Como lidar com o irmão típico de uma criança autista?

13/08/2020Família, Escola & Sociedade5 Comentários

Mãe relata desafios de manter o cuidado com filho não autista, que também precisa de suporte para se desenvolver e se adaptar à realidade do transtorno

Receber o diagnóstico de que nosso caçula era autista foi um momento muito difícil na vida de nossa família. De repente, tínhamos uma infinidade de detalhes novos para encaixarmos naquela primeira fase de vida do nosso pequeno filho. Mas tivemos sempre em mente que nada seria impossível.

Os problemas foram ganhando outros contornos quando as terapeutas – e não foram poucas – nos deram um novo alerta. Era necessário cuidar do nosso filho mais velho e pensar nele pois, ele sim, poderia dar trabalho no futuro. E não é que, de certa forma, tinham razão? Na hora, ficamos assustados com as recomendações. Mas aos poucos, fomos percebendo que, sim, irmãos sofrem – e muito – com todo o processo pelo qual a família passa.

Demandas por tratamento igual foram aparecendo aos poucos: por que o irmão podia ter duas escolas?

Nunca consegui imaginar o peso que seria para nosso filho mais velho lidar com a situação. Os sinais foram aparecendo com o tempo. Ele queria o mesmo tipo de atenção. Queria participar das terapias. Por que não ia aos mesmos médicos? Por que o irmão podia ter duas escolas? Uma série de questionamentos e comparações foram se apresentando, pouco a pouco, dia a dia.

O mais importante de tudo é que, ao recebermos o diagnóstico, não escondemos nada do irmão mais velho. Assim, ele poderia entender toda a nova dinâmica formada por inúmeros especialistas, as idas a clínicas, as entradas e saídas de terapeutas em casa, os exames frequentes e todo o redirecionamento familiar. Aliás, com a intensidade dos tratamentos e a intensa movimentação dentro e fora de casa focada no caçula, não tinha como esconder a mudança de realidade. Acreditamos que fizemos a coisa certa.

Novas questões foram surgindo: “Mãe, quando meu irmão vai brincar comigo?”

Um novo mundo se abriu para a nossa família e para ele também era assustador. No começo, ficamos tão enlouquecidos com a enxurrada de informações que não pude me dedicar tanto a ele. Mas quando ele passou a compreender as dificuldades do irmão, pudemos ver todo o amor e acolhimento que quis dar genuinamente, sem cobranças e isso só nos fortaleceu no nosso dia a dia.

Até que, quando nos demos conta, tínhamos em casa um mini terapeuta naturalmente pronto para ajudar e estimular praticamente 24 horas por dia. Ele passou a apresentar novas questões: “Mãe quando meu irmão vai brincar comigo? Por que ele não me abraça? Eu amo tanto ele”. Eram muitos os porquês. “Calma, filho, ele ama muito você e logo, logo, ele irá brincar, te abraçar e dizer te amo”, era a minha resposta mais frequente para apaziguar as angústias que ele vinha demonstrando.

Foram muitas birras, festas interrompidas, viagens frustradas ao longo do caminho que ele presenciou por causa do irmão atípico. Se curvou, mas não se anulou. Sofreu calado e, ao longo do tempo, deu sinais de que precisava de atenção. Enfrentamos alguns contratempos, inclusive o surgimento de dermatites emocionais. Não tínhamos como controlar a vinda dos sinais, mas sim de acolher e de ajudar, como estamos dispostos em qualquer momento de sua vida.

Nos momentos criados para dar atenção exclusiva ao irmão típico, ele reclama da ausência do mais novo

Sem querer, ele mesmo chamou a responsabilidade para si. Por isso, sempre o levamos para programas separados, organizamos viagens e nos preocupamos no que mais podemos fazer para ele curtir a sua individualidade – embora nos momentos que são exclusivos, ele mesmo reclame da falta do irmão.

Mas o que falar de um irmão tão presente? Só tenho a agradecer. Ouço mães reclamando que os irmãos não são tão presentes na vida de seus filhos atípicos. Mas será que este é um problema apenas dos irmãos ou houve também uma dificuldade dos pais em conseguirem apresentar claramente a verdade da situação para que toda a família pudesse compreendê-la?

O rótulo sobre os que convivem com pessoas com autismo é inevitável, mas o peso que sai das nossas costas quando aceitamos a situação e lidamos em conjunto com ela é único e este tempo não tem volta.

