação entre o indivíduo e o ambiente, reconhecendo que a pessoa autista não é a única responsável para que a comunicação aconteça, mas principalmente, como seus parceiros de comunicação interagem no contexto das trocas comunicativas.

Por exemplo, uma pessoa autista que apresenta dificuldades na fala e utiliza figuras para se comunicar, pode enfrentar mais ou menos desafios em relação à comunicação, dependendo se o ambiente e os parceiros conhecem ou não esse recurso. Por isso, é fundamental discutirmos acessibilidade comunicativa, que está relacionada à quebra de barreiras que impedem ou dificultam a participação de todas as pessoas no contexto da comunicação. Para avançar no processo de construção da acessibilidade comunicativa, precisamos nos perguntar:

  • O ambiente oferece diferentes formas de expressão?
  • Os parceiros de comunicação sabem esperar e escutar?
  • Existem recursos visuais disponíveis?
  • As informações são apresentadas de forma direta e previsível?

Essas perguntas nos ajudam a mudar o foco do déficit na pessoa autista para um olhar amplo sobre a importância da construção de ambientes mais responsivos e inclusivos.

Estratégias para a eliminação de barreiras em diferentes ambientes

Quando falamos em CAA, é importante pensarmos em sistemas e ferramentas que a pessoa autista possa utilizar em diferentes ambientes. Os recursos devem ser desenvolvidos com base nas necessidades, interesses e aplicabilidade para cada pessoa. Além disso, todos os ambientes devem favorecer o processo de comunicação, para que a pessoa tenha oportunidades de se comunicar com diferentes funções e com diferentes parceiros de comunicação. Para que isso aconteça, é importante identificar as barreiras do ambiente e implementar estratégias possíveis para garantir a acessibilidade.

Algumas barreiras comuns na comunicação com pessoas autistas envolvem fazer perguntas complexas ou muito abertas, exigir respostas rápidas, interpretar ausência de fala como ausência de compreensão e não disponibilizar recursos visuais para apoiar a comunicação. Para favorecer a acessibilidade na comunicação, algumas estratégias práticas podem ser adotadas:

  • Utilizar apoios visuais na rotina

Quadros com imagens para representar atividades como banho, alimentação, escola e hora de dormir ajudam a antecipar acontecimentos e reduzir ansiedade.

  • Modelar o uso da CAA

Quando a pessoa autista utiliza uma prancha de comunicação, os familiares e outros parceiros de comunicação também podem apontar os símbolos/pictogramas durante a conversa, garantindo o modelo da estrutura da comunicação e de como usar a ferramenta.

  • Incorporar a CAA em todos os momentos da rotina

Os recursos não devem ser utilizados apenas durante as terapias ou em momentos específicos, mas também no contexto escolar (em jogos, recreio, refeições, trabalhos em grupo) e de lazer, por exemplo.

  • Valorizar todas as formas de comunicação

Olhares, gestos, expressões faciais, apontar objetos ou mostrar imagens também são formas legítimas de comunicação e devem ser valorizadas.

A implementação de estratégias de acessibilidade em espaços coletivos também é fundamental para garantir a participação das pessoas com necessidades complexas de comunicação em diferentes ambientes. 

Você sabia que existe uma lei que incentiva a instalação de sistemas de comunicação aumentativa e alternativa em espaços públicos?

A Lei n° 15.249, de 2025, incorporada à Lei Brasileira de Inclusão, orienta a instalação de sistemas de comunicação e sinalização com pictogramas em museus, exposições, galerias e parques, por exemplo, para favorecer acessibilidade a pessoas com necessidades complexas de comunicação e dar visibilidade aos recursos de CAA na garantia de inclusão social. 

Conheça alguns exemplos de estratégias e ações para tornar os ambientes mais acessíveis em relação à comunicação:

  • Cardápios com imagens
  • Sinalização visual clara
  • Equipes treinadas para acolher diferentes formas de comunicação
  • Recursos digitais acessíveis
  • Espaços com menor sobrecarga sensorial

Uma mudança de perspectiva: construindo caminhos para a acessibilidade

Talvez o maior desafio para alcançarmos acessibilidade comunicativa para pessoas autistas esteja na mudança de atitude em relação à comunicação e aos desafios que ela pode trazer. Não existe uma única forma de se comunicar: todas as pessoas têm algo a dizer, mesmo que não seja pela fala.

Uma pessoa pode usar fala, imagens, gestos, escrita, aplicativos ou combinar vários recursos ao mesmo tempo. O objetivo é garantir que todas as pessoas possam ser compreendidas e participar dos espaços que frequentam. Quando ambientes se tornam mais acessíveis, a responsabilidade pela comunicação deixa de recair exclusivamente sobre a pessoa autista e passa a ser compartilhada por todos os envolvidos.

A verdadeira inclusão comunicativa acontece quando toda a comunidade reconhece que se comunicar é um direito, garantido a partir de um compromisso coletivo.

Referências

BRASIL. Lei nº 15.249, de 3 de dezembro de 2025. Dispõe sobre [ementa da lei]. Brasília, DF: Presidência da República, 2025. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15249.htm.

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm.

SIMÃO C. et al. Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Rio de Janeiro: ENSP, Fiocruz, 2025. Disponível em: https://arca.fiocruz.br/items/7265a9b3-22d1-473e-98d8-

2903cdb3f2c0/full.

SYRIOPOULOU-DELLI, C.; GKIOLANTA, E. Effectiveness of Different Types of Augmentative and Alternative Communication (AAC) in Improving Communication Skills and in Enhancing the Vocabulary of Children with ASD: A Review. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 9, n. 4, p. 493-506, 2022.

WHITE, E. N.; AYRES, K. M.; SNYDER, S. K.; CAGLIANI, R. R.; LEDFORD, J. R. Augmentative and Alternative Communication and Speech Production for Individuals with ASD: A Systematic Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 11, p. 4199-4212, 2021.

Fonoaudióloga pela Unifesp. Especialista em Linguagem pelo CFFa. Mestre e Doutora em Ciências da Saúde (área de concentração Saúde Coletiva) pela USP. Pós-doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Ciências do Desenvolvimento Humano da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Docente do curso de graduação em Fonoaudiologia e coordenadora da especialização em Transtornos do Neurodesenvolvimento da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP).

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *