Autismo e música

13/07/2020TEA no Dia a Dia0 Comentários

Bandas de rock formadas por autistas mostram como experiências musicais desenvolvem pessoas com TEA

Ao som de clássicos do rock, sete jovens moradores de Brasília começaram a se reunir em uma sala emprestada de um consultório de psicologia para dar os primeiros passos da Timeout Rock Band, um grupo formado apenas por pessoas com autismo.

Matheus de Souza, Ivan Madeira, João Gabriel Guimarães, João Henrique Lopes, Marcelo Bacelar, Thiago Carneiro e João Daniel Coutinho se conheceram em setembro de 2017. O tecladista Matheus e os vocalistas Ivan e João Gabriel já estavam reunidos quando o baterista João Henrique começou a ser atendido por um novo psicólogo, idealizador da banda, que o juntou ao grupo.

Timeout começou em bar, com público de familiares, depois ganhou espaço em festivais e eventos

Após dois meses de ensaios semanais, os quatro garotos fizeram um primeiro show em 20 de dezembro, em um bar que encheu com um público ainda formado majoritariamente por familiares. Nesta época, quem assumia o baixo e a guitarra eram dois psicólogos.

Aos poucos, o grupo passou a ocupar outros espaços, com novos integrantes. Chegaram no início de 2018, Marcelo, no baixo, Tiago, na guitarra, e João Daniel, no vocal. A Timeout tocou com essa formação por dois anos seguidos no Brasília Capital Moto Week, e também na festa Na Praia, além de abrir um show do Capital Inicial, banda de veteranos do rock brasiliense.

O ensaio mudou para um estúdio de verdade, o repertório passou a contar com duas composições autorais, a banda ganhou perfil no Instagram e no Facebook, canal no YouTube e ainda estrelou um minidocumentário lançado pela Netflix.

Nome da banda se refere à importância de momentos de prazer em meio à rotina de terapia intensa

“A partir do momento em que eles se veem em algo, se veem em um grupo ali, a autoestima muda. Você começa a ter um estímulo maior, você tem um papel, você tem uma importância”, diz, no minidocumentário, um dos psicólogos que idealizaram o projeto, Paolo Rietveld.

O nome da banda, traduzido ao pé da letra para o português significa “tempo fora”, vem da ideia de ter um tempo livre de terapia.“Os meninos com autismo têm uma rotina terapêutica muito grande e a gente queria um espaço para que eles pudessem se expor”, afirma Rietveld. Além disso, a palavra out, que quer dizer fora em inglês, se pronuncia “aut”, lembrando os sons iniciais do termo autismo.

A proposta, registrada no perfil da banda no Facebook, é oferecer um hobby que seja produtivo e saudável, priorizando o bem-estar e o prazer dos meninos, permitindo que sejam parte de um coletivo e que tenham espaço e uma atividade da qual se orgulhem.

Canção autoral “Love In The Heart” foi gravada e lançada pela Timeout durante a quarentena

A canção mais nova da Timeout, “Love In The Heart”, foi lançada este ano em abril, mês da conscientização do autismo. “Amor é algo que eu toco com a minha banda”, diz em inglês um dos versos da música, que faz um medley com “Hey Jude”, sucesso dos Beatles. O clipe em preto e branco que marcou o lançamento teve de ser gravado por cada integrante individualmente dentro de casa, por conta do isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19.

A primeira composição dos garotos é “Hey You! I Need a Timeout”, lançada em fevereiro de 2019. Ela resgata justamente a ideia de que é necessário um tempo para relaxar e aproveitar o momento presente. “Sou feliz e quero voar”, diz um dos versos.

Parte dos integrantes da Timeout decidiu formar a Good Time Rock Band no ano passado

Em maio de 2019, o projeto ganhou novos contornos, voltado para o trabalho terapêutico. Parte dos integrantes do grupo, então, alçaram voo para criar uma nova banda. O vocalista João Daniel, o baterista João Henrique e o baixista Marcelo Bacelar decidiram formar a Good Time Rock Band em setembro, e passaram a ensaiar em um mini estúdio, montado na casa do baterista.

João Henrique é fã das bandas Linkin Park, Mineral e Public Enemy, admira o trabalho do baterista Mike Portnoy e adora tocar a canção Wonderwall, do Oasis, porque tem uma letra que toca o coração. “Eu me juntei a uma banda porque realmente gosto de tocar bateria e queria não só escutar música, mas fazer as minhas próprias. Entrar numa banda ia ser só questão de tempo. Mesmo se eu não tivesse numa banda, não ia parar de tocar”, conta João, que tem várias composições em processo de criação.