Adotar uma rotina que permitisse a convivência entre os irmãos ajudou a aumentar a proximidade

Acredito que meu filho típico é um irmão especial, o mais presente e o grande amigo do peito que não sente vergonha e ama tanto que faz questão de ter o irmão ao lado em todas as parcerias da vida. O convívio é tão prazeroso de ver ao longo do tempo que até inspirou muitas famílias a falar mais sobre o assunto com seus familiares.

Procuramos aqui em nossa casa, na medida do possível, manter a mesma rotina para os dois. Facilita a nossa vida e a deles também. Assim, grandes evoluções foram surgindo ao longo da vida dos nossos filhos e gerou entre eles uma grande sincronia pela qual nós, como família, sentimos profunda gratidão.

Ao modular um comportamento de um filho atípico podemos também atingir inconscientemente o comportamento do irmão típico. Parece loucura, mas é assim. Ele sempre se compromete antes do irmão para poder ajudar. Já o orientamos a curtir um pouco mais e tentar se preocupar menos, mas é dele esse senso nato de responsabilidade, de orbitar em torno do mais novo. Só vamos ajudando a lapidar o comportamento e dar mais leveza ao dia a dia. Confesso que o cuidado dele em se manter próximo ao irmão me salva de muitas situações em que eu não poderia estar presente.

É um engano pensar que o diagnóstico pertence apenas à pessoa com TEA, pois afeta toda a família

O diagnóstico pertence a todos da família, não se engane que é só do filho diagnosticado. Por isso a importância da família e da entrega do amor incondicional ao longo da jornada. Nos desafios do autismo, aprendemos a entender as entrelinhas de que sempre há um lado imperfeito.

E o futuro? O futuro está sendo agora, no nosso dia a dia lidando com estes irmãos parceiros. Ficamos felizes em ver a felicidade de cada um deles. Quando paramos para pensar se nosso maior vai continuar a ajudar caçula, acreditamos que sim. Esta porém, deve ser uma escolha dele, não de nós, pais.

Um viva ao irmão que ensina ao outro a ser irmão de verdade, e que faz naturalmente o que nós pais precisamos ainda a aprender com os profissionais. A nossa perspectiva sobre o autismo e a relação entre nossos filhos muda a cada dia, mas é isso que nos faz continuar nos movendo cada vez mais para frente e confiar neste valioso elo entre os irmãos.

Darline Locatelli Renault de Castro

Darline Locatelli Renault de Castro

Mãe de Carlo, de 5 anos, diagnosticado com TEA, e de Pietro de 10 anos. Formada em Direito e Gastronomia, dedica-se atualmente a difundir conhecimento e empatia acerca do TEA. É voluntária do site Autismo e Realidade e auxilia mães que lidam com a realidade do diagnóstico.

5 Comentários

  1. Li seu texto e me identifiquei muito, sou irmã de uma autista e me vi em cada palavra sua, e fiquei feliz pelo sofrimento do irmão não autista estar começando a ser notado, pois, sei que em muitos casos, não intencionalmente, claro, mas os pais tendem a esquecer um pouco do filho que aparentemente, não tem problemas, sem lembrar, que isso pode fazer com que eles passem a ter problemas.

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  2. Parabéns pela excelente abordagem. Estava pensando em narrar algo neste sentido e deparei com esta narrativa. Nada mais específico, que a experiência vivida por estes pais e entre esses irmãos. Justamente a preocupação que me passou pela cabeça em relação às atenções aos outros filhos sem qualquer transtorno. Porque, afinal o que define a relação é o Amor, então as famílias devem se integrar, participar em conjunto, nem superproteger, tão pouco negligenciar outros contextos da vida em família. As palavras chave são respeito e interatividade.

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  3. Nossa, história linda, aqui em casa estamos no caminho final do diagnóstico, mas o caso já é bem parecido do citado anteriormente, o irmão atípico não desgruda do irmão típico e com isso ele fica sobrecarregado, mas falo para ele ir para o quarto descansar, ou ir para a casa da avó no final de semana, que assim ele curti e descansa, mas o irmão típico não quer, ele diz, estou cansado mas não quero ficar longe do Enzo, é um amor inexplicado, mas temos que ter muita atenção no típico para que ele não adoeça.

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  4. parece que fui eu quem escreveu esse texto. Quando disse para a mais velha que o irmão é autista, ela com seis e ele com cinco, ela disse: eu já sabia mamãe, ele é igual o menino da minha sala. Como pode o mais velho amadurecer tanto, em tão pouco tempo?

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  5. Tenho um neto autista, e pergunto ,às vezes a irmã mais velha quer ficar na casa dos avós, mas os pais não deixam por causa do irmão, é mau separar por uma noite os irmãos ?
    obrigado pela atenção

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