Transtorno do espectro autista e epilepsia

7/09/2026Família, Escola & Sociedade0 Comentários

Transtorno do espectro autista e epilepsia

O Transtorno do Espectro autista (TEA) e a epilepsia estão entre as principais causas de procura por um neuropediatra. Cada uma delas traz desafios e cuidados individuais, que podem impactar na qualidade de vida do paciente e da família. Porém, ambas têm tratamento e podem ocorrer simultaneamente.

O TEA é um transtorno do desenvolvimento, sendo melhor caracterizado apenas a partir de 1980, quando os termos foram unificados e se definiram critérios diagnósticos. Conforme se avança em pesquisa, mais dados de diagnósticos diferenciais, cuidados e prognósticos vão sendo somados a esse grande quebra cabeça.

O diagnóstico é clínico, definido pelo DSM-5, e deve conter todos os três critérios da categoria A (comunicação social e interação social), e 2 de 4 da categoria B (comportamentos restritivos e repetitivos). A avaliação do neurologista pediátrico é suficiente para confirmar ou excluir o diagnóstico, mas também pode ser utilizada uma avaliação neuropsicológica para identificar e categorizar melhor alguns sinais e sintomas (determinar se um sintoma está mais relacionado ao autismo ou à ansiedade, por exemplo). O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por profissional habilitado e capacitado para a avaliação do transtorno.

A causa do TEA pode ser complexa (multifatorial) e variar muito de indivíduo para indivíduo. O modelo do copo costuma ser amplamente utilizado: preenche-se fatores genéticos e ambientais, cada um com seu peso ou tamanho e, após ultrapassar um limiar, é definido o transtorno. O prognóstico é variável e vai depender tanto da causa quando identificada, como das características individuais, das condições associadas e das necessidades de suporte de cada pessoa.

A epilepsia é uma doença em que o paciente tem duas crises epilépticas sem causa ou risco de recorrência de crise epiléptica acima de 60%, ou ainda uma síndrome epiléptica diagnosticada. As causas de epilepsias são muito variadas, podendo ser desde lesões estruturais do sistema nervoso até doenças genéticas que alteram canais iônicos dos neurônios.

O tratamento é direcionado para a resolução da causa das crises se disponíveis ou no controle da frequência e intensidade das crises epilépticas. Uma crise prolongada pode levar à lesão encefálica e crises frequentes não controladas podem prejudicar o desenvolvimento neuropsicomotor da criança. Sempre deve ser levado em consideração o risco-benefício do fármaco anticrise e direcionado conforme a causa ou tipo de crise.

A coocorrência de ambas é possível e deve trazer maior grau de vigília para família e profissionais. Quando o TEA tem um nível de suporte mais alto e dificuldade significativa de comunicação, a identificação dos sintomas pode ser mais desafiadora, levando a atraso de identificação ou mesmo de início de tratamento.

Em um grande estudo de revisão sistemática de 2019, foi identificado uma prevalência de 12,1% de epilepsia em pessoas com autismo, e prevalência de 9% de TEA em pacientes com epilepsia. Mesmo excluindo as síndromes epilépticas e os atrasos de desenvolvimento, as prevalências se mantêm mais altas, 11,2 e 8,1%, respectivamente.

Apesar da prevalência mais alta que na população geral (1 a 3%), a chance de ocorrência de epilepsia em qualquer paciente com TEA não justifica o início indiscriminado de fármaco anticrise, com risco-benefício devendo ser calculado caso a caso. O início da medicação antes de iniciar crises epilépticas pode levar a riscos e prejuízos para a criança.

Quando há correlação entre TEA e epilepsia, há uma relação de menor cognição, quociente de inteligência e piora do comportamento disruptivo. Por vezes, podem ter a mesma causa (lesão encefálica, prematuridade ou doença monogênica), mas não há uma relação de causa e consequência direta entre TEA e epilepsia ou vice-versa.

Vale ressaltar que a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) não recomenda a realização rotineira de eletroencefalograma (EEG) em todos os pacientes com TEA. Não é incomum que existam alterações no eletroencefalograma em pacientes com TEA, podendo ocorrer em 60% dos pacientes. Essas alterações não necessariamente refletem em epilepsia ou no prognóstico do paciente. Desse modo, a realização de EEG de forma indiscriminada não aumenta o diagnóstico, não auxilia na decisão terapêutica e não ajuda na determinação do prognóstico do paciente, podendo levar à ansiedade e onerar a família sem necessidade.

Seja pela epilepsia, seja pelo TEA, o paciente necessita de seguimento com neurologista pediátrico e especial atenção na identificação de sintomas e sinais que possam levar a um diagnóstico precoce. Cabe também ao pediatra a vigília e maior suspeição de uma ou outra doença. Quando suspeitados, devem receber uma avaliação neurológica, com investigação complementar quando pertinente.

 

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Residência em Pediatra e Neurologia Pediátrica pelo HCFMUSP Preceptor do PRM Neurologia Pediátrica do Sabará Hospital Infantil/Instituto Pensi Médico assistente do Sabará Hospital Infantil, ICr -FMUSP, Hospital Samaritano e Hospital Israelita Albert Einstein

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