Compreender antes de intervir: caminhos para o desenvolvimento no TEA
Compreender antes de intervir: caminhos para o desenvolvimento no TEA
Uma proposta de olhar para o desenvolvimento a partir da regulação, da comunicação e do respeito às diferentes formas de funcionamento.
No mês do orgulho autista, convidamos a um deslocamento de olhar. Mais do que intervir, é preciso compreender. Mais do que corrigir, é necessário apoiar o desenvolvimento a partir das singularidades de cada criança.
Durante muito tempo, o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi abordado a partir de uma lógica centrada na modificação de comportamentos observáveis. O foco recaía sobre aquilo que precisava ser reduzido, ajustado ou substituído para que a criança se aproximasse de padrões considerados esperados.
Avanços recentes nas ciências do desenvolvimento e nas práticas baseadas em evidências têm ampliado essa compreensão. Hoje, reconhece-se que as ações da criança estão diretamente relacionadas a processos como regulação emocional, processamento sensorial e comunicação social, que nem sempre são imediatamente visíveis (Lord et al., 2020).
Nesse contexto, diferentes formas de agir, reagir e participar deixam de ser vistas apenas como inadequações e passam a ser compreendidas como expressões de um funcionamento neurológico singular. Crianças no espectro podem apresentar diferenças na forma como percebem o ambiente, organizam suas respostas e se engajam socialmente, o que exige do adulto uma leitura mais sensível e contextualizada (Tavassoli et al., 2021).
A regulação emocional ocupa um papel central nesse processo. Evidências indicam que muitas respostas da criança estão diretamente relacionadas à sua capacidade de organizar estados internos diante das demandas do ambiente, sendo a desregulação frequentemente associada a sobrecargas sensoriais ou a dificuldades de adaptação a mudanças (Schaaf et al., 2019). Assim, o que pode ser interpretado como oposição ou desinteresse pode, na realidade, refletir uma tentativa de lidar com experiências que excedem os recursos disponíveis naquele momento.
Paralelamente, a comunicação deve ser compreendida em sua dimensão ampliada. Antes da linguagem verbal, a criança já se comunica por meio de gestos, olhares, movimentos e escolhas. Pesquisas na área de comunicação social no TEA reforçam que a intenção comunicativa pode se manifestar de múltiplas formas e que o papel do adulto é reconhecer, interpretar e expandir essas iniciativas (Brady et al., 2020).
Essa perspectiva desloca o foco da intervenção: em vez de priorizar a eliminação de determinadas respostas, as abordagens contemporâneas enfatizam a construção de contextos que favoreçam o engajamento, a regulação e a comunicação funcional.
Intervenções naturalísticas e mediadas pelo adulto têm demonstrado impacto significativo no desenvolvimento de habilidades sociais e comunicativas, especialmente quando baseadas no interesse da criança e na responsividade do adulto (Sandbank et al., 2020). Isso implica reconhecer que o desenvolvimento não acontece de forma isolada, mas na relação. O adulto passa a ter um papel ativo como mediador, ajustando o ambiente, antecipando situações e oferecendo suporte para que a criança participe de forma mais organizada e significativa.
Do ponto de vista da neurodiversidade, esse movimento também representa um avanço ético. Compreender não significa deixar de intervir, mas intervir com base no respeito às diferenças e na promoção de autonomia e participação. Trata-se de ampliar possibilidades, e não de padronizar formas de ser.
Nesse sentido, a pergunta que orienta a prática deixa de ser “Como fazer isso parar?” e passa a ser “O que isso nos comunica e como podemos apoiar?”.
Ao deslocar o olhar da correção para a compreensão, a intervenção deixa de ser um esforço de ajuste e passa a ser um suporte real ao desenvolvimento. Como propõe Barry Prizant, em Uniquely Human: A Different Way of Seeing Autism, ao compreendermos o autismo como uma forma de ser, e não apenas como um conjunto de déficits, torna-se possível apoiar a criança em seus processos de regulação, comunicação e participação, respeitando seu modo singular de estar no mundo.
Referências:
- Lord, C. et al. (2020). Autism spectrum disorder. The Lancet. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)32528-7
- Sandbank, M. et al. (2020). Project AIM: Autism intervention meta-analysis. Psychological Bulletin. https://doi.org/10.1037/bul0000215
- Schaaf, R. C. et al. (2019). An intervention for sensory difficulties in children with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders. https://doi.org/10.1007/s10803-018-3723-5
- Tavassoli, T. et al (2021). Sensory reactivity in autism spectrum disorders. Molecular Autism. https://doi.org/10.1186/s13229-021-00408-7
- Brady, N. C. et al. (2020). Communication services and supports for individuals with severe disabilities. AJIDD. https://doi.org/10.1352/1944-7558-125.2.95
- Prizant, B. M. (2015). Uniquely Human: A Different Way of Seeing Autism. (versão em português: Humano à sua maneira)
Aline Andriotti
Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.
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