Quando a palavra é apenas o começo

26/10/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Quando a palavra é apenas o começo.

O curta-metragem Fitas acompanha Renee, uma adolescente autista que utiliza diferentes recursos para se comunicar e que, durante um passeio de canoa, compartilha uma experiência com Marcus, seu interlocutor. A narrativa, delicada em muitos momentos, nos convida a refletir sobre algo que está no centro de qualquer relação: o que significa, de fato, compreender o que alguém está tentando nos dizer?

Em determinado momento, Renee comunica pelo celular que quer ir ao banheiro. Para Marcus, a mensagem parece objetiva: é preciso conduzi-la até o banheiro.

Mas o percurso revela outra coisa.

Ao passar pelas margens da água, Renee demonstra interesse pelas plantas. Ela quer tocar nelas, perceber sua textura, explorar aquela experiência. O banheiro, então, deixa de ser compreendido apenas como um destino. A mensagem de Renee fazia parte de um caminho que levava a algo que, para ela, era significativo.

Quando Marcus percebe isso, sua maneira de interagir com Renee também se transforma. Ele deixa de apenas executar aquilo que havia entendido como um pedido e passa a acompanhar a intenção que estava por trás dele.

Essa cena é especialmente potente quando pensamos em Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), porque uma comunicação nem sempre pode ser compreendida apenas pelo significado mais imediato de uma palavra, imagem ou símbolo.

Na prática clínica, podemos nos deparar com situações semelhantes. Uma criança seleciona “banheiro” em seu sistema. Ela quer, necessariamente, utilizar o banheiro? Pode ser. Mas também pode estar indicando um lugar, uma sequência, uma experiência, um interesse ou algo que descobriu naquele percurso.

Uma pessoa aponta para “comer”. Pode estar com fome. Ou pode estar tentando indicar que quer ir até determinado lugar porque ali existe uma pessoa, um objeto, um cheiro ou uma experiência que lhe interessa.

O símbolo é uma pista. A mensagem é maior.

Essa perspectiva nos convida a não encerrar a interpretação no primeiro significado possível. Isso não significa atribuir sentidos ocultos a tudo o que uma pessoa comunica, mas reconhecer que o significado de uma mensagem se constrói também a partir do contexto em que ela acontece.

É preciso observar o que aconteceu antes e o que acontece depois, considerar o ambiente, acompanhar o percurso que a pessoa tenta fazer, reconhecer aquilo que desperta seu interesse e, sobretudo, estar atento às diferentes formas pelas quais ela se expressa.

Em Fitas, Marcus começa tentando compreender Renee a partir das referências que ele próprio possui. Aos poucos, precisa deslocar esse olhar e acompanhar a experiência dela. A comunicação se amplia quando ele deixa de perguntar apenas “O que ela está dizendo?” e passa a se perguntar: “O que ela está tentando me mostrar?”

Na clínica, essa diferença também importa.

Quando uma pessoa utiliza um sistema de comunicação baseado em Core Words, por exemplo, não estamos trabalhando apenas com palavras isoladas para representar objetos ou necessidades. Estamos oferecendo possibilidades para que ela possa construir mensagens, combiná-las e utilizá-las em diferentes situações. O significado dessas mensagens se estabelece nas relações e nas experiências que a pessoa vive.

O mesmo acontece com um flipbook de baixa tecnologia. Um símbolo não precisa representar apenas um objeto concreto ou uma ação. Ele pode fazer parte de uma combinação, de uma escolha, de uma tentativa de iniciar uma interação ou de um caminho para chegar a algo que ainda precisamos compreender.

Por isso, para quem acompanha uma pessoa que utiliza CAA, uma pergunta importante não é apenas “O que essa palavra significa?”, mas:

“O que essa pessoa está tentando fazer, viver ou compartilhar por meio dessa comunicação?”

A diferença parece pequena, mas transforma nossa posição como interlocutores.

Em vez de conduzir rapidamente a pessoa até aquilo que acreditamos que ela pediu, podemos esperar, observar e acompanhar. Em vez de corrigir uma escolha que parece inadequada, podemos investigar o contexto. Em vez de concluir que determinado símbolo está sendo utilizado “errado”, podemos considerar que existe uma intenção que ainda não conseguimos reconhecer.

Essa postura também modifica a maneira como pensamos o próprio papel dos recursos de comunicação. Um sistema de alta tecnologia, com diferentes possibilidades de combinação, pode ampliar as formas de expressão de uma pessoa. Um flipbook, embora mais simples, pode cumprir a mesma função de abrir caminhos quando está disponível nos contextos em que a comunicação realmente acontece.

O recurso, portanto, não existe isoladamente. Ele faz parte de uma relação.

Para que uma pessoa possa utilizá-lo de maneira significativa, os interlocutores também precisam aprender a esperar, observar, oferecer modelos, respeitar o tempo de resposta e reconhecer aquela forma de comunicação como legítima. A CAA pode ampliar as possibilidades de expressão e participação justamente quando deixa de ser tratada como um recurso restrito à terapia e passa a fazer parte da vida cotidiana.

Foi isso que a cena de Fitas me fez pensar: compreender uma comunicação não é apenas decodificar uma mensagem; é estar disponível para descobrir o significado que aquela mensagem assume para quem a produz.

Quando fazemos isso, a comunicação deixa de ser uma espécie de código que precisamos simplesmente traduzir e passa a ser um encontro. Um encontro em que precisamos suspender nossas próprias expectativas sobre o que aquela comunicação deveria significar para criar espaço para que a pessoa nos mostre o que, para ela, realmente importa.

É nesse espaço que comunicação, autonomia e identidade se encontram.

Quando uma pessoa encontra diferentes caminhos para comunicar o que quer, não está apenas aprendendo a pedir. Está encontrando possibilidades para escolher, recusar, compartilhar interesses, conduzir interações, estabelecer limites e apresentar aos outros aquilo que faz sentido para ela.

E essas possibilidades importam porque a identidade também se constrói nas relações. Ela aparece naquilo que escolhemos, nos interesses que compartilhamos, nas experiências que queremos repetir, nas coisas que recusamos e nas pessoas com quem desejamos dividir algo que consideramos importante.

Por isso, ampliar as possibilidades de comunicação não significa apenas tornar uma mensagem mais compreensível. Significa ampliar as oportunidades para que uma pessoa possa participar das próprias relações e decisões, ocupando um lugar cada vez mais ativo naquilo que acontece ao seu redor.

Esse é o convite que a comunicação nos faz: olhar além daquilo que conseguimos reconhecer de imediato.

Quando uma pessoa aponta, seleciona uma palavra, entrega uma imagem ou utiliza um dispositivo para nos dizer alguma coisa, existe uma história acontecendo naquele gesto. Há um contexto, uma intenção, uma experiência que nem sempre está contida no símbolo que chegou até nós.

Na prática, nosso desafio não é apenas oferecer caminhos para que alguém possa se comunicar, mas também aprender a percorrê-los com ela.

Às vezes, a palavra é o destino.

Às vezes, é apenas o começo do caminho.

E é quando temos disposição para seguir esse caminho que começamos, de fato, a conhecer a pessoa que está tentando nos dizer algo.

Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP.Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.

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