Microbiota intestinal e autismo: o que a ciência realmente já sabe?

8/06/2026Pesquisa & Evidências0 Comentários

Microbiota intestinal e autismo: o que a ciência realmente já sabe?

 

A microbiota intestinal é um conjunto de pequenos seres vivos chamados de microrganismos, que vivem em nosso corpo e no nosso trato gastrointestinal, sendo um ecossistema dinâmico, ou seja, que pode ser modificado o tempo todo. 

A microbiota também atua como responsável por manter o equilíbrio do nosso corpo internamente e externamente, também conhecido como homeostase corporal, influenciando as defesas do corpo e os sistemas imunológico, metabólico e neurológico (Silva, et al., 2025). 

Em relação ao autismo, as evidências científicas indicam que indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam alterações gastrointestinais significativas quando comparados às pessoas neurotípicas, o que potencializou o aumento de investigações em torno da possível relação da alteração da microbiota entre pessoas com autismo. É válido ressaltar que a associação foi motivada pela relação do TEA (um distúrbio do neurodesenvolvimento) e o eixo intestino-cérebro, um sistema de duas direções de comunicação – entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso central (Taniya, et al., 2022). 

O intestino abriga o sistema nervoso entérico, popularmente chamado de “segundo cérebro”, que se conecta ao sistema nervoso central por nervos, especialmente pelo nervo vago. Essa comunicação se dá por vias neurais, com a produção de neurotransmissores e vias metabólicas, com a geração de ácidos graxos de cadeia curta modulando as respostas inflamatórias, ou seja, alterações na microbiota intestinal influenciado os processos cerebrais e comportamentais. No contexto do TEA, o eixo intestino-cérebro é visto como um possível mediador entre o desequilíbrio da microbiota (disbiose) intestinal, que causa alterações gastrointestinais comuns, como dor e constipação, incluindo manifestações comportamentais (Taniya, et al., 2022).

A microbiota intestinal nos indivíduos com TEA, a chamada disbiose, se trata deste desequilíbrio na composição microbiana do intestino, com a redução de microrganismos benéficos, aumento da multiplicação de microorganismo pró-inflamatórios, alterações na produção de metabólitos e comprometimento da barreira intestinal, responsável pela proteção do trato gastrointestinal contra microrganismos patógenos (causadores de doenças, inflamações etc.). 

No TEA, a disbiose intestinal é causada por muitos fatores e observa-se redução de microorganismos benéficos e aumento nos grupos de microrganismos potencialmente inflamatórios (Li, et al., 2024).

O grupo Bacteroidetes, um dos grupos de microrganismos que vive em nosso organismo, é observado em menor quantidade, sendo ele o responsável por produzir ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que atuam na modulação anti-inflamatória, manutenção da integridade da barreira intestinal e respostas imunes. 

Outros grupos como Prevotella, Ruminococcus e Bacteroides são observados também em menor quantidade, sendo que desempenham um papel importante na fermentação de fibras e amido, que contribuiriam para produção de AGCC. Já o grupo Clostridium é encontrado em maior quantidade e relacionado a distúrbios gastrointestinais, como diarreia, constipação e dor abdominal (Li, et al., 2024). 

No geral, o sistema do eixo “intestino cérebro” é mais sensível durante os primeiros 1.000 dias de vida (desde a gestação até o período neonatal), relacionando fatores como o tipo de parto, a amamentação, uso de antibióticos, dieta da mãe durante a gestação, estresse e infecções. Esses fatores poderiam colaborar significativamente para as alterações na microbiota intestinal nesses períodos iniciais da infância e desenvolvimento, afetando diretamente o sistema imunológico, a regulação emocional, o comportamento social e a cognição. O estabelecimento desta relação direta entre a disbiose intestinal e o eixo intestino-cérebro com o TEA não é totalmente conhecida e ainda está sendo estudada e investigada na literatura científica.  (Chernikova, et al., 2021).

