Pertencer é mais do que estar: o que torna uma experiência realmente inclusiva?

24/08/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Pertencer é mais do que estar: o que torna uma experiência realmente inclusiva?

“A pluralidade é a condição da ação humana porque somos todos iguais, isto é, humanos, de um modo tal que ninguém jamais é igual a qualquer outro que viveu, vive ou viverá.”
— Hannah Arendt, A condição humana

Quando falamos em inclusão, uma das primeiras imagens que costuma surgir é a da presença: estar na escola, frequentar a universidade, ocupar um espaço de trabalho, participar de uma atividade, ter acesso a um serviço de saúde ou compartilhar os mesmos espaços de convivência que as demais pessoas. A presença é, sem dúvida, uma dimensão fundamental da inclusão. Mas estar em um lugar significa, necessariamente, fazer parte dele? Ocupar fisicamente um espaço garante que uma pessoa possa participar, comunicar-se, fazer escolhas, estabelecer relações e ser reconhecida como parte daquele contexto? 

Para pessoas com autismo, essas perguntas são especialmente relevantes porque muitas barreiras encontradas no cotidiano não impedem necessariamente a entrada em um ambiente, mas podem dificultar sua participação depois que essa entrada acontece. É possível estar em uma sala de aula sem conseguir acompanhar uma atividade, em um ambiente de trabalho sem ter clareza sobre expectativas e rotinas ou em uma situação social sem encontrar condições para participar de maneira confortável e significativa. Por isso, pensar em inclusão exige ir além da presença e perguntar: quais condições favorecem a participação e permitem que a pessoa faça parte daquele espaço sem precisar deixar de ser quem é?

Essa perspectiva dialoga diretamente com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015. A LBI estabelece como objetivo assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Ao compreender a deficiência a partir da interação entre impedimentos de longo prazo e barreiras que podem obstruir a participação plena e efetiva na sociedade, a legislação desloca o olhar exclusivamente das características individuais para a relação entre pessoa e contexto. As barreiras podem estar na comunicação, na informação, nas atitudes, nos comportamentos e na própria organização dos ambientes. 

Assim, diante de uma dificuldade de participação, não basta perguntar o que essa pessoa precisa aprender para conseguir participar. Também é necessário perguntar: o que existe nesse ambiente que está dificultando sua participação? Essa mudança de perspectiva não elimina a importância dos apoios e das intervenções individualizadas. Ao contrário, permite compreendê-los de maneira mais ampla, considerando necessidades, habilidades e potencialidades e buscando favorecer autonomia e participação social. Promover desenvolvimento e remover barreiras não são caminhos opostos: podem e, frequentemente, precisam caminhar juntos.

É nesse ponto que ouvir as pessoas com autismo se torna fundamental. Não existe uma única experiência de ser autista, assim como não existe uma única maneira de comunicar necessidades, participar de relações ou vivenciar os ambientes. Diferentes pessoas podem apresentar diferentes formas de comunicação, necessidades de apoio, sensibilidades, interesses e modos de interação. Por isso, falar sobre inclusão sem considerar a perspectiva de quem vivencia essas experiências pode produzir soluções bem-intencionadas, mas pouco efetivas. 

Escutar significa perguntar, observar, considerar diferentes formas de comunicação e reconhecer a pessoa com autismo como participante das decisões que dizem respeito à sua própria vida. Também significa compreender que participar não exige necessariamente fazer uma atividade da mesma maneira que as outras pessoas. Uma pessoa pode precisar de mais tempo para responder, preferir a escrita à fala em determinadas situações, utilizar recursos visuais ou Comunicação Aumentativa e Alternativa, precisar de previsibilidade ou de determinadas condições sensoriais para permanecer em um ambiente. Reconhecer essas possibilidades não significa diminuir expectativas, mas compreender que igualdade de participação não exige uniformidade nas formas de participar.

Mas talvez exista uma dimensão da inclusão mais difícil de medir: o pertencimento. É possível garantir acesso, oferecer adaptações e remover determinadas barreiras e, ainda assim, produzir experiências nas quais a pessoa se sente permanentemente como alguém que está “de fora”. Pertencer envolve uma dimensão relacional: ser reconhecido, considerado, escutado e percebido como alguém que tem um lugar legítimo naquele espaço. Não significa que todos precisem compartilhar os mesmos comportamentos, interesses ou formas de interação, mas que a diferença não seja transformada em uma condição permanente de afastamento. 

A reflexão de Hannah Arendt sobre a pluralidade humana é especialmente potente nesse sentido: somos iguais enquanto seres humanos, mas não somos intercambiáveis. A pluralidade pressupõe justamente a coexistência entre igualdade e diferença, entre aquilo que compartilhamos e aquilo que torna cada pessoa singular. Construir um mundo comum, portanto, não depende de eliminar as diferenças, mas de criar condições para que pessoas diferentes possam aparecer, agir, comunicar-se e participar desse mundo.

Talvez seja por isso que algumas das experiências de inclusão que mais fazem diferença não sejam necessariamente aquelas que produzem grandes transformações visíveis. Às vezes, pertencimento começa quando alguém pergunta antes de decidir; quando uma explicação é oferecida de uma maneira que a pessoa consiga compreender; quando existe tempo para responder; quando uma forma diferente de comunicação é reconhecida como comunicação; quando uma necessidade de apoio não é tratada como exagero ou inconveniente; ou quando um comportamento que foge ao esperado não é imediatamente interpretado como desinteresse, falta de educação ou incapacidade. São situações cotidianas, mas carregam uma mensagem importante: você não precisa ser igual aos demais para fazer parte daqui.

Por isso, inclusão não deve ser compreendida como um ponto de chegada, mas como uma construção contínua. Ambientes inclusivos não são aqueles em que todas as diferenças foram antecipadas e solucionadas, porque isso seria impossível diante da diversidade humana. São aqueles que possuem abertura para escutar, reconhecer barreiras, rever práticas e construir respostas diante das necessidades concretas das pessoas que deles participam. Ouvir as vozes autistas, nesse sentido, não é apenas uma forma de tornar os discursos sobre inclusão mais representativos. É uma maneira de compreender aquilo que os indicadores de acesso nem sempre conseguem mostrar: como é, de fato, viver em determinado ambiente, quais barreiras permanecem invisíveis, quais apoios fazem diferença e o que significa ser reconhecido como parte de uma comunidade. 

A presença em uma escola, universidade, serviço de saúde, ambiente de trabalho ou espaço de convivência pode indicar acesso, mas a pergunta seguinte precisa ser outra: a pessoa está tendo oportunidades de participar? Está sendo ouvida? Pode fazer escolhas? Seus modos de comunicação são reconhecidos? Há espaço para sua singularidade?

Porque estar é ocupar um espaço. Participar é poder fazer parte dele. Pertencer é ser reconhecido como parte sem precisar deixar de ser quem se é.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). 

https://bd.camara.leg.br/bd/items/6745d69a-2cf4-4e0a-9550-36059fd1e1fe

 

Possui graduação em Fonoaudiologia e mestrado em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Educação na Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP.Atualmente é docente da Faculdade de Ciências Médicas das Santa Casa de São Paulo e assessora técnico-científica do Autismo e Realidade no Instituto Pensi.

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