Lidando com birras – parte 1

21/01/2020TEA no Dia a Dia0 Comentários

Comportamentos desafiadores aparecem ao longo da vida dos autistas

Toda criança faz birra. E não faltam manuais para lidar com as fases mais desafiadoras do desenvolvimento infantil. Mas como lidar com esses comportamentos, muitas vezes agressivos, de uma pessoa com TEA?

Um dos primeiros fatores a se levar em consideração é que os comportamentos desafiadores podem aparecer em diversas etapas da vida de uma pessoa com TEA e não são apenas parte de uma fase difícil, como acontece com grande parte das crianças. Mais do que uma “fase de birra”, consideram-se comportamentos especialmente desafiadores aqueles que são:

  • prejudiciais ao indivíduo ou a outras pessoas
;
  • são destrutivos;
  • que 
impedem o acesso à aprendizagem e à participação plena em todos os aspectos da vida da comunidade;
  • aqueles que provocam as pessoas no entorno a rotular ou isolar o indivíduo com TEA por considerá-lo estranho ou diferente.

A nossa cartilha Kit de Ferramentas para Comportamentos Desafiadores e Agressivos traz orientações para o importante passo que é, antes de tudo, identificar os comportamentos desafiadores e avaliar seus impactos. O material destaca a necessidade da intervenção adequada, e o mais cedo possível, evitando um efeito “bola de neve”, com a criação de ciclos cada vez mais desafiadores e com consequências mais graves tanto para os autistas quanto para suas famílias. Além disso, ressalta a importância de não considerar “ruins” os comportamentos, mas sim aprender como entender e responder melhor às situações, inclusive para auxiliar a comunidade a contorná-los.

Agir da forma mais rápida possível evita a criação de ciclos insustentáveis

Famílias e cuidadores costumam se adaptar, às vezes sutilmente, para atender as necessidades e demandas das crianças e jovens autistas. E não é raro que, o que começa com pequenas concessões, logo se tornem padrões de comportamento que podem levar todos a situações difíceis de mudar, aumentando os níveis de estresse e até limitando a convivência com amigos e a comunidade.

O impacto de comportamentos desafiadores não contornados sobre a vida de uma pessoa com TEA  pode ser significativo. Algumas das consequências mais comuns são:

  • Interromper o aprendizado acadêmico, limitando o crescimento e o desenvolvimento de longo prazo
  • Limitar experiências e excluir a pessoa de oportunidades de crescimento ao longo da vida, como brincar, interagir com amigos e trabalhar
  • Causar estafa física, dor, lesões, especialmente quando há envolvimento de agressão e autoflagelo

Também as famílias são afetadas pelos comportamentos desafiadores. Os efeitos incluem:

  • Isolamento social em decorrência do constrangimento ou estigma que acompanha o comportamento inadequado
  • Ansiedade e/ou depressão nos pais e irmãos
  • Menos tempo e atenção para outras responsabilidades
  • Perigo físico
  • Menor rede de apoio devido a complexidades adicionais
  • Questões financeiras que resultem dos custos de cuidados e apoios constantes, danos à propriedade, contas médicas ou a necessidade que um dos responsáveis pare de trabalhar

Identificando os comportamentos

A intensidade, frequência e gravidade dos comportamentos podem variar consideravelmente entre cada pessoa com TEA, além de poderem mudar ao longo do tempo.  Além disso, muitos indivíduos com autismo apresentam outras condições associadas (também conhecidas como comorbidades), que podem alimentar atitudes difíceis. À medida que as crianças autistas crescem e se tornam mais fortes, novos comportamentos desafiadores podem surgir, ou ainda, antigas atitudes já superadas podem retornar e atingir níveis de crise.

A nossa cartilha analisa uma extensa lista de atitudes que são frequentes entre os autistas, como comportamentos de interrupção (bater, chutar ou atirar objetos com o objetivo de parar uma atividade), evasão, agressão, incontinência, obsessões, compulsões e rituais, entre outros. É importante tratar os comportamentos desafiadores com a maior rapidez possível, especialmente quando se trata de atitudes agressivas.

No entanto, há uma diferença entre entender os comportamentos que nós ou a sociedade não consideram apropriados e aceitar esses comportamentos. Por exemplo, é preciso ter como objetivo entender por que uma criança sente a necessidade de chutar e, então, desenvolver suas habilidades para a comunicação. Dessa forma, é possível ensinar a crianças a dizer “preciso de uma pausa”, em vez de permitir o chute como uma forma de comunicação. Da mesma maneira, é essencial trabalhar para entender e tratar problemas biológicos que podem causar comportamentos desafiadores.

Os pais e cuidadores muitas vezes se sentem culpados ou responsáveis, mas é importante saberem que não é raro que muitos dos cuidados podem ser insuficientes, demandando assim apoio de uma equipe multidisciplinar e recursos adicionais.

Nem tudo é birra: o autista pode estar comunicando um desconforto físico

Vale ressaltar ainda que, embora os comportamentos citados acima sejam desafiadores, eles não devem ser considerados como puramente comportamentais ou propositais. Às vezes, há uma raiz biológica por trás – e com o devido tratamento reduzindo o desconforto – a pessoa com TEA consegue chegar a um lugar mais confortável, onde ele é capaz de aprender a lidar melhor com as atitudes inadequadas.

Por isso, é importante que familiares e cuidadores sejam bem vigilantes em atendimentos médicos. Infelizmente, ainda há clínicas que, ao serem informados que o paciente está no espectro autista, descartam diagnósticos mais complexos, interpretando os sintomas relatados como um comportamento desafiador. Isso se torna especialmente delicado se o autista possui linguagem limitada ou problemas de percepção que o impeçam de descrever uma dor. Nesses casos, é preciso atuar como um intérprete, a fim de manter o foco no indivíduo e em suas preocupações. Só porque um indivíduo tem autismo, não significa que ele esteja isento de qualquer um dos outros problemas de saúde que afetam qualquer um de nós.

Mesmo que o tratamento não seja imediatamente eficaz, às vezes, só o fato de conhecer uma causa médica ou neurológica de um comportamento pode mudar a forma como você pensa sobre isso e como responde.

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