Surdez e TEA: o que observar quando há suspeita de autismo?
Surdez e TEA: o que observar quando há suspeita de autismo?
Quando falamos em uma criança surda que tem a língua de sinais como primeira língua, estamos falando de uma criança que pode utilizar essa língua como sua principal forma de comunicação e de acesso ao mundo. Para muitas crianças surdas, especialmente quando existe acesso precoce e consistente à língua de sinais, é por meio dela que acontecem experiências fundamentais do desenvolvimento: conversar, brincar, contar o que aconteceu, fazer perguntas, expressar sentimentos, compartilhar interesses e construir relações. Por isso, compreender a língua e a história de comunicação da criança é fundamental para compreender também seu desenvolvimento.
Essa informação se torna especialmente importante quando existe suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em uma avaliação por suspeita de autismo, a investigação da audição costuma fazer parte do cuidado porque alterações auditivas podem afetar a linguagem e a comunicação e precisam ser consideradas. Mas o caminho é diferente quando estamos diante de uma criança que já é surda e utiliza uma língua de sinais. Nesse caso, não basta conhecer sua condição auditiva. É preciso garantir que a avaliação aconteça em uma língua que ela compreenda e na qual consiga se expressar, além de conhecer sua história linguística e as oportunidades que teve para se comunicar e interagir.
Essa diferença é importante porque alguns comportamentos precisam ser interpretados de acordo com a experiência da criança. Uma criança surda que utiliza Libras, por exemplo, precisa olhar para as mãos de quem está sinalizando para acompanhar a conversa. Esse comportamento não deve ser interpretado como falta de contato visual. Da mesma forma, não responder quando alguém chama pelo nome não pode ser considerado uma dificuldade de interação social quando a criança não tem acesso auditivo a esse chamado. Antes de pensar que determinado comportamento pode ser um sinal de autismo, precisamos compreender como essa criança se comunica, qual língua utiliza, quando teve acesso a ela e em quais situações consegue participar das interações.
Isso não significa que a surdez explique todas as diferenças observadas no desenvolvimento. Crianças surdas também podem apresentar TEA e reconhecer essa possibilidade é importante para que recebam os apoios de que necessitam. O desafio está em compreender quais características podem estar relacionadas à experiência da surdez e à história linguística da criança e quais podem indicar diferenças que vão além dela.
Uma revisão integrativa publicada em 2024 analisou 11 estudos sobre pessoas com TEA que utilizavam língua de sinais como primeira língua. Os estudos encontraram características comunicativas também descritas em pessoas autistas ouvintes, como ecolalia, particularidades no uso de pronomes, diferenças na compreensão e produção de expressões faciais e dificuldades em aspectos da interação social. Também foram descritas características específicas da comunicação em língua de sinais, como diferenças na orientação da palma da mão e dificuldades no uso de classificadores e verbos direcionais.
O que pode chamar a atenção?
Na comunicação e na interação social, é importante observar como a criança utiliza sua língua para se relacionar com outras pessoas, e não apenas se ela consegue se comunicar. Uma criança pode utilizar Libras e, ainda assim, apresentar dificuldades persistentes para compartilhar interesses, mostrar algo que achou interessante, responder às iniciativas de outras pessoas ou participar de uma conversa de forma recíproca. Também pode apresentar dificuldade para utilizar a comunicação com diferentes finalidades, como contar uma experiência, fazer comentários, compartilhar uma descoberta ou chamar alguém para participar de uma brincadeira.
Algumas características descritas nos estudos também podem aparecer na própria língua de sinais. A ecolalia, por exemplo, não acontece apenas na fala. Uma criança pode repetir sinais que acabou de ver ou que já foram utilizados em outro momento. Estudos encontraram esse tipo de repetição em crianças surdas com TEA. Também foram descritas diferenças na forma de produzir alguns sinais, incluindo a orientação da palma da mão. Esses achados mostram que algumas características relacionadas ao autismo podem aparecer independentemente de a pessoa falar ou sinalizar. Mas repetir sinais ou produzir um sinal de maneira diferente não significa, sozinho, que uma criança seja autista. É preciso observar o contexto, a frequência, a função daquela comunicação e o desenvolvimento linguístico da criança.
