Treinamento de pais

15/05/2020Tratamentos0 Comentários

Envolvimento com os filhos melhora dinâmica familiar e expande aprendizado de crianças e jovens com TEA

Desde a graduação em Psicologia ouvimos sobre a importância do envolvimento de pais no acompanhamento dos seus filhos, mas sempre seguida da ressalva, “pais não querem e nem podem ser terapeutas”. Ambas as afirmações sempre me acompanharam, até conhecer mais e mais abordagens que envolviam treinamento de pais e conhecer principalmente mães completamente imersas, tanto nas intervenções, quanto na educação dos seus filhos com TEA. Assim, abordamos aqui a relevância do treinamento de pais como uma abordagem de intervenção em diversas áreas do desenvolvimento de habilidades de crianças e jovens autistas.

Tanto na literatura, quanto em conversas com pais, sempre vemos que muitos deles se afastam de diversas interações – brincadeiras, jogos, lições de casa, e até mesmo da comunicação alternativa – de seus filhos por não serem treinados e não se sentirem preparados. Como profissional da área, fui treinada em diversas abordagens. Pouco a pouco, descobri que, quanto mais instrumentalizava os pais com diferentes atividades e estratégias, e os familiarizava com as respostas (ou a ausência de retorno) dos seus filhos, mais esses pais sentiam que também podiam tentar estimulá-los. O mito de que “só o terapeuta sabe fazer” deve ser revisitado.

Estímulos dos pais antes dos 2 anos influenciam habilidades, sociais, cognitivas e de comunicação

Atualmente, a nossa prática como profissional é guiada por evidências de estudos científicos que demonstram o que é eficaz. Internacionalmente, esse envolvimento e treinamento de pais é conhecido como uma classe de suportes chamados de Intervenções Implementadas por Pais (Parent Implemented Interventions). Trata-se de treiná-los, individualmente ou em grupos, para conduzir toda uma intervenção proposta ou apenas uma parte da mesma. Os estudos descrevem que podem ser eficazes para estimular crianças ainda muito pequenas – desde antes dos dois anos de idade até por volta dos 11 anos. Porém, mais pesquisas vem sendo realizadas e expandindo tal idade. Os avanços provocados pela mediação dos pais incluem o desenvolvimento de habilidades sociais, cognitivas, acadêmicas, adaptativas e de comunicação, além de melhora no comportamento, na atenção compartilhada, no brincar e em habilidades pré-escolares.

Aponta-se então, para esse importante nicho de intervenções em que se instrui pais a assumirem seu papel de estimular habilidades e complementar o suporte interventivo e educacional que uma criança com TEA recebe. A abordagem torna-se ainda mais relevante por possibilitar a expansão do dia de aprendizado, por criar oportunidades de treinamento em momentos íntimos de forma espontânea e por permitir a generalização das habilidades aprendidas.

Quando os pais aprendem não somente como interagir, mas como estimular e incentivar o desenvolvimento das habilidades de seus filhos, expandimos as possibilidades de aprendizado estruturado por mais horas diárias e em momentos de atividades do dia a dia. Mais horas de trabalho focado guiado pelos pais, apesar de não substitutirem, diminuem a necessidade de um trabalho realizado exclusivamente por um especialista e reduzem, por consequência, o custo destas intervenções. Por fim, como os pais tendem a acompanhar os filhos em quase todos os ambientes, podem dar suporte ao treino de generalização das habilidades aprendidas em diversos contextos.

Preparar pais para desenvolver a criança em casa potencializa possibilidades de desenvolvimento

Em geral, para que um treino parental seja bem sucedido, alguns elementos devem estar presentes. A literatura define que, primeiramente, o profissional deve definir para os pais a estratégia que deve ser aprendida naquela sessão. Essa explicação verbal e com exemplos é o primeiro encontro dos pais com a habilidade ou atividade a ser treinada. Em seguida, o treinador modela a estratégia junto à criança ou jovem. Observar o profissional em ação é essencial, não somente ouvir ele falar sobre a estratégia. O próximo passo é o próprio pai aplicar a estratégia, pois assim consegue sentir as possibilidades e dificuldades de se colocar nesse papel. Por último, ele recebe um retorno sobre como foi esta aplicação. Este é o momento do treinador reconhecer as habilidades dos pais, que podem entender como melhorar.

Outro aspecto importante do treinamento de pais é que o profissional também ofereça exemplos de como eles podem treinar a estratégia para o desenvolvimento das diferentes habilidades dentro de casa. É importante dar exemplos concretos, que fazem parte da realidade daquela família, e explicar como as atividades podem ser aplicadas no contexto familiar e social. Enfim, os pais devem ser incluídos nas intervenções e treinados para que ampliem as possibilidades de desenvolvimento de diversas habilidades. O envolvimento potencializa os ganhos da criança e do jovem com TEA. Além de melhorar a relação familiar, instrumentaliza os pais a saberem como estimular, brincar e interagir com seus filhos em diversos contextos.

Fernanda Orsati

Fernanda Orsati

Psicóloga, doutora em Educação Especial e Inclusiva pela Syracuse University, e pós-doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento

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