A mesa incompleta: presença, cuidado e pertencimento nas famílias atípicas
A mesa incompleta: presença, cuidado e pertencimento nas famílias atípicas
No mês da família, refletir sobre desenvolvimento infantil também é olhar para as relações que sustentam o cotidiano.
O relato a seguir foi compartilhado por uma mãe e traduz, com sensibilidade, uma experiência comum a muitas famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Era para ser apenas um encontro.
Uma feijoada entre famílias que dividem mais do que um diagnóstico. Compartilham rotinas atravessadas por desafios invisíveis, afetos intensos e constantes adaptações. Era o encontro das famílias do Joaquim, do Gabriel e do Jake.
O lugar era acolhedor. Havia animais, um playground convidativo, espaço para circular. Ainda assim, cada criança ocupava aquele ambiente à sua maneira. Uma se encantava com os peixes. Outra se fixava nas aves. Algumas tentativas de aproximação com outras crianças terminavam em afastamento, estranhamento, silêncio.
Na mesa, ninguém permanecia por muito tempo.
A cada instante, uma cadeira vazia. Um adulto que se levanta. Um olhar atento acompanhando um interesse específico, mediando uma interação, sustentando um momento. Um cuidado contínuo, quase invisível para quem observa de fora, mas absolutamente presente para quem vive.
Ao redor, outras mesas permaneciam completas. Estáveis. E olhavam.
Um olhar que misturava curiosidade, desconforto e desconhecimento.
A feijoada esfriava. A bebida esquentava. O brinde não se completava.
A mesa estava cheia, mas nunca inteira.
E é nesse ponto que a cena cotidiana se transforma em algo maior.
O que, à primeira vista, pode ser interpretado como desorganização ou ausência de limites, frequentemente revela outra coisa: diferentes formas de perceber, se engajar e responder ao ambiente.
Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar padrões específicos de interesse, variações no tempo de permanência em atividades e diferenças na forma de iniciar ou sustentar interações sociais. O que se vê como “levantar o tempo todo” pode estar relacionado à busca por regulação, à necessidade de previsibilidade ou ao engajamento em interesses específicos.
Da mesma forma, o que parece ausência à mesa pode, na verdade, ser presença em movimento.
Presença que acontece fora da cadeira, no acompanhamento atento, na mediação constante, na leitura sensível dos sinais da criança.
Nesse contexto, o brincar e a exploração do ambiente ganham outro significado. É ali, no deslocamento, na repetição de percursos, no interesse por detalhes, que muitas dessas crianças organizam suas experiências, regulam seus estados internos e constroem formas possíveis de interação com o mundo.
Também é nesse espaço que a comunicação acontece, ainda que nem sempre da forma esperada. Olhares, gestos, movimentos e escolhas revelam intenções, preferências e tentativas de participação. Cabe ao adulto reconhecer, interpretar e responder a essas iniciativas, ampliando possibilidades de interação e linguagem.
Entre as famílias, isso já é compreendido.
Há uma linguagem compartilhada, muitas vezes silenciosa, em que cada saída da mesa, cada interrupção, cada reorganização faz sentido. Não como falha, mas como parte do funcionamento.
Para quem observa de fora, pode parecer uma mesa incompleta.
Mas, sob uma perspectiva do desenvolvimento, trata-se de uma mesa em constante adaptação, sustentada por cuidado, responsividade e presença ativa.
Uma mesa que se organiza de outra forma.
E, no mês da família, essa cena nos convida a ampliar o olhar: famílias não são definidas pela forma como se apresentam, mas pelas relações que constroem.
Porque, ali, o que parecia faltar era exatamente o que sustentava tudo.
Vínculo.
Compreensão.
Presença.

Jessica Ohara
Bacharel em Ciências Contábeis, graduanda de Fonoaudiologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e mãe atípica.
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Jessica, bom dia! Quero deixar registrado o quanto achei sensível e profundo seu texto. Quanta poesia! Podemos ter um olhar diferenciado para todas as experiências que se apresentam diante de nós. Tudo pode ser lido de “defrientse” formas, depende do olhar e das experiências vividas por cada um, não é mesmo?