Depressão e suicídio no autismo

22/03/2021TEA no Dia a Dia0 Comentários

Pessoas com TEA são quatro vezes mais propensas a sofrer de depressão ao longo da vida

Sabemos que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido por seus critérios diagnósticos básicos: a presença de prejuízos na comunicação e na interação social, e a existência de comportamentos repetitivos e restritivos. Cada pessoa com TEA vai manifestar estes dois elementos em diferentes níveis de intensidade, o que vai definir onde está no espectro autista. Mas podem existir outros transtornos associados ao TEA, que acarretam a manifestação de outros sintomas.

Os transtornos associados são as chamadas comorbidades, que podem podem ser diversas, como TDAH, transtorno de ansiedade, transtornos do sono ou depressão. É importante ressaltar que as medicações usadas em conjunto ao tratamento do TEA são indicadas para atuar nas comorbidades e não no autismo em si. É o caso da risperidona, medicação que pode ser usada para sintomas de agressividade, por exemplo. Os sintomas de TEA, inclusos nos critérios diagnósticos básicos, são tratados com terapia comportamental multidisciplinar.

Pensamentos de morte ou suicídio, tentativa ou plano de suicídio estão entre os critérios de diagnóstico

Uma das comorbidades é o que se chama popularmente de depressão. O DSM5, manual da Associação Americana de Psiquiatria com classificações de transtornos mentais e seus respectivos critérios diagnósticos, define critérios para diagnosticar a depressão. O diagnóstico se configura caso a pessoa apresente cinco ou mais sintomas quase todos os dias, durante o período de 2 semanas, e um deles deve ser obrigatoriamente humor deprimido ou perda de interesse ou prazer:

– Humor deprimido durante a maior parte do dia;
– Diminuição acentuada do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades durante a maior parte do dia;
– Ganho ou perda significativa de apetite;
– Insônia (muitas vezes insônia de manutenção do sono) ou hipersonia (muito sono);
– Agitação ou atraso psicomotor observado por outros (não autorrelatado);
– Fadiga ou perda de energia;
– Sentimentos de inutilidade ou de culpa excessiva ou inapropriada;
– Capacidade diminuída de pensar, de se concentrar ou indecisão;
– Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou um plano específico para cometer suicídio.

No Brasil, acontecem anualmente 12 mil suicídios e cerca de 90% dos casos poderiam ser tratados

Dessa forma, nota-se que o pensamento de suicídio, além de fazer parte dos critérios diagnósticos de depressão, é algo que acontece com frequência. As sensações vivenciadas diante de um sofrimento por um suicida são descritas como insuportáveis, intoleráveis e intermináveis, de acordo com a com a UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro),

Em evento promovido pela universidade para alertar sobre o tema, especialistas reforçaram que, ao contrário do que é comum se imaginar, a decisão de cometer um suicídio não é aleatória, mas é resultado de um processo de longo prazo, que costuma ser solitário. Cerca de 12 mil suicídios ocorrem por ano no Brasil, número suficiente para tornar a questão um problema de Saúde Pública. Segundo a universidade, mais de 90% destas mortes têm causa diagnosticável e tratável. Já que o suicídio é um fato, não podemos ignorar que ele acontece e precisamos discutir mais sobre o assunto.

Estudo mostrou que, entre autistas, quanto maior a idade e a inteligência, maior o risco de suicídio

Em janeiro de 2019, foi publicado pelo Journal of Abnormal Child Psychology um artigo chamado “Prevalência de transtornos depressivos em indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo: uma meta-análise”. A pesquisa usou 7.857 artigos para avaliar a prevalência atual e ao longo da vida de transtornos depressivos unipolares em crianças, adolescentes e adultos com TEA.

O estudo mostrou que as taxas de suicídio entre pessoas com TEA foram maiores em estudos que incluíram participantes com maior inteligência. Além disso, a prevalência ao longo da vida foi associada ao aumento da idade e às pessoas de cor branca. As amostras que incluíram mais participantes brancos tiveram maior prevalência de transtornos depressivos ao longo da vida. Este achado é consistente com estudos na população em geral que sugerem que indivíduos brancos relatam níveis mais elevados de depressão em comparação com indivíduos não brancos.

