Visão de mãe: lidando com estigma dos filhos autistas

10/12/2020Histórias0 Comentários

Pessoas com TEA e seus familiares sofrem com olhares de reprovação constantes sobre seus comportamentos

Nossos filhos autistas são resumidos sempre como “fora da curva”, observados pelos cantos dos olhos alheios, com expressões de reprovação e expectativa sobre o comportamento deles. As pessoas parecem se perguntar: “Como será? O que virá a seguir?”.

É inegável e enervante esse relatório mental feito por pessoas que não sabem absolutamente nada sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, portanto, não deveriam estar ali julgando e avaliando nossos filhos. Muitas vezes condenando a nós, mães e pais, pelas estereotipias, pelos toques ou pela vocalização inapropriada. Lidamos cotidianamente, de forma intensa, com um estigma social a nós imposto.

Costumo imaginar um carimbo vindo deles e marcando a pele dos autistas como “inadequados”. Minha resposta imediata é enxergar um carimbo indo para essas mesmas pessoas que os avaliam (e nos avaliam) e marcando a pele delas como “inconvenientes”.

Em vez de examinados, autistas e seus familiares precisam mesmo é serem acolhidos

A humanidade anda de mal com a empatia. Ela anda sumida, desacreditada, diminuída. A dor de um, não passa muitas vezes, de gozo para outros. Onde nos perdemos? Por que tanto exame e tão pouca acolhida? Somos todos de uma mesma espécie, cada qual com suas particularidades, suas singularidades, sejam elas positivas, negativas, fortes ou fracas.

Somos todos diferentes e ao mesmo tempo, iguais – ou vice-versa. Fica muito complicado para nós, pais, investirmos tanto na autoestima de nossos filhos para que, na primeira esquina, comecem os olhares depreciativos.

A autoestima é construída a partir de experiências pessoais e como ela pode ser elevada, aumentada, fortalecida, diante da crítica, da condenação, das palavras e dos olhares depreciativos?

O que as pessoas ganham reprovando e rotulando negativamente autistas e seus familiares?

O nosso maior fardo, ao contrário do que se pensa, jamais são os nossos filhos autistas. Na verdade, é o mundo, que é cruel. Nós e nossos filhos nos deparamos, com frequência, com pessoas que muitas vezes nos cercam e, desnecessariamente, violam as nossas chances de um respiro, de um fôlego, de um alívio. Complicam tanto, nos avaliam de maneira pejorativa. Fecham portas. Trancam janelas. Desta forma, o peso fica gigantesco e nossas pernas bambeiam. Nosso otimismo enfraquece. Nosso gás começa a minguar. O que as pessoas ganham reprovando e rotulando negativamente as pessoas com autismo e seus familiares? Essa é uma pergunta que vale ouro.

O nosso amor pelos nossos filhos é imenso e incondicional. Mas o preconceito e a falta de empatia das pessoas e dos órgãos responsáveis – na educação, na saúde e na justiça – deixam tudo fica mais penoso. Por isso, vemos tantas mães, pais e cuidadores desmoronando.

O que fazer então diante de um quadro tão inglório? Só me resta citar Jean-Paul Sartre, quando diz: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Não esmorecer é a chave. Por eles, nossos amados filhos autistas.

Simone Alli Chair

Simone Alli Chair

Diretora da Associação de Pais Inspirare, sócia-fundadora da TeaPlay Centro de Terapia, Treinamento e Recreação Inclusiva. Graduada em Serviço Social, com pós- graduação em TEA. Pós- graduanda em Transtornos Comportamentais Escolares e em Inclusão e Direitos da Pessoa com Deficiência.

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