Entre insistir e recuar

27/07/2026Vida & Neurodiversidade0 Comentários

Entre insistir e recuar

Como a regulação, o respeito e a participação ajudam a criança a enfrentar novos desafios, inclusive durante as férias.

As férias costumam ser um tempo de descanso, encontros em família e novas experiências. Para muitas crianças, especialmente aquelas com diferenças no neurodesenvolvimento, as férias também representam um período de intensas adaptações. A rotina muda, os horários deixam de ser previsíveis, surgem passeios, viagens, visitas, lugares desconhecidos e uma infinidade de estímulos que o cérebro precisa processar.

É justamente nesse contexto que muitos pais percebem mudanças no comportamento dos filhos. Aquela criança que costuma participar das atividades passa a recusar um passeio. O restaurante tão esperado termina antes mesmo da refeição. Uma viagem planejada com carinho começa com uma crise inesperada. E, diante dessas situações, surge uma dúvida que acompanha muitas famílias: quando é importante incentivar a criança a enfrentar um desafio e quando é preciso reconhecer que aquela experiência, naquele momento, ultrapassou os recursos de que ela dispõe para participar?

“Mais cinco minutos.”

“Vamos só experimentar.”

“Você consegue.”

“Não desiste agora.”

Quem convive com uma criança provavelmente já disse ou ouviu essas frases. Elas nascem do desejo de ensinar, fortalecer a autonomia e ampliar as experiências da infância. Afinal, crescer também significa descobrir novas possibilidades, experimentar o desconhecido e desenvolver recursos para lidar com os desafios da vida.

Mas, algumas vezes, do outro lado encontramos um corpo que expressa desconforto, um olhar que se desvia, uma recusa que parece intransponível ou uma crise que surge antes mesmo de conseguirmos concluir a frase.

Nesses momentos, é natural que os adultos se sintam divididos entre insistir ou interromper a atividade. No fundo, toda família deseja o mesmo: que a criança desenvolva autonomia, participe cada vez mais das experiências do cotidiano e descubra do que é capaz. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre incentivar novos passos e oferecer os apoios necessários para que eles aconteçam.

A boa notícia é que essa decisão não precisa ser guiada apenas pela intuição. A neurociência do desenvolvimento nos mostra que compreender como o cérebro responde às exigências do ambiente pode transformar a maneira como enxergamos esses momentos.

O cérebro nem sempre está disponível para participar

Nós, adultos, também conhecemos dias em que tudo parece exigir mais esforço. Dormimos mal, estamos preocupados, lidamos com ambientes barulhentos ou acumulamos tarefas. Nessas situações, até uma conversa simples pode parecer mais difícil. Com as crianças acontece o mesmo.

Durante as férias, essa sensação pode se intensificar. Mudanças na rotina exigem adaptações constantes: novos ambientes, pessoas diferentes, regras menos previsíveis, alterações no sono, na alimentação e uma quantidade maior de estímulos sensoriais. Embora essas experiências possam ser extremamente enriquecedoras, elas também aumentam a carga de processamento do cérebro.

Participar de uma brincadeira, compreender uma orientação, esperar a sua vez, lidar com mudanças, comunicar um desconforto ou experimentar uma atividade nova depende da integração de diversos processos neurais. Atenção, linguagem, processamento sensorial, memória de trabalho, funções executivas e autorregulação precisam atuar de forma coordenada para que a criança consiga participar daquela experiência.

Quando as demandas do ambiente ultrapassam os recursos de que a criança dispõe naquele momento para processá-las, o organismo responde ao estresse. Não porque ela escolheu não colaborar, mas porque seu cérebro está mobilizando energia para recuperar o equilíbrio diante daquela situação.

Isso ajuda a compreender por que uma criança que ontem participou de um passeio, de um almoço em família ou de uma viagem hoje pode não conseguir fazer o mesmo. Não necessariamente porque desaprendeu ou “regrediu”, mas porque suas condições para participar mudaram.

Essa mudança de perspectiva é importante. Em vez de concentrarmos nossa atenção apenas naquilo que a criança fez ou deixou de fazer, passamos a compreender o comportamento como uma fonte de informação sobre a maneira como ela está vivenciando aquela experiência.

Na fonoaudiologia, compreendemos que toda comunicação tem uma intenção. Nem sempre ela acontece por meio das palavras. Muitas vezes, ela aparece no corpo, na forma como a criança participa ou deixa de participar de uma atividade, na recusa, no afastamento, no choro, na rigidez ou na dificuldade de permanecer em uma interação.

Isso não significa que toda recusa deva ser aceita sem mediação. Significa reconhecer que ela comunica algo.

Talvez a linguagem utilizada tenha sido complexa. Talvez o ambiente esteja sensorialmente intenso. Talvez a atividade exija mais tempo de processamento. Talvez aquela criança simplesmente precise reorganizar seus recursos antes de tentar novamente.

Quando compreendemos que o comportamento também comunica e revela como a criança está vivenciando determinada experiência, transformamos a forma de compreender o desenvolvimento. O foco deixa de estar na tentativa de modificar uma resposta e passa a ser a compreensão das condições que favorecem sua participação. Isso significa observar a criança, ajustar os apoios, reorganizar o ambiente e oferecer desafios compatíveis com seus recursos naquele momento.

