Stephen Shore: da ameaça de internação a referência em educação inclusiva

13/05/2020Histórias0 Comentários

Para professor, a conscientização é o primeiro passo para compreender e estimular as pessoas com a TEA

A infância de Stephen Shore teve um começo conturbado. Diagnosticado com autismo, ele escapou por pouco de de ser internado e, graças os esforços dos pais, recebeu estímulos intensos para adquirir habilidades verbais e sociais. A superação marcou a sua trajetória e, hoje o professor universitário, consultor e palestrante norte-americano é uma referência internacional no estudo de educação e inclusão de pessoas com TEA. Aos 58 anos, casado, ele viaja o mundo divulgando os três “A”s que aponta como essenciais para o desenvolvimento e inserção social das pessoas com autismo.

O primeiro “A” vem da palavra inglesa “awareness”, que em português significa consciência. ”É preciso entender o que significa ter autismo”, conta o professor. Shore é um dos diretores da organização Autism Speaks e já fez parte do quadro da Autism Society of America. Ambas entidades, segundo ele, contribuíram de maneira impressionante na conscientização sobre o transtorno nos EUA.

Uma das grandes lições para conscientizar sobre o autismo é a de que cada pessoa com autismo é única e apresenta um conjunto de características próprias, sendo totalmente diferente de outros indivíduos dentro do espectro. “Se você conheceu uma pessoa com autismo, você conheceu uma pessoa com autismo”, diz o professor. A frase pode parecer óbvia à primeira vista, mas revela a multiplicidade de maneiras de viver com autismo e a especificidade de cada uma. “É uma jornada que comecei com 5 anos e meio e agora estou aqui, como um professor de educação especial, e ainda continuo a aprender o que significa ter autismo”, confessa.

Música teve um papel fundamental ao longo do desenvolvimento cognitivo de Stephen

O segundo “A” é de “acceptance”, que quer dizer aceitação. A trajetória de Shore revela bem o que este “A” quer dizer. Ele teve um desenvolvimento neurológico típico até completar um ano e meio de idade, quando começou a regredir. Segundo palavras dele, neste momento a “bomba regressiva do autismo explodiu”. Os pais levaram um ano para ter o diagnóstico. Naquela época, ser diagnosticado com autismo era ser sentenciado a uma internação, e foi justamente o que sua escola recomendou. Mas os pais de Shore pediram um prazo de um ano para que o filho fosse internado. Neste intervalo, se dedicaram a um programa intensivo de intervenção doméstica, que incluía música, estímulo a movimentos, integração sensorial, narração, imitação e terapia lúdica.

“O mais importante a respeito dos meus pais é que eles me aceitaram por aquilo que eu era e ao mesmo tempo reconheceram que havia muitos desafios a serem superados para que eu tivesse uma vida feliz e produtiva”, diz Shore. Os pais entenderam intuitivamente do que ele precisava e passaram a valorizar justamente isso. Todo o trabalho intenso fez o garoto voltar a falar aos 4 anos, quando a hipótese de internação foi enfim descartada.

A música foi parte importante desse processo e marcou toda a trajetória de Stephen. Ele hoje usa a música para se conectar com crianças do espectro autista. “Música é uma ótima forma de comunicação, que funciona de maneira muito diferente da comunicação verbal. Seja lá o que prejudique os centros verbais do cérebro, responsáveis pela fala, deixa as conexões musicais intactas. A música pode se transformar em um meio de comunicação e ajudar a promover a interação verbal”, detalha.

Graças à sua dedicação ao piano, Shore conheceu sua esposa. O casal começou revisando a lição de música um do outro e, aos poucos, passaram a ter encontros sociais. “Um dia na praia, ela de repente me deu um beijo, um abraço e segurou minha mão”, revela. A parceria já dura cerca de 30 anos.

Valorizar as potencialidades da pessoa com autismo abre possibilidades para seu desenvolvimento

Sem a aceitação da família, não haveria na vida de Shore o terceiro “A”, de “appreciation”, ou valorização. Sem o estímulo ao que ele poderia fazer de melhor, o encontro com a futura esposa jamais teria acontecido. “Meu melhor conselho a pais de crianças com autismo é perceber quais são os interesses e pontos fortes do seu filho. O que sua criança mais gosta de fazer tende a se relacionar com suas potencialidades. É importante para pais de autistas compreender que o filho deles tem potencial ilimitado assim como qualquer outra. Nossa responsabilidade é dar suporte para que possamos acessar essas potencialidades”.

Stephen costuma dizer que tem o sonho de ver um mundo em que as pessoas com autismo sejam valorizadas pelo que elas são, em vez de depreciadas pelo que não são. Para ele, em vez de pensar que pessoas com autismo possam ter um “interesse restrito”, o ideal seria falar em interesse profundo ou paixão. Dessa forma, Shore propõe uma inversão do olhar: deixar de ver o autismo como uma coleção de déficits, desordens e deficiências e abrir a porta das habilidades. Um exemplo é como empresas de tecnologia têm aproveitado muitos dos que Shore chama de “superpoderes” das pessoas com autismo. O hiperfoco e a capacidade de concentração e memorização estão entre eles.

Segundo as palavras de Shore, é preciso lidar com os três “A”s no a dia a dia: temos que conhecer mais sobre o autismo, aceitar o que vemos e valorizar o que o autista pode proporcionar. Somente assim, deixaremos de fazer coisas “para” as pessoas com autismo e passaremos a trabalhar “com” essas pessoas, o que nos permite admirar de verdade o que elas podem oferecer para a sociedade.

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