A relação dos autistas com objetos reguladores

23/12/2020Histórias0 Comentários

Mãe conta que a boneca favorita da Manu ajuda a distraí-la do incômodo gerado pelos estímulos ao redor

Minha filha Manu, uma criança autista de 5 anos, ama bonecas. Sempre gostou, cuidou e deu carinho. Notamos com o tempo que sempre que saíamos e deixávamos ela levar uma de suas filhas ela ficava mais calma e acessível. Quando não levava, ela ficava nervosa, chorona e com muitas estereotipias – corridinhas, tremidinhas e gritinhos.

Isso acontece porque as bonecas regulam a Manu sensorialmente. Ficar concentrada na boneca evita que a Manu se incomode com sons, luzes e pessoas à sua volta. As bonecas também ajudam na socialização da Manu. Para fazer amizade com ela, é muito mais fácil começar pela boneca, perguntar o nome e elogiar o brinquedo do que se dirigir diretamente a ela.

Objeto regulador da Manu, a boneca é ferramenta que ajuda a cumprir atividades do dia a dia

A boneca também é uma ótima ferramenta para conseguir a obediência, negociar e realizar atividades do dia a dia. Não quer tomar banho? Então vamos levar a boneca para o chuveiro. Não quer comer? Então a boneca vai fazer “aviãozinho” com a colher. Não quer fazer lição? Vamos brincar de escolinha e a boneca será a professora.

Também uso as bonecas como exemplo de comportamento. Imito a voz da boneca e finjo que ela está fazendo algo errado como bagunça, birras ou não dividir os brinquedos e questiono a Manu se a boneca pode agir assim. Juntas, explicamos que é errado o comportamento e, ao final, a boneca pede desculpas pelas suas atitudes. Assim, a Manu aprende na prática como alguns comportamentos são errados.

Objetos reguladores também podem ser uma excelente fonte de aprendizado e desenvolvimento

As bonecas são muito mais do que um simples brinquedo. Elas fazem parte do “Time Manu”. Não sei por quanto tempo ela precisará desses brinquedos para se manter regulada.

Talvez, com o passar do tempo, conforme ela cresça, substitua por objetos mais de acordo com sua idade. O que posso dizer é que hoje eu amo minhas “netas” e a maneira como elas contribuem com o desenvolvimento da Manu.

O que fazer quando o brinquedo favorito da criança autista quebra?

Quem conhece a Manu sabe o quanto ela ama bonecas e as favoritas ela faz questão de carregar para todos os lados. Uma das prediletas é a Nil, que ela adora, pois pode dar comida e dar banho – por ser toda de plástico, ela não estraga.

Dias atrás, a pobre Nil sofreu um acidente e quebrou o pé em vários pedaços. Quando a Manu viu sua filha “dodói” ficou muito triste. Andava de um lado para o outro, parecia estar muito preocupada.

Juntei todos os pedacinhos do pezinho da boneca que encontrei. Com uma cola, fui montando como um verdadeiro quebra-cabeças. Consegui refazer o pé, mas alguns pedacinhos pequenos se perderam e a cola não resolveu todo o problema. Tive a ideia de enrolar fita isolante e “engessar” a perna da paciente. Enquanto isso, Manu se isolou. Sentada, de cabeça baixa, repetia sem parar “eu estou muito triste”.

Quando terminei a “cirurgia” chamei a Manu. Todos estavam preocupados, pensando que ela não aceitaria a boneca com o pé enfaixado. Ela veio tristinha e quando viu a “filha”, abriu um sorriso enorme. Pulando, começou a gritar: “Olha mamãe, ela está novinha em folha!”

Foi um momento tenso. A Manu só não entrou em uma grande crise porque prometi que ia conseguir consertá-la. Só Deus sabe o que aconteceria se não tivesse conseguido reconstruir o pé da minha neta de plástico. Nesse momento, agradeço muito a experiência médica obtida ao longo das 16 temporadas de Grey’s Anatomy.

Daiana Camilo

Daiana Camilo

Mãe da Manu, faz cursos de Intervenções Precoces no Autismo e de Terapia ABA. Daiana e o marido Dione Ribeiro Camilo são autores do perfil no Instagram @mundo_da_manu_tea

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