As expressões faciais também precisam ser observadas com cuidado. Em uma língua de sinais, o rosto participa da comunicação e pode ter funções importantes na própria língua. Por isso, uma expressão facial que parece diferente para alguém que não conhece Libras pode ter uma função linguística. Isso vale para o olhar e para os movimentos das mãos. Para interpretar esses comportamentos, é preciso conhecer a língua que a criança utiliza e compreender como ela funciona.
Além da comunicação e da interação social, também devemos observar os comportamentos repetitivos, interesses muito intensos e dificuldades importantes diante de mudanças. Algumas crianças podem apresentar movimentos repetitivos, interesses muito específicos, grande necessidade de manter determinadas rotinas ou reações intensas diante de mudanças. Também podem existir diferenças na forma como respondem a estímulos sensoriais. No caso de uma criança surda, esses comportamentos precisam ser compreendidos dentro de sua experiência. O mais importante não é encontrar um comportamento isolado, mas perceber se existe um conjunto de características persistentes que, quando analisadas em conjunto, pode ser compatível com o TEA.
A avaliação precisa acontecer na língua da criança
Essa compreensão também é fundamental para o diagnóstico. Instrumentos desenvolvidos para crianças ouvintes podem precisar de adaptações quando são utilizados com pessoas surdas. Estudos desenvolveram versões adaptadas do ADOS-2 e do ADI-R para crianças e jovens surdos, reforçando a importância de considerar a língua preferencial da criança durante a avaliação. Quando a criança utiliza uma língua de sinais, é importante que os profissionais envolvidos tenham conhecimento dessa língua e das particularidades da comunicação de pessoas surdas.
Também não existe um único teste capaz de diagnosticar TEA. A avaliação reúne informações sobre o desenvolvimento, a comunicação, as interações sociais, as brincadeiras, os interesses e os comportamentos da criança em diferentes situações. As informações da família e da escola também são importantes. Para uma criança surda, é especialmente importante observar como ela se comunica quando tem acesso a uma língua que realmente domina. Se uma criança teve pouco acesso à linguagem, por exemplo, suas dificuldades de comunicação não podem ser interpretadas automaticamente como sinais de autismo.
A literatura sobre TEA e surdez ainda é pequena, e os estudos disponíveis apresentam limitações. Uma revisão publicada em 2025 encontrou poucos trabalhos sobre a identificação do autismo em crianças e jovens surdos ou com deficiência auditiva e destacou que barreiras relacionadas à língua, à cultura e ao acesso a profissionais preparados podem dificultar o reconhecimento do TEA. Esse cenário mostra a importância de ampliar a pesquisa e de qualificar os profissionais que acompanham essa população.
Por isso, quando existe suspeita de autismo em uma criança surda, a pergunta não deve ser apenas “Quais sinais de autismo ela apresenta?”. É preciso perguntar também: “Ela teve acesso à língua?”, “Como se comunica quando está em um ambiente em que consegue compreender e ser compreendida?” e “Como brinca, interage, compartilha interesses e responde às outras pessoas?”.
Quando existem diferenças persistentes na comunicação e na interação social, associadas a comportamentos repetitivos, interesses muito restritos ou grande dificuldade diante de mudanças, pode ser necessário investigar a possibilidade de TEA. Uma avaliação cuidadosa ajuda a diferenciar o que pode estar relacionado à experiência da surdez daquilo que pode indicar autismo e, principalmente, permite que a criança receba os apoios de que precisa.
Mais do que procurar sinais isolados, é preciso conhecer a criança, sua língua, sua história e suas formas de se relacionar com o mundo.
Referências
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