Autismo e os novos esportes olímpicos

16/06/2021TEA no Dia a Dia0 Comentários

Surfe e skate estreiam como modalidade nos próximos Jogos e podem ser adaptados para autistas

O surfe e o skate estão entre os esportes que estreiam nos próximos Jogos Olímpicos. Prevista para o ano passado e adiada por conta da pandemia de covid-19, a competição sediada em Tóquio foi remarcada para começar no dia 23 de julho deste ano. As chances de medalhas para o Brasil são grandes, por contar com líderes do ranking mundial na disputa.

No surfe, os representantes brasileiros serão o bicampeão mundial Gabriel Medina (2014/2018) e o atual campeão Ítalo Ferreira, além de Tatiana Weston-Webb, vice-líder do mundial na temporada, e Silvana Lima, eleita oito vezes a melhor surfista do Brasil.

No skate, o Brasil terá 12 representantes, com destaque para Pâmela Rosa, atual campeã mundial e líder do ranking, e Rayssa Leal, de apenas 13 anos, vice-campeã mundial e segunda do ranking. Há duas modalidades do skate em disputa. Um deles é o street, uma pista que simula obstáculos da cidade, como bancos, corrimões, escadas, guias de calçada e hidrantes, por exemplo. O outro é o park, que combina obstáculos com os chamados bowls, as pistas côncavas que serviram como base para a criação do esporte.

História do skate está conectada aos surfistas da Califórnia e ocupação de piscinas em seca de 1970

A história do skate está conectada à do surfe. Foram surfistas da Califórnia, nos EUA, entre as décadas de 1950 e 1960, que desenvolveram e ajudaram a popularizar a prática do skate como conhecemos hoje. A prancha com quatro rodinhas chegou a ser chamada de sidewalk surf, expressão que no português significa surfe de calçada – uma forma de surfar no asfalto. Na década de 1970, uma seca provocou o racionamento de água na Califórnia e moradores esvaziaram suas piscinas de fundo arredondado, que passaram a ser ocupadas por quem andava de skate.

As duas práticas são esportes individuais que se baseiam no equilíbrio para suas manobras. No caso da inserção dos autistas, o fato de serem esportes individuais já traz uma vantagem, como diz o educador físico e pedagogo Rodrigo Paiva. “Muita gente comete um baita equívoco, que é inserir o autista forçosamente em esportes coletivos. Em todos estes esportes convencionais – futebol, basquete, vôlei – , o autista vai ter mais dificuldade”, conta Paiva.

Prática individual permite curtir o esporte sem necessariamente depender de interações

O skate, diz ele, pode gerar atração para o autista por não demandar interação. “Permite a criação de grupos de convivência, de tribos urbanas, mas permite que eu conviva com minhas vontades, necessidades, angústias, sem precisar dialogar com ninguém. Somos o skate e eu”.

Rodrigo é padrasto de um adolescente autista severo de 14 anos, e se surpreendeu com as habilidades de equilíbrio do garoto ao subir em um roverboard – uma espécie de skate, mas com duas rodas. “Ele compreende mecanismos de controle de centro de gravidade, que tem capacidades parecidas com o skate, que ninguém sabia que ele tinha e não tinha estimulado. Lembro dele pequenininho, a gente andando de skate, sentado, ele adorava”, diz o pedagogo.

Pai de autista, o surfista profissional Izzi Paskowitz se surpreendeu ao perceber a conexão que o filho conseguiu estabelecer com a água. Ele conta que se frustrou com o fato do de Isaiah não se desenvolver de forma típica. O garoto perdeu a linguagem aos 2 anos, quando os traços de autismo começaram a se manifestar.

Surfista surpreso ao perceber conexão do filho com o mar criou projeto que introduz autistas no surfe

Em entrevista à série de documentários ‘Inspired by Sport’ ele conta que acabou deduzindo que o filho não se adaptaria bem ao ambiente aquático. “Não sei porque nunca pensei que ele se daria bem na água. Pensei que ele era especial. Isaiah é autista, ele não pertence à água. Mas ele estava tentando me dizer. No dia em que o levei para surfar, houve uma conexão, ele se completou. A atitude dele foi notável. Foi tipo ‘nossa’. É muito poderoso estar na água.”

A descoberta veio quando Isaiah estava sofrendo uma crise enquanto o pai disputava um campeonato no Havaí. Sem saber mais o que fazer, Paskowitz conta que levou o garoto para o mar, e viu uma transformação acontecer. “Ele estava feliz, sorridente e em paz”. Paskowitz pegou a prancha de um amigo e começou a surfar com o filho pela primeira vez. “Ele amou. Amou o mar, amou estar na prancha junto comigo. E eu? Eu estava fora de mim, porque finalmente estava me conectando com meu filho. Poderíamos surfar juntos, e isso foi o suficiente”, relata.