João tem síndrome de Beckwith-Wiedemann, que altera o padrão de crescimento de algumas partes do corpo. Ele nasceu sem o abdômen, lida com problemas no funcionamento de alguns órgãos e, por conta disso, chegou a passar por 13 cirurgias. Ele só foi diagnosticado com autismo aos 10 anos, depois que o tratamento da síndrome já estava avançado. O baterista usa óculos porque enxerga muito pouco com o olho esquerdo e tem 50% da audição comprometida.

Baterista começou tão cedo que não tem lembranças do tempo em que não se dedicava à música

A relação de João com a bateria começou aos 2 anos. As primeiras aulas aconteceram logo que a mãe percebeu o quanto ele gostava de batucar e que brincar com um xilofone o acalmava muito. Não há na memória dele registros de um tempo em que vivia sem atividades musicais. “Realmente sinto que a música é a minha vida e uma coisa que realmente amo fazer. Simplesmente adoro minha bateria”, conta o músico.

Hoje, João não vê a hora de gravar um single com o novo grupo, diz que a quarentena deixou a vida “de pernas pro ar” e que sente muita falta dos ensaios com toda a banda reunida. “Assim como todos os grupos de amigos, nós também temos nossas pequenas brigas, mas fora isso a gente se abraça pelo fato de a gente ter uma amizade, no final é isso que importa. Nós somos um grupo de amigos fazendo o que a gente ama fazer.”

O primeiro show da Good Time foi na Câmara Legislativa do Distrito Federal e o segundo, na Câmara Federal. No fim do ano, o também autista Daniel Ratter se juntou a eles para assumir a guitarra. No início de 2020, agora em quarteto, os garotos tocaram três dias em um evento em Natal. É possível acompanhar a banda em seus perfis do Instagram e do Facebook e pelo canal do YouTube.

Durante a pandemia, os ensaios que reuniam toda a banda duas vezes por semana tiveram de ser suspensos, assim como as apresentações – uma delas seria na Avenida Paulista, em São Paulo, para marcar o mês de conscientização do autismo. Atualmente, cada um ensaia e compõe dentro de casa, além de se realizar outras atividades. João Henrique faz faculdade de Letras e se dedica a estudos de bateria na Escola de Música de Brasília (EMB).

João Henrique conta que manter a interação com o público após descer do palco ainda é algo desafiador

Estudos apontam que a música é capaz de melhorar a capacidade de resposta interpessoal, ampliar habilidades de linguagem e comunicação, aumentar a atenção compartilhada e a estimulação das respostas de neurônios-espelho, que atua também em reações empáticas. Além disso, não tem efeitos colaterais. O trabalho com estímulos musicais também promove a interação com outras pessoas, o desenvolvimento intelectual e emocional e proporciona momentos de prazer.

João conta que é interessante poder expressar o que pensa e compartilhar uma experiência com pessoas que gostam do mesmo tipo de música. Estar em evidência nas apresentações não é um problema. A mãe, Adeline Dias, diz que os jovens são mais retraídos fora dos shows. “A hora que você põe no palco os quatro é como se fossem outros meninos. Tocam como se não tivesse ninguém olhando”, diz, orgulhosa.

Conversar com o público que se aproxima após os shows, no entanto, ainda é desafiador, diz João. “Falar assim com as outras pessoas, não acho que a banda tenha trazido algum tipo de mudança. Isso aí é uma coisa que se desenvolve com o tempo. Tenho essa dificuldade e reconheço isso”.

Pesquisa de 2018 apontou pela primeira vez a influência positiva de estímulos musicais em autistas

O primeiro estudo clínico a apontar os benefícios da intervenção musical para crianças em idade escolar foi publicado na Translational Psychiatry em 2018 (o original, em inglês, está disponível aqui). Atividades musicais como cantar e tocar instrumentos desenvolveram não só as habilidades de comunicação, como também aumentaram as conexões neurais em pontos-chave do cérebro das crianças com autismo, além de melhorar a qualidade de vida da família, mostra a pesquisa da Universidade de Montreal em parceria com a Universidade McGill.

O trabalho foi realizado com 51 crianças com idade entre 6 e 12 anos que, ao longo de três meses, participaram de atividades individuais guiadas por um terapeuta. Os pais preencheram questionários sobre as habilidades de comunicação social, a gravidade dos sintomas dos filhos e sobre a qualidade de vida da família. As crianças passaram por exames de ressonância magnética para verificar a atividade cerebral.