Maior taxa de suicídio entre pessoas brancas pode indicar subdiagnóstico de autismo entre pessoas não brancas

É possível que indivíduos não brancos com autismo sejam subdiagnosticados, particularmente nos estudos baseados em métodos não padronizados para avaliar a depressão ou quando as entrevistas padronizadas não são culturalmente sensíveis. De acordo com a ativista Luciana Viegas, é comum que as pessoas negras contem apenas com o autodiagnóstico. O filho dela, autista não verbal, chegou a ser interpretado como uma criança mal educada, em vez de uma criança com o transtorno.

A investigação foi insuficiente para constatar se a relação entre etnia e taxas de transtornos depressivos variava entre os métodos de avaliação. Não se sabe, portanto, se essas taxas são realmente reais ou são reflexo de uma sociedade que ainda perpetua questões relacionadas ao racismo ao marginalizar assuntos relacionados com pessoas não brancas. Por isso, são necessárias mais pesquisas nessa área.

Ainda que faltem informações sobre raça, o artigo destaca que é fato que as taxas de transtornos depressivos são altas entre os autistas. Em comparação com indivíduos com desenvolvimento típico, os indivíduos com TEA são 4 vezes mais propensos a sofrer de depressão ao longo da vida. Por isso, o assunto deve sempre estar em pauta e ser acompanhado por profissionais qualificados ao longo do tratamento do TEA.

Risco de suicídio em mulheres com TEA é três vezes maior do que em mulheres neurotípicas, diz pesquisa

Em abril de 2019, a Autism Research, revista médica bimestral estabelecida como jornal oficial da Sociedade Internacional de Pesquisa em Autismo, publicou um artigo chamado de “Um estudo de 20 anos de morte por suicídio em uma população com autismo em todo o estado”. Esta pesquisa usou dados de vigilância existentes em Utah, nos EUA, para determinar a incidência de suicídio entre indivíduos com TEA ao longo de um período de 20 anos, e para caracterizar aqueles que morreram.

Entre 1998 e 2017, 49 indivíduos com autismo morreram por suicídio. As taxas de incidência cumulativa de suicídio não diferiram significativamente entre 1998 e 2012 entre as populações com o transtorno e a população geral.

No entanto, entre 2013 e 2017, a incidência cumulativa de suicídio na população com autismo foi de 0,17%. O número é significativamente maior do que na população geral, de 0,11%. Durante este período, essa diferença foi impulsionada pelo suicídio entre mulheres com autismo, deixando evidente que o risco de suicídio em mulheres com TEA foi três vezes maior do que em mulheres sem autismo.

Idade dos suicídios de autistas varia de 14 a 70 anos; uso de armas de fogo é menor que entre não autistas

Entre os indivíduos com TEA que morreram por suicídio, a idade média na morte e a forma de morte não diferiram significativamente entre homens e mulheres. A idade da morte por suicídio variou de 14 a 70 anos. Além disso, indivíduos com autismo eram significativamente menos propensos a usar armas de fogo como método de suicídio em comparação à população geral.

Os resultados do estudo expandem a compreensão do risco de suicídio no TEA e apontam para a necessidade de pesquisas adicionais de base populacional sobre tentativas de suicídio e ideação, bem como a exploração de fatores de risco adicionais.

Os resultados também sugerem a necessidade de mais estudos sobre o risco de suicídio feminino em TEA. Em outros textos do nosso blog discutimos um pouco sobre o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) ser quatro vezes maior no sexo masculino do que no feminino e sobre as diferenças nas comorbidades entre homens e mulheres com autismo. Vimos que os estudos abrangendo mulheres com autismo ainda são escassos e, mais uma vez, vemos a importância de investir nessa área de pesquisa.

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