Esse olhar está alinhado à Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), proposta pela Organização Mundial da Saúde. Em vez de perguntar apenas o que a criança consegue fazer, a CIF convida profissionais e famílias a compreenderem em quais condições ela consegue participar. Sob essa perspectiva, o desenvolvimento não depende apenas das habilidades individuais, mas da interação entre a criança, o ambiente e os apoios disponíveis. Favorecer o desenvolvimento, portanto, significa criar oportunidades para que ela participe das experiências do cotidiano de forma significativa, construindo comunicação, autonomia e novas aprendizagens a partir dessa participação.

Entre insistir e recuar, existe o respeito

Encontrar o equilíbrio entre incentivar novos desafios e oferecer apoio talvez seja uma das tarefas mais delicadas. Não existe uma fórmula pronta, porque cada criança responde de forma diferente às experiências do cotidiano e porque essa resposta também muda conforme o contexto, o ambiente e seu estado de regulação.

Respeitar a criança, portanto, não significa interromper qualquer desafio diante da primeira dificuldade, nem reduzir expectativas sobre seu desenvolvimento. Significa reconhecer que aprender depende de condições que permitam ao cérebro permanecer disponível para participar da experiência. É justamente nesse ponto que o papel do adulto se torna essencial.

Nos primeiros anos de vida, a autorregulação ainda está em construção. Antes que a criança consiga organizar sozinha sua atenção, suas emoções e seu comportamento, ela depende da corregulação oferecida pelos adultos que cuidam dela. Um olhar acolhedor, uma linguagem clara, uma rotina previsível, um apoio visual, uma pausa no momento certo ou um ambiente menos estimulante não representam facilidades. São recursos que ajudam o cérebro a recuperar condições para participar, comunicar-se e aprender.

Desenvolvimento não significa expor a criança a desafios cada vez maiores, mas oferecer experiências nas quais ela possa participar de forma significativa, apoiada quando necessário e encorajada a ampliar, gradualmente, suas possibilidades de interação com o mundo.

Na prática, isso exige uma mudança de olhar. Em vez de concentrarmos nossos esforços apenas naquilo que esperamos que a criança faça, passamos a observar do que ela precisa para conseguir participar daquela experiência. Às vezes, será mais tempo para processar uma informação. Em outras, um ambiente mais tranquilo, um apoio visual, uma adaptação na atividade ou simplesmente a oportunidade de expressar sua opinião.

Ouvir a criança também faz parte desse processo. Sempre que possível, ela deve participar das decisões que envolvem sua rotina, expressando preferências, desconfortos e escolhas por meio da fala, de gestos, da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) ou de qualquer outra forma de comunicação funcional. Considerar sua perspectiva fortalece o vínculo, aumenta o engajamento e favorece uma participação mais significativa nas experiências do cotidiano.

Aprender a andar de bicicleta talvez seja uma boa metáfora para esse processo. Nos primeiros momentos, alguém segura o banco, ajuda a manter o equilíbrio e transmite segurança. Aos poucos, esse apoio vai diminuindo até deixar de ser necessário. O objetivo nunca foi manter a bicicleta apoiada, mas permitir que a criança descobrisse, no seu tempo, que era capaz de seguir sozinha.

Na intervenção fonoaudiológica e na vida cotidiana, acontece o mesmo. Os apoios não atrasam o desenvolvimento nem competem com a autonomia. Ao contrário, são eles que tornam possível a construção da confiança necessária para que a criança experimente, participe e descubra novas possibilidades.

Talvez a pergunta seja outra

Diante de uma dificuldade, talvez a pergunta mais importante não seja se devemos insistir ou recuar. Talvez seja:

Como posso criar as condições para que esta criança consiga participar desta experiência?

Durante as férias, essa pergunta pode transformar completamente a forma como planejamos os dias. Em vez de esperar que a criança suporte um passeio longo, um restaurante cheio ou uma programação intensa, podemos pensar em como favorecer sua participação. 

Planejar pausas, escolher horários mais tranquilos, antecipar o que vai acontecer, levar recursos que tragam previsibilidade, adaptar o tempo de permanência ou simplesmente reconhecer o momento de ir embora não significa “ceder”. Significa criar condições para que aquela experiência seja vivida de maneira positiva.

Esses ajustes não reduzem as oportunidades de desenvolvimento. Pelo contrário: ampliam as possibilidades de participação, fortalecem a confiança da criança em suas próprias capacidades e constroem experiências de sucesso que servirão de base para desafios futuros.

Talvez esse seja um dos maiores aprendizados que as férias podem nos oferecer. O desenvolvimento não acontece quando exigimos que a criança enfrente tudo sozinha, nem quando retiramos todos os desafios do seu caminho. Ele acontece quando oferecemos apoio suficiente para que ela participe, explore, comunique-se, experimente e descubra, pouco a pouco, que é capaz de ir além do que conseguia ontem.

Entre insistir e recuar, existe um princípio que nunca deve ser perdido: o respeito pela criança. Respeito por suas formas de comunicar, pelo seu tempo, pelas suas necessidades e pelo seu direito de participar do mundo de maneira significativa.

É desse encontro entre respeito, participação, apoio e desafios possíveis que nasce um desenvolvimento verdadeiramente significativo.

Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP.Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.

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