Estudo comparou crianças que receberam estímulos musicais às que receberam outros estímulos

Houve uma divisão em dois grupos, um deles estimulado musicalmente em sessões de 45 minutos, enquanto os demais recebiam outros estímulos, mas não o musical. Apesar de pais dos dois grupos relatarem que não houve redução na gravidade do autismo, pais das crianças que receberam estímulos musicais apontaram melhorias significativas nas habilidades de comunicação dos filhos e na qualidade de vida da família, que foram além das relatadas pelo outro grupo.

Os exames de ressonância magnética indicaram que a melhora na capacidade de comunicação das crianças expostas a atividades musicais pode ser resultado de um aumento da conectividade entre as regiões auditivas e motoras do cérebro. Além de uma diminuição da conectividade entre as regiões auditivas e visuais, que tendem a ser excessivamente conectadas em pessoas com autismo.

Comunicação que pode parecer corriqueira para pessoas neurotípicas é um desafio para autistas

De acordo com a pesquisadora que liderou o projeto, Megha Sharda, o equilíbrio na conectividade dessas regiões cerebrais é essencial para a interação social. Quando nos comunicamos com alguém, é necessário prestar atenção ao que a outra pessoa está dizendo, pensar com antecedência para saber quando é a nossa vez de falar e ignorar ruídos irrelevantes do ambiente. Parece algo simples para pessoas neurotípicas, mas pode ser um desafio para quem tem autismo.

O estudo indica que “evidências para a eficácia das intervenções musicais são limitadas e não há base neurocientífica para seu uso em TEA”, no entanto, afirma que, dado o impacto da música, essas atividades podem restaurar a conectividade cerebral alterada e as dificuldades sociais dos autistas.

“Todos eles tocam de ouvido. Eles não sabem ler partitura, nenhum deles sabe. Agora, conhecem as notas e aprendem tudo tocando de ouvido. Acho que a música é fundamental. Não só para eles, mas pra nós também. Traz uma paz, pode ser o ritmo que for, desde que seja o ritmo que você gosta, ela te traz uma paz, um bem-estar tão grande. E pra eles então que tem uma personalidade já musical, isso aí é tudo” conta Adeline, mãe de João.

Banda britânica com pais neurotípicos e filhos autistas toca rock em festivais e casas de show há 10 anos

Fora do Brasil, a banda de rock indie britânica The AutistiX reúne três autistas entre seus seis integrantes. O guitarrista Jack Beaven-Duggan, o baterista não-verbal Saul Zur-Szpiro e o baixista Graham Spragg têm autismo e tocam ao lado do guitarrista John Duggan (pai de Jack), de Michael Zur-Szpiro (pai de Saull), que toca gaita, e do vocalista Jim Connell.

Criada em 2010, a banda já se apresentou com repertório de clássicos do rock e composições autorais em outros países europeus, em festivais e casas de show icônicos da música britânica, como o Cavern Club, em Liverpool, onde os Beatles começaram. “Autismo é um obstáculo social, mas você pode ultrapassá-lo. Quero que as pessoas saibam que nem todo autista tem problema para gerenciar seu comportamento. Não deixo meu autismo me parar no meu dia a dia”, diz Graham em um documentário da BBC sobre a banda. “Siga suas paixões, siga seus sonhos, não deixe ninguém dizer que você não pode fazer algo.”

Arte é uma porta para possibilidades que vão além da imaginação, diz professor universitário com autismo

O contato com a música foi essencial para o professor universitário Stephen Shore, referência internacional no estudo de educação e inclusão de pessoas com TEA. Shore escapou de ser internado na infância após ser diagnosticado com o transtorno por causa da insistência dos pais, que criaram um programa de intervenção doméstica do qual fazia parte a estimulação musical.

“Seja lá o que prejudique os centros verbais do cérebro, responsáveis pela fala, deixa as conexões musicais intactas”, afirma o professor, que também se dedica a dar aulas de música para pessoas com autismo. Segundo ele, a música em particular se apresenta como um meio alternativo de comunicação para pessoas não-verbais e, no caso das verbais, ajuda a organizar a comunicação.

Shore aponta, no entanto, que as crianças respondem a maneiras diferentes a cada forma de arte e que é preciso que os pais descubram qual é a potencialidade artística dos filhos. “Você abrirá uma porta para possibilidades além de suas mais selvagens imaginações e sonhos”, avisa.

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