O tratamento da microbiota com o uso de probióticos, que seriam microrganismos vivos responsáveis por manter o equilíbrio da flora intestinal, ganhou destaque como uma possível forma de intervenção para pessoas com autismo. Estudos indicam que certas bactérias, como Lactobacillus e Bifidobacterium, podem atuar como moduladoras, influenciando a produção de neurotransmissores (como GABA e glutamato), AGCC e vitaminas do complexo B (Rahim, et al., 2023). 

As pesquisas recentes sugerem que a administração dos probióticos em pessoas com TEA poderiam auxiliar na redução de sintomas gastrointestinais e modificar a composição da microbiota (tratando a disbiose), influenciando também, de forma indireta, a função cerebral e melhora de funções cognitivas e comportamentais (Rahim, et al., 2023). 

É necessário reforçar que não existem evidências claras e robustas de que a suplementação de probióticos, de alguma forma, trate ou melhore sintomas comportamentais do TEA – os estudos ainda são muito pequenos e limitados, além de que fatores externos, como a dieta e o meio ambiente, também influenciam os resultados. Ou seja, o uso de probióticos poderiam auxiliar com a redução dos sintomas gastrointestinais e se mostram como uma intervenção complementar promissora no tratamento, porém não devem ser considerados como uma solução ou “cura milagrosa” para os sinais do autismo.  Ainda são necessárias muitas pesquisas para assumir e concretizar como os probióticos podem complementar as intervenções no TEA (Rahim, et al., 2023). 

Além disso, não apenas em relação ao uso de probióticos, mas alterações na dieta ou nos medicamentos utilizados principalmente por crianças e adolescentes sem orientação prévia de um profissional especializado, aumentam riscos de inadequações nutricionais. Um tratamento que não é completamente comprovado cientificamente também pode atrasar tratamentos eficazes e que trariam uma melhora mais significativa (Rahim, et al., 2023) ao paciente. 

Este artigo contou com a colaboração de Laura Bezerra Rodrigues, estagiária de nutrição do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Referências:

  • DA SILVA, G.T. et al. Microbiota intestinal: importância, influências dietéticas e comportamentais. Manuscripta Médica, [S. l.], v. 8, p. 49–57, 2025.
  • RAHIM, F. et al. Probiotics, prebiotics, and synbiotics for patients with autism spectrum disorder: a meta‑analysis and umbrella review. Frontiers in Nutrition, v. 10, p. 1294089, 2023.
  • CHERNIKOVA, M. A. et al. The Brain‑Gut‑Microbiome System: Pathways and Implications for Autism Spectrum Disorder. Nutrients, v. 13, n. 12, art. 4497, 2021.
  • TANIYA, M. A. et al. Role of Gut Microbiome in Autism Spectrum Disorder and Its Therapeutic Regulation. Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, v. 12, art. 915701, 2022.
  • LI, Y. et al. Omic characterizing and targeting gut dysbiosis in children with autism spectrum disorder: symptom alleviation through combined probiotic and medium‑carbohydrate diet intervention ‑ a pilot study. Gut Microbes, v. 16, n. 1, p. 2434675, 2024.
  • GUIMARÃES TOMAZINI DA SILVA, Felipe; VOLPINI, Helena; VISCOVINI GOMES DA SILVA, Marcela; OLIMPIO DOS SANTOS REMIRO, Mariana; CAVALHEIRO LIMA, Giovana; SCHIAVETO, Adriana Paula Sanchez. Microbiota intestinal: importância, influências dietéticas e comportamentais. Manuscripta Medica, [S. l.], v. 8, p. 49–57, 2025. DOI: 10.59255/mmed.2025117. Disponível em: https://manuscriptamedica.com.br:443/revista/index.php/mm/article/view/117. Acesso em: 16 fev. 2026.
Priscila Maximino

Priscila Maximino

Nutricionista e pesquisadora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi. Possui mestrado e especialização pela Unifesp. Além de formação internacional em alimentação infantil, é autora de livros e artigos científicos.

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