Pedro Alonso Melim: a voz de uma criança autista pela inclusão

30/10/2020Histórias0 Comentários

Conhecido nacionalmente por competição de cálculo na TV, garoto de 12 anos com autismo leve reforça a mensagem: as diferenças fazem o mundo

“As pessoas têm que ser incluídas, porque elas são pessoas como nós, são humanos como nós”. Com essa frase, dita no maior canal de TV aberta do Brasil, o garoto Pedro Alonso Melim, de 12 anos, viralizou nas redes sociais e ganhou fama nacional.

Pedro tem autismo leve e altas habilidades e, por conta disso, uma tremenda capacidade de cálculo, que o levou a participar da primeira edição do Pequenos Gênios Brasil, do programa semanal Caldeirão do Hulk, transmitido nas tardes de sábado pela Rede Globo. A competição exigia exatidão em cálculos no menor intervalo de tempo possível. A equipe de Pedro acabou sem o troféu de vencedora, mas a mensagem dele rodou o país. Uma das frases que ele mais costuma reforçar é: “As diferenças fazem o mundo”.

Pedro aprendeu a ler aos 3 anos e, aos 4, foi diagnosticados com altas habilidades

Na escola, Pedro sofreu bullying, e conta que levou um bom tempo para se sentir incluído pelos colegas. Só começou a fazer amigos por volta dos 7 anos. “Já sofri preconceito, principalmente na escola” conta. “Entendo que sou diferente por causa do autismo, mas não entendo que sou melhor que as outras pessoas. Apesar da minha facilidade de aprender, eu tenho que respeitar meus colegas que demoram pra entender o conteúdo”, disse em entrevista ao Ingenews, do Projeto Ingenium, o Núcleo de Altas Habilidades e Superdotação do Liceu Jardim, da cidade de Santo André, em São Paulo.

A inclusão dos autistas, diz Pedro, não é ainda um processo que acontece de forma espontânea. Ainda hoje, exige muito esforço. “A inclusão não ocorre de maneira natural porque, muitas vezes, nós temos que batalhar muito, nós temos que lutar muito para que ela aconteça. Por isso que nós estamos não somente longe, mas estamos muito longe, para que a inclusão ocorra de maneira natural.”

Com 2 anos, quando recebeu o diagnóstico de autismo, Pedro já sabia os números, as cores e o alfabeto. Aos 3, começou a ler. Aos 4, foi diagnosticado com altas habilidades. Por conta da grande capacidade de aprendizado, já passou do 1ª para o 3º ano. Este ano, avançou novamente, do 8º para o 9º ano. Apesar das altas habilidades, conta que sente dificuldade de interpretar textos em português. Ainda assim, consegue manter notas altas, entre 9 e 10.

Falta de conhecimento sobre funcionamento do cérebro autista influencia a exclusão

As crianças neurotípicas têm certa resistência em se relacionar com pessoas com autismo, diz Pedro. O motivo é a falta de entendimento sobre o funcionamento do cérebro de um autista. “Por exemplo, tem uns autistas que têm ecolalias, não falam, têm dificuldade pra se relacionar, têm hiperfoco e por aí vamos”, conta. “A gente tem que entender que as pessoas, elas têm dificuldades ou facilidades, mas elas vão se sentir excluídas se a gente não direcionar elas corretamente, ou seja, se a gente não incluir elas na sociedade.”

Ajudar nessa compreensão é o que Pedro tem feito nas redes sociais. Ele tem 15 mil seguidores no Instagram, com quem divide sua rotina e compartilha o que gosta de ler, fazer e comer (não resiste a um bolo de cenoura com – muita – calda de chocolate).

Em seus canais no YouTube no Instagram, Pedro atua justamente ajudando a compreender o autismo

Ali, descobrimos que ele está aprendendo a tocar bateria, é fã de Star Wars e adora jogar videogame – especialmente Fortnite e Minecraft. Pedro também é um leitor voraz, apaixonado por história e geografia. Mas quando crescer, quer ser cientista. Pedro também costuma gravar vídeos em que fala sobre TEA, ajudando a esclarecer quem ainda não conhece muito sobre transtorno. Ao lado da mãe, já abordou a importância da terapia ocupacional e o papel do pedagogo na adequação curricular, por exemplo.

Ele tem também um canal no YouTube, o “Pedro Alonso, o Curioso”, atualmente com 14 mil seguidores. Ali, detalha um pouco mais os aspectos da vivência autista, como o hiperfoco, tira dúvidas recebidas pelo Instagram, tanto sobre o transtorno como sobre sua rotina e também se diverte – como no vídeo em que compete com o cunhado para ver quem faz cálculos mais rápido e escapa de comer balas do Harry Potter com gosto de sujeira.

Conteúdo também aborda história e geografia, além de mostrar brincadeiras e erros de gravação

O primeiro vídeo foi publicado no dia 8 de agosto de 2018, quando Pedro tinha 10 anos. Ele conta que estava muito ansioso e nervoso e errou muito na gravação. Quem estava atrás filmando era o pai, com uma câmera fotográfica. Mas hoje é o próprio Pedro quem grava, com o celular. Os erros acabaram inspirando um padrão no canal. Todos os vídeos de Pedro começam de forma divertida, justamente com os erros, em preto e branco. Os assuntos ele mesmo escolhe, equilibrando seus interesses pessoais com o que pode ser interessante para o público.

As gravações duram cerca de 20 minutos. Se demoram muito, levam cerca de 1 hora. A edição, desde o primeiro vídeo, quem faz é Rebecca, irmã mais velha de Pedro. Foi dela a sugestão de transformar os erros no momento mais engraçado de cada vídeo. Rebecca tem 23 anos, não é autista, nem tem altas habilidades e é bastante presente na vida do irmão. “O que é ter uma irmã mais velha e típica. Bom pra mim é normal, ela é minha amiga, me aperta, briga comigo, não tem paciência, mas logo a paciência vem”, conta Pedro em um de seus posts.

Ainda há quem pense que o autismo é uma doença, diz Pedro, daí a importância da conscientização

A ideia de abordar também o autismo nos vídeos veio justamente da necessidade de Pedro se sentir mais incluído e esclarecer as pessoas. ”Eu sofria porque meus amigos não me entendiam, não entendiam o autismo, então eu gravei o vídeo contando o que é o autismo pra que meus amigos e outras pessoas vissem”. Ele acredita na importância desse trabalho de conscientização porque ainda há quem acredite que o autismo é uma doença e não uma característica.

Para quem quer entender um pouco mais sobre autismo, ele recomenda a leitura de “A Diferença Invisível”, uma história em quadrinhos baseada na vida da roteirista, Julie Dachez, uma mulher francesa com autismo leve. Uma outra sugestão de Pedro é “Um Mundo Singular” , de Ana Beatriz Barbosa Silva, que dá um panorama geral sobre o autismo, seus desafios e brilhantismos. No Instagram, a recomendação é o perfil do fotógrafo e escritor Nicolas Brito.

Antes de conversar com o Autismo e Realidade, Pedro participou, como ouvinte e também como palestrante, do 1º Congresso Internacional de Autista para Autista, realizado entre os dias 24 e 25 de outubro. A palestra que mais lhe chamou a atenção, diz ele, foi a do neuropsicopedagogo, neurocientista e doutor em Ciências da Educação André Luiz Alvarenga, que também é autista. “Ele pode contar um pouco sobre o que é o autismo, sobre os nossos sonhos, o que a gente sonha, e sobre o que a gente pode fazer, que é muita coisa.“

 

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