Hannah Gadsby, humor e autismo

7/07/2020Histórias0 Comentários

Comediante diagnosticada perto dos 40 diz se sentir “única sóbria em quarto de bêbados (ou o contrário)”

Hannah Gadsby é uma humorista australiana alçada à fama mundial em 2018 após o lançamento de Nanette, um show de stand-up comedy disponível na Netflix, em que discute traumas profundos relacionados a questões de gênero e sexualidade. O mais recente trabalho da comediante, lançado em maio de 2020 na mesma plataforma, discute seu diagnóstico de autismo, recebido há cinco anos e consegue, em um surpreendente show de comédia, abordar o tema de forma lúcida e delicada.

Em Douglas, nome dado em referência a um de seus cães, Hannah começa fazendo algo que é necessário para muitos autistas no dia a dia: explicar previamente toda a experiência que será vivenciada. Desde o início, portanto, já revela à plateia que vai falar do transtorno. “Tudo no show funciona como uma grande sequência de alertas de que tenho autismo”, avisa Hannah.

Autismo é o tema central do espetáculo Douglas, o primeiro lançado após o sucesso de Nanette

De terno azul, sua cor favorita e também a que representa o transtorno, ela fala, por exemplo, sobre uma conversa desconcertante travada em um parque para cachorros sobre um assunto que considerava genuinamente interessante. Apesar do prazer dela em falar, o tema deixou o interlocutor, no entanto, claramente constrangido. Hannah, porém, não conseguiu interpretar estes sinais enquanto falava, um caso frequente entre pessoas com autismo.

Graduada em história da arte e curadoria, a humorista ocupa boa parte do show com uma divertida palestra sobre obras renascentistas, logo após falar sobre assuntos que são capazes de tirá-la do sério por não fazerem o menor sentido dentro do que percebe como lógico.

A estrutura do show em si é também uma referência à forma como os autistas estabelecem relações. “Este é um show sobre autismo e pessoas com autismo raramente causam uma boa primeira impressão. E a maioria das pessoas costuma nos dispensar por causa disso. Este é um show que recompensa pessoas que perseveram. Que vão além do desconforto só pra ver o que há do outro lado do autismo”, declara.

Público da humorista alertava constantemente que ela tinha características do Transtorno do Espectro Autista

Hannah conta que repetidas vezes pessoas que assistiam a seus shows a alertavam que talvez fosse autista. Em certo momento, decidiu ir atrás do diagnóstico, que a confirmou como autista de alto funcionamento. A expressão, no entanto, causa desconforto porque passa a impressão de que sua mente funciona bem quando, diz a humorista, não é o caso. “Um autista é como a única pessoa sóbria em um quarto cheio de bêbados – ou o contrário”, diz no show. Apesar da experiência compartilhada, a percepção é completamente diferente.

Hannah, por exemplo, tem dificuldade em se envolver em uma conversa espontânea, corriqueira para os neurotípicos. Boa parte do que ela fala sem intenções humorísticas é interpretada por neurotípicos como algo risível. Ela menciona uma entrevista sobre o dia em que um casal perguntou a raça de seus cães. “São lagottos“, disse Hannah. O casal respondeu que não sabia que a raça existia. “Eles também não”, retrucou. Os dois desconhecidos caíram no riso e Hannah não entendeu o motivo, já que realmente seus bichos de estimação não fazem mesmo a menor ideia de sua raça. “Tenho um pensamento literal e as pessoas acham isso engraçado”, afirma.

Por associar autismo ao brilhantismo em matemática, Hannah não cogitava a possibilidade de ser autista

Um dos aspectos que influenciou a demora na busca pelo diagnóstico foi não se identificar com estereótipos de pessoas com autismo. Para Hannah, autistas seriam garotos que adoram matemática ou então, alguém com o brilhantismo intelectual do protagonista de Rain Man, filme ganhador de quatro estatuetas do Oscar. A obra virou ícone na popularização do autismo, porém é criticada atualmente por restringir o perfil de autista às características do protagonista.

Raymond Rabbit, personagem principal, tem como condição associada a síndrome de Savant, que o permite ter uma capacidade intelectual notável para realizar cálculos, apesar da profunda dificuldade de interação social. É justamente esse o perfil que Hannah guardava em mente e com o qual não se identificava.

Desde 2013, o autismo é oficialmente definido como um espectro pelo Manual de Diagnóstico e Estatística da American Psychiatric Association (DSM). De acordo com a definição, autistas são afetados em diferentes graus pelo transtorno, do mais severo ao mais leve – onde Hannah se enquadra.

