Quatro médicos que mudaram a visão do mundo sobre autismo

27/11/2019Diagnóstico0 Comentários

Kanner, Asperger, Rutter e Wing são os maiores nomes da história da pesquisa sobre TEA

A visão do autismo como um espectro é razoavelmente recente. Foi apenas em 2013 que o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (a referência mundial para médicos, psicólogos e pesquisadores), em sua quinta edição, o DSM-5, definiu o conceito do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para uma pessoa ser diagnosticada com autismo, ela então precisa apresentar dois sintomas: deficiências sociais e de comunicação e comportamentos repetitivos e estereotipados.

Desta forma, distúrbios que antes eram vistos como independentes – Autismo Infantil Precoce, Autismo Infantil, Autismo de Alto Funcionamento, Autismo Atípico, Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação, Transtorno Desintegrativo da Infância e Síndrome de Asperger – passaram a ser analisadas como um transtorno único com diferentes níveis de gravidade.

Esta foi apenas a mais recente alteração na história de um transtorno que é estudado há pouco mais de 100 anos. O termo autismo apareceu pela primeira vez em 1908, criado pelo psiquiatra Eugen Bleuler, para descrever um paciente, na época diagnosticado como esquizofrênico, que vivia imerso em seu próprio mundo. A análise de Bleuler não chamou muita atenção na época, e passaram quase 30 anos até o termo ser revisitado.

Leo Kanner populariza a noção do autismo como parte da esquizofrenia infantil

Em 1938, o psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos Leo Kanner recebeu em seu consultório o que ficou conhecido como “caso 1” de autismo. Com 5 anos, Donald Triaplett foi descrito como tendo um comportamento “fora dos padrões” para as crianças da mesma idade. Kanner se interessou pelo caso e logo conseguiu reunir outras dez crianças com a mesma condição.

O que chamou a atenção de Kanner no comportamento das crianças foi um desinteresse extremo já no início da vida: elas não respondiam a estímulos externos e desenvolviam quase nenhuma interação social, vivendo num universo próprio ao mesmo tempo que mantinham uma relação inteligente com objetos e apresentavam uma memória acima do comum.

Em 1943, o psiquiatra publicou o estudo Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo, batizando a condição das 11 crianças como “Transtorno Autístico do Contato Afetivo”. Na visão de Kanner, o quadro delas estava associado à esquizofrenia infantil e era caracterizado por obsessividade pela rotina, dificuldade na interação social, estereotipias e ecolalia.

Hans Asperger foi o primeiro a entender que o TEA afeta mais meninos

Pouco depois, o nome do distúrbio foi atualizado para “autismo infantil precoce”, enfatizando que os sinais eram visíveis já nos primeiros dois anos de vida. Com este trabalho, Kanner se tornou a principal referência no segmento e passou a ser chamado de “o pai do autismo”.

Enquanto Kanner estudou casos que hoje seriam qualificados de autismo severo, Hans Asperger dedicou o seu trabalho ao outro lado do espectro autista. Psiquiatra atuando em Viena, Asperger foi o primeiro a apontar a prevalência maior do autismo em meninos, que apresentavam falta de empatia, interesses restritos e uma forma peculiar de conversar, usando palavras incomuns para a idade. Ele costumava chamar seus pacientes de “pequenos professores”, por causa da habilidade de falar sobre um tema de forma muito detalhada.

Ao contrário dos casos estudados por Kanner, as crianças atendidas por Asperger não apresentavam atrasos do desenvolvimento da linguagem ou retardo mental, e seus sintomas não eram aparentes até os três anos de idade. Apesar do papel pioneiro, o artigo A psicopatia autista na infância de Asperger não recebeu a devida atenção à época. O estudo foi publicado em alemão durante a Segunda Guerra Mundial, e apenas na década de 1980 o seu trabalho seria reconhecido.

