Experiência alimentar nas férias: quando a alimentação também muda no TEA

8/07/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Experiência alimentar nas férias: quando a alimentação também muda no TEA

Para a criança, as férias são esperadas, comemoradas e carregadas de expectativas: é o momento em que o relógio desacelera, a rotina toma outra forma e o dia a dia toma novas possibilidades. Como nutricionista, vejo esse período não apenas como um intervalo no calendário, mas como uma oportunidade de expansão e intencionalidade. Se programar para quebrar padrões e a rigidez do cotidiano é fundamental para o desenvolvimento da flexibilidade. Para famílias que lidam com crianças no espectro autista, essa “liberdade” dos dias sem os períodos da escola pode parecer como uma armadilha. 

Para o indivíduo com TEA, a rotina é mais que uma proteção, ela organiza o seu mundo interior. Do ponto de vista de ambiente alimentar, em casa, o prato tem a mesma cor, o suco é da mesma marca e o ambiente pode ser bem previsível e controlado. Durante as programações de férias, ao escolhermos comer fora de casa, renunciamos à previsibilidade. Mesmo sendo possível escolher o mesmo cardápio de casa, a comida tem tempero e apresentação diferentes, e muitas vezes formas de preparo distintas das caseiras. 

O “comer fora” não é uma busca por nutrientes; é busca também de prazer, e, também uma forma de exercitar a flexibilidade cognitiva diante de um cardápio diferente. Essa “surpresa” pode gerar uma resistência natural, pois a criança cria diferentes expectativas, o que exige um esforço emocional muito maior do que o enfrentado na rotina do dia a dia, na escola e em casa. 

A experiência de comer fora impõe o que pode ser chamado de demandas simultâneas. Além da criança estar diante de um tempero diferente, estamos pedindo que ela lide com o garçom fazendo perguntas, com a postura à mesa, com a cadeira diferente, em um lugar público e com a interação social – tudo misturado e ao mesmo tempo. Um ambiente alimentar diferente, com todas as informações sensoriais diferentes, que podem tanto atrair como amedrontar. 

Como especialista, entendo que é necessário orientar as famílias a olhar além do comportamento alimentar em si e ampliar o olhar para o ambiente. Muitas vezes, o que parece uma recusa alimentar rígida é, na verdade, uma resposta à sobrecarga dos diferentes estímulos do ambiente. A criança pode não estar rejeitando o alimento em si, mas comunicando que seu sistema sensorial entrou em colapso devido ao excesso de estímulos diferentes do restaurante. Quando o cérebro está em modo de sobrevivência devido ao barulho ou cheiro excessivo, o apetite desaparece e a única prioridade passa a ser a recusa, a fuga ou o isolamento. 

Como o período de férias é um tempo em que essas refeições fora de casa são mais comuns, é também uma oportunidade de ressignificar os momentos das refeições compartilhadas com a criança com TEA.  O sucesso não é a criança “limpar o prato” de um alimento novo, mas sim conseguir participar e estar no momento com a família, amigos, vivendo a experiência social com bem-estar e regulação emocional. As expectativas e o olhar diante da refeição podem contribuir para o bem-estar nestes diferentes momentos.

É importante lembrar sempre que há uma “escada do comer”, entendendo que tolerar o cheiro de um prato novo ou apenas interagir com ele já é um degrau de um progresso de aceitação.

Algumas estratégias como o uso de histórias sociais para antecipar o local da viagem ou o uso de recursos sensoriais (como abafadores de ruído ou objetos de hiperfoco) são ferramentas para tornar o ambiente externo mais acolhedor. Além disso, outras ações podem contribuir para passar esses dias de férias com maior conforto, como: 

Histórias sociais e apoio visual: use fotos do restaurante ou da viagem para criar uma narrativa do que acontecerá. Isso ajuda a criança a antecipar o ambiente e as sensações, reduzindo a ansiedade.

Rotinas visuais: mantenha a sequência das etapas (ex.: lavar as mãos → sentar → comer) para dar segurança interna.

Objetos de segurança: leve um dos utensílios familiares (pratos ou talheres de casa) para criar um ponto de conforto em locais desconhecidos.

Alimento de segurança: garanta que no local escolhido tenha sempre, pelo menos, um item que a criança já aceite e com o qual se sinta segura.

Aproveite as férias da melhor forma: seja intencional, se programe com antecedência, considere as necessidades específicas da criança com TEA e, ao mesmo tempo, proponha novos desafios alimentares e aproveite com leveza e diversão!

Referências 

Instituto Pensi. DSM-5 e o diagnóstico de TEA. São Paulo: Fundação José Luiz Egydio Setúbal; 2020

Maitin-Shepard M, et al. Food, nutrition, and autism—from soil to fork. Am J Clin Nutr. 2024;120:240-256

Autismo e Realidade. O que é o autismo (TEA)? Sinais e características [Internet]. São Paulo: Autismo e Realidade; [citado 2026 abr 28]. Disponível em: https://autismoerealidade.org.br

Pérez-Cabral ID, Bernal-Mercado AT, Islas-Rubio AR, Suárez-Jiménez GM, Robles-García MÁ, Puebla-Duarte AL, et al. Exploring Dietary Interventions in Autism Spectrum Disorder. Foods. 2024;13(19):3010

Matthews JS, Adams JB, et al. Ratings of the effectiveness of 13 therapeutic diets for Autism Spectrum Disorder: results of a National Survey. J Pers Med. 2021;11(878)

Sanlier N, Ozler E. Nutritional Approaches in ASD: A Review. Ankara Medipol University; 2025

Adams JB, Audhya T, Geis E, Gehn E, Fimbres V, Pollard EL, et al. Comprehensive Nutritional and Dietary Intervention for Autism Spectrum Disorder—A Randomized, Controlled 12-Month Trial. Nutrients. 2018;10(3):369

Nutricionista e pesquisadora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi. Possui mestrado e especialização pela Unifesp. Além de formação internacional em alimentação infantil, é autora de livros e artigos científicos.

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