Autismo em adultos: reconhecendo sinais e convivendo com o TEA

1/10/2021Diagnóstico0 Comentários

Maior parte das pesquisas na área foca em crianças, mas à medida que elas crescem e o diagnóstico se amplia, há mais adultos autistas

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do desenvolvimento neurológico caracterizado por dificuldades de comunicação social e de interesses restritos desde a infância até a fase adulta. Na fase inicial, as pesquisas na área de TEA focaram crianças com autismo. Entretanto, sabe-se que essas crianças crescem. Como o TEA não tem cura, essas crianças serão adultos autistas.

Ainda há poucos estudos disponíveis sobre a saúde mental e física de adultos com TEA

Entretanto, mesmo que o debate sobre o TEA tenha se intensificado, que o número de diagnósticos na infância venha crescendo e o acompanhamento venha se iniciando mais cedo, pouco falamos sobre o Transtorno do Espectro Autista na fase adulta. Para isso, é importante discutirmos como seria lidar com as características do TEA na fase adulta ou como seria descobrir o TEA apenas na fase adulta.

Cada vez mais é possível notar um número crescente de adultos sendo diagnosticado com TEA. Mesmo assim, há poucos estudos disponíveis sobre a saúde mental e física de adultos com TEA. Ainda é difícil associar fatores comuns da velhice com os sintomas de TEA. São comuns os relatos de pacientes mais velhos de dificuldades no acesso aos serviços de diagnóstico e acompanhamento, tanto do âmbito público quanto na rede privada.

O autismo e o crescente aumento da demanda por serviços clínicos para pessoas com TEA foram identificados pelas Nações Unidas e pela Organização Mundial da Saúde como uma questão de saúde pública.

Transição para a vida adulta de um autista deve ser preparada ao longo a adolescência

O desenvolvimento de opções de tratamento adequadas à idade, considerando fatores sociais e financeiros, ainda é um desafio. Não se pode esquecer que se uma pessoa com autismo envelhece, todo o seu entorno também provavelmente envelheceu. Assim, a morte de um dos pais, de um parceiro ou de um irmão mais velho, que tem papel de cuidador, pode ter um impacto adverso na saúde mental e na capacidade de viver de forma independente, seja por conta do apoio humano ou do financeiro. Todos esses fatores devem ser considerados ