Autismo, trabalho, direitos e tecnologia

23/06/2021Eventos e Cursos0 Comentários

VII Simpósio de Atualização em Transtorno do Espectro Autista discutiu inserção de autistas no mercado, legislação e recursos tecnológicos inclusivos

O incentivo à inserção de autistas no mercado de trabalho, as leis e direitos que garantem esses incentivos e os recursos tecnológicos que facilitam a inclusão de autistas esteve em foco na segunda mesa do VII Simpósio de Atualização em Transtorno do Espectro Autista promovido pelo Instituto PENSI no dia 24 de abril para marcar o Abril Azul. A mesa teve mediação de Marcilia Martyn, neurologista do Sabará Hospital Infantil e da pesquisadora Bárbara Bertaglia.

O estímulo à entrada de pessoas atípicas no mercado de trabalho foi abordado pela advogada Heloisa Uelze, do escritório Trench Rossi Watanabe. Segundo ela, o incentivo à inclusão no ambiente corporativo vem ganhando força especialmente a partir dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) (https://brasil.un.org/pt-br/sdgs) estabelecidos em 2012 pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Inclusão social vem se consolidando como critério para investimentos em empresas

Em especial, o incentivo vem de dois ODS. Um deles é o 4, Educação de Qualidade, que propõe assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. O outro é o ODS 8, Trabalho Decente e Crescimento Econômico, de promover o crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos.

Além dos ODS, as preocupações com a inclusão norteiam cada vez mais decisões de fundos de investimentos, baseados em um critério conhecido como ESG. A sigla, em inglês, significa Environment, Social e Governance – ou Ambiente, Social e Governança, em português. O ESG vem se consolidando como um critério de sustentabilidade para injeção de recursos. Investidores e fundos de investimento avaliam não só o desempenho financeiro, mas os impactos ambiental, social e de governança para apostar em um negócio.

“Tem uma expressão que diz ‘quem não aprende em casa, aprende fora. Apesar de todo o aparato para dar suporte a pessoas com deficiência hoje em dia, o que está ajudando a incluir autistas nos mercado de trabalho são as políticas externas, os ODS da ONU e negócios sustentáveis também”, sintetizou Heloisa.

Lei Berenice Piana contribuiu para estimular a inserção do autista no mercado de trabalho

Uma série de leis e direitos conquistados ao longo dos séculos 20 e 21 também influenciaram a conquista de mais espaço para pessoas com deficiência no mercado de trabalho. A promotora de Justiça Sandra Massud apresentou um breve panorama desses avanços, como a Lei Berenice Piana, que oficializa os autistas como pessoas com deficiência, facilitando seu acesso ao mercado de trabalho por meio da Lei de Cotas.

Mãe de um adolescente com autismo de 13 anos, Sandra reforça a importância dos autistas serem inseridos no mercado de trabalho para que possam ter uma vida independente e autônoma.

“Se nós estamos falando de inclusão é porque alguém está excluído”, diz Sandra Massud

O direito ao trabalho está conectado com o direito à educação. A recusa de matrícula em escolas para pessoas com deficiência, ressaltou Sandra, é crime no Brasil desde 1989. No entanto, a promotora ressalta: “Não adianta a inclusão acontecer só na escola, não adianta ser setorial. Ela tem que ser global, senão não chegamos à contratação por grandes empresas. E também não chegaríamos à independência e autonomia que todos nós, pais, queremos pros nossos filhos”.

A tendência, na visão de Sandra, é que a luta contra a exclusão se torne cada vez menos necessária ao longo do tempo. “A inclusão aconteceu no passado e acontece no presente. Se nós estamos falando de inclusão é porque alguém está excluído, mas no futuro, nós não teremos que falar mais nisso porque nós somos iguais. Diferentes nas nossas especificidades e nas nossas potencialidades, mas todos iguais em direitos e deveres”, afirmou.

Tecnologia abre portas para inclusão efetiva de autistas; rede social focada em autismo já está no ar

Entre as ferramentas para facilitar não só a inclusão dos autistas, mas também tornar mais simples o trabalho de pesquisadores sobre autismo, está a Tismoo.me, uma rede social que está sendo desenvolvida pela Tismoo e um projeto do qual faz parte do jornalista Francisco Paiva, pai de um menino autista e de uma menina neurotípica.

Paiva é fundador da revista Autismo, a primeira em língua portuguesa sobre o transtorno. Em 2017, ele se uniu à TismooMe e entendeu que era necessária uma rede social vertical focada no autismo, assim como o LinkedIn é focado no mundo corporativo. A rede permite, por exemplo, armazenar exames, e evitar ir a consultas com uma pasta recheada de papéis. O compartilhamento de exame pode ser ativado para perfis específicos, permitindo que os dados médicos do autista sejam tratados com privacidade. A rede já está no ar e começou a liberar convites para interessados aqui.

Um dos recursos desenvolvidos pelo TismooMe para facilitar a inserção digital de autistas é a descrição de emoji. Uma ferramenta permite ligar ou desligá-la. “Se ler a face é difícil pra muitos autistas, imagina um desenho”, diz Paiva. “São detalhes aparentemente pequenos, mas que fazem uma enorme diferença e permitem que o autista seja incluído de forma efetiva”.

Paiva enxerga nas áreas de tecnologia portas que podem facilitar a entrada de pessoas com autismo no mercado de trabalho. “A grande importância é que o autista tem várias limitações, como qualquer pessoa neurotípica tem, mas você tem que focar nas potencialidades, e tem potencialidade sobrando por aí”, afirma o jornalista.

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