A reação do filho inspirou Paskowitz a criar o projeto Surfers Healing, que promove acampamentos para colocar crianças autistas em contato com o surfe desde 1996. O projeto tem hoje sedes espalhadas pelos Estados Unidos, México e Porto Rico. Ao documentário, um dos instrutores relata que um garoto autista, após surfar, caminha pela areia e fala “Cadê meu troféu?”. A mãe, diz o instrutor, começou a gritar e caiu de joelhos. “Perguntei a ela se poderia ajudar, e ela disse ‘meu filho nunca tinha falado na vida.”

É possível desenvolver o primeiro contato com práticas de equilíbrio com brincadeiras domésticas simples

É importante frisar que cada autista manifesta o transtorno de forma única e vai se adaptar a um tipo de esporte e ambiente de acordo com suas possibilidades sensoriais.

Paiva conta que há estímulos simples, dentro de casa, que podem ser adotados para desenvolver o equilíbrio de crianças autistas e tentar inseri-las na prática do skate. É importante levar em consideração o nível de comprometimento no espectro. Para autistas leves, o skate pode se transformar numa modalidade de prática física frequente. Para autistas severos, o desenvolvimento do equilíbrio, da resistência de membros inferiores, da confiança no tutor, por exemplo, vai facilitar as habilidades da vida diária.

“Os objetivos vão mudar em função do nível de comprometimento. Uma das coisas que mais me empolga na atividade física para autistas é que a prática frequente potencializa os medicamentos. Existe uma probabilidade de que, com o esporte, a pessoa autista demandará menos medicamentos. Skate combina práticas aeróbicas e anaeróbicas, envolve manipulação, potência e equilíbrio, exige uma série de habilidades motoras e pode favorecer, com todas as aspas possíveis, potencializando o efeito medicamentoso. Se meu filho pode tomar menos remédio, é melhor pra vida dele.“

A primeira dica para introduzir um autista ao skate é: não compre um skate ainda

Paiva conta que como o skate demanda um gasto calórico muito grande, pode ser uma possibilidade para pais que querem que os filhos pratiquem uma atividade física extenuante.

A primeira orientação de Paiva para quem quer inserir o filho no esporte, por incrível que pareça, é não comprar um skate. Comprar um equipamento sem saber escolher pode trazer prejuízos em dois ou três meses. Antes de investir dinheiro, o ideal é pensar em atividades que aproximem o autista do esporte e prestar atenção em que medida a criança se adapta e se realmente curte a experiência. “Vamos começar com as capacidades. Skate envolve coordenação, equilíbrio e resistência”, define Paiva.

A dica de Paiva é investir em jogos e brincadeiras domésticos. “Imagina que eu pegue dois cobertores, enrolo num rolinho e coloco sob uma tábua de passar. Tenho a instabilidade do skate, mas estabilidade, porque a estrutura não vai correr. Fica coordenado com meu corpo, mas o objeto não sai andando.

Antes de comprar qualquer equipamento é importante verificar o interesse do filho, a adaptabilidade do autista e a vontade de continuar praticando, e procurar alguém que possa ajudar.

Surfista profissional, o autista Clay Marzo se acalmava para dormir quando a mãe o colocava na banheira

No caso do surfista profissional Clay Marzo, também norte-americano, a adaptação à água ocorreu de forma natural. No documentário Just Add Water (Apenas Adicione Água ), a mãe dele conta que Clay sempre teve uma relação próxima com a água. Para fazê-lo dormir, tampava o ouvido do filho e o deixava flutuar na banheira até relaxar. Clay só foi diagnosticado com autismo leve em 2007, aos 18 anos, quando passou a fazer sentido seu comportamento não convencional no circuito do surfe. Ele não costumava dar muita atenção a fãs, colegas e patrocinadores e era conhecido por ser dolorosamente honesto. Clay é um dos colaboradores do Surfers Healing, criado por Paskowitz.

Surfe, skate ou qualquer outra possibilidade de prática de atividade física contribui para a inclusão de autistas. Quando a família encara essa prática como estratégia para adaptar e ampliar o aprendizado, é possível valorizar as infinitas possibilidades oferecidas pelo movimento. Em um artigo para o nosso blog, o educador físico Jardel Meira Costa aponta que “melhorar a condição corporal é um dos caminhos para melhorar a comunicação e a interação de forma global e, desta forma, contribuir para formar um indivíduo mais participativo e feliz em seu meio social.”

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