Questões de gênero e saúde mental marcaram a trajetória da carreira e a vida íntima de Hannah

Um papel marcante de sua carreira foi o de uma mulher que sofria de depressão, uma desordem mental que pode aparecer de forma associada ao autismo. A personagem com o mesmo nome da humorista fazia parte do seriado Please Like Me, que acumulou dez prêmios da crítica australiana ao longo de suas quatro temporadas, exibidas entre 2013 e 2016. Logo na primeira aparição, a personagem revela ter sido vítima de um abuso sexual, assim como a própria Hannah também revela ter sido vítima em seu primeiro show, ganhador de um prêmio Emmy.

Temas sensíveis não são apenas parte da carreira, mas da vida de Hannah. Assim como a personagem, ela também teve de lidar com a depressão. Além disso, com ansiedade. Enfrentou ainda a dificuldade de conseguir um emprego convencional. “Eu luto para preencher formulários. Nunca fui capaz de me candidatar a um emprego da maneira tradicional. Sempre escolhi trabalhos casuais de nível básico. Quanto mais velho você fica, mais difícil é quando você manda seu currículo e eles ficam tipo: ‘Por que você é tão velho e fez tão pouco?’”, revelou em uma entrevista para a NPR.

Humorista chegou a viver em uma barraca de camping até enfim se descobrir em um show de comédia

Após terminar a faculdade, trabalhou em uma livraria, depois como responsável pela projeção de filmes em um cinema. Até que, por cerca de dois anos, passou a viver sem endereço fixo, vivendo em uma barraca e fazendo trabalhos agrícolas em fazendas do norte de Austrália. Sem rede de apoio, Hannah diz que naquela época era incapaz de criar uma perspectiva de futuro e até ser diagnosticada, nunca tinha conseguido compreender essa parte de sua vida.

Em 2006, as coisas começaram a mudar. Hannah participou de um concurso de stand-up comedy. Simplesmente ganhou sem ter nenhuma experiência. “Nunca tinha segurado um microfone. Nunca estive em um show de comédia antes. De repente, meio que sabia o que eu estava fazendo. Assim que contei minha primeira piada e isso fez as pessoas se envolverem, fiquei com o público na palma da mão.”

Diagnóstico mudou a forma de Hannah se enxergar e levou a comediante a ser menos dura consigo mesma

A partir daí, Hannah começou sua carreira de comediante. Porém, conta que, ainda assim, se sentia deslocada. Esta sensação começou a fazer sentido em 2016, quando foi oficialmente diagnosticada no espectro. “Mudou a forma como eu entendia a mim mesma”, diz a comediante.

“Sempre pensei que não podia me considerar uma pessoa normal por estar depressiva e ansiosa. Mas a verdade é que eu estava depressiva e ansiosa porque eu não podia me considerar uma pessoa normal, porque eu não era uma pessoa normal – e eu não sabia.” Após o diagnóstico, passou a ser mais gentil consigo mesma, especialmente ao cometer erros em ambientes sociais.

Ela aponta uma contradição entre a intensa dificuldade de engatar uma simples conversa e a capacidade que tem de se conectar às pessoas quando está no palco. “Se você quer uma prova de que sou neurodivergente, sim, eu fico calma fazendo algo que deixa a maioria das pessoas morrendo de nervoso”, ironiza em sua palestra do TED, chamada “Three ideas. Three contradictions. Or not.” (“Três ideias. Três contradições. Ou não.”, em português).

Porém, explica, o texto está pronto. Naquele exato instante em cima do palco, não é preciso pensar. As palavras são, de certa forma, recitadas. O público, sentado, apenas escuta. O talento está em criar uma conexão genuína com a plateia, que depende não apenas dela, mas também do público e gera algo ainda maior que cada um e compartilhado por todos.

Fortalecer a identidade e dar voz a pessoas com autismo é uma das intenções do novo show

No caso específico de Douglas, em que todo o show é construído a partir de uma maneira de pensar relacionada ao autismo, a conexão se estabelece a partir de uma voz que raramente ocupa um espaço de protagonismo.

“Ver alguém ali contando piadas de uma forma que faz sentido pra mim foi uma experiência que eu nunca imaginava que teria”, conta a ativista Molly D. Dann-Pipinias, que também é autista, em uma coluna para a The Mighty, comunidade digital voltada ao empoderamento de pessoas com deficiência.

Molly assistiu ao show com a família e pode perceber que eles reconheciam seus comportamentos no texto de Hannah. “Levei muito tempo para encarar meu autismo como positivo, ao menos em alguns aspectos. Perceber a visão da minha família também de forma positiva fez com que me sentisse representada”, afirma a ativista.

A reação de Molly reflete o apoio que Hannah diz ter recebido da comunidade autista e casa exatamente com a expectativa da humorista relatada em uma entrevista à ABC News Australia: “Espero que possam entender que pessoas no espectro podem falar por elas mesmas. As pessoas com autismo que assistem o show podem se reconhecer e talvez se sentir um pouco mais confiantes e ter de certa forma orgulho da identidade delas a partir do modo como eu penso sobre o mundo”, declarou a humorista.

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