“Mãe geladeira”, a teoria de que falta de amor materno seria a causa do TEA

Os anos 1950 e 1960 foram de muita confusão sobre as causas do autismo. Muitas pesquisas analisaram o transtorno apenas do ponto de vista social, ignorando o papel dos fatores genéticos. Leo Kanner voltou a chamar atenção ao cunhar a hipótese da “mãe geladeira”, que atribuía a origem do autismo a mães emocionalmente distantes de seus filhos. A tese foi popularizada pelo psicanalista Bruno Bettelheim que, no livro A Fortaleza Vazia, comparou os pais de crianças autistas aos guardas nazistas de campos de concentração.

A principal crítica da comunidade médica à teoria da “mãe geladeira” era o fato de que muitas mães de crianças autistas também tinham filhos e filhas não autistas. Leo Kanner posteriormente se disse mal compreendido e tentou se retratar no seu livro Em Defesa das Mães. De todo modo, o avanço das pesquisas sobre autismo mostrou que a teoria era totalmente infundada ao reunir evidências significativas de que o autismo é um transtorno neurológico encontrado em todos grupos socioeconômicos e étnico-raciais investigados.

Em 1978, o autismo é definido como um distúrbio diferente da esquizofrenia

O próximo marco no autismo aconteceu em 1978, quando o psiquiatra inglês Michael Rutter propôs uma nova definição do distúrbio, como um transtorno mental único, independente da esquizofrenia. Baseado em quatro critérios, o autismo seria caracterizado por atrasos e desvios sociais (não só decorrentes da deficiência intelectual), problemas de comunicação (também não apenas ligados à deficiência intelectual), comportamentos incomuns como movimentos estereotipados e maneirismos, com todos os sintomas presentes antes dos 30 meses de idade.

Uma das figuras centrais na consolidação do campo da psiquiatria infantil, Rutter se destacou ao realizar pesquisas sobre autismo tanto de viés biológico, com análises de DNA e de exames de imagem, quanto do social, com a avaliação da influências das famílias e das escolas no desenvolvimento infantil.

O trabalho de Hans Asperger se torna conhecido apenas em 1981

O olhar de Rutter influenciou significativamente na elaboração da terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM III), em 1980. Pela primeira vez, o autismo foi definido como uma condição única, fora do conceito da esquizofrenia. O distúrbio passou para uma nova classe, denominada Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TIDs), que afetam múltiplas áreas de funcionamento do cérebro.

Em paralelo a Rutter, a psiquiatra Lorna Wing também estava desenvolvendo pesquisas que iam mudar a visão do mundo sobre o autismo. Mãe de uma menina autista diagnosticada na década de 1950, Wing trocou a sua especialização na faculdade de medicina para psiquiatria infantil devido à falta de informações existentes sobre o distúrbio.

Seu ativismo ganhou novas proporções ao criar a National Autistic Society, em 1962, para defender uma melhor compreensão e serviços para indivíduos no espectro e suas famílias no Reino Unido. Em 1981, Wing publica um artigo revisitando o trabalho de Hans Asperger e batiza a síndrome em seu nome.

Lorna Wing é uma das pioneiras da visão do autismo como espectro

Ao mesmo tempo, ela começa a trabalhar o conceito do autismo como um espectro, que afeta pessoas em diferentes níveis. A médica também vai estabelecer uma nova base para o diagnóstico a partir de seis pontos básicos: verbalização correta, mas estereotipada; comunicação não-verbal inadequada; ausência de manifestações convencionais de empatia; repetição e dificuldade de mudanças; deficiências de coordenação motora; e boa memória mecânica e limitados interesses.

Hoje, as visões de Lorna Wing e Michael Rutter estão no centro do entendimento oficial sobre o TEA. Mas não se pode desmerecer o trabalho dos pioneiros deste campo. As primeiras pesquisas, e mesmo as teorias falhas, ajudaram a pavimentar o caminho das descobertas que atualmente trazem melhor qualidade de vida para as pessoas autistas e suas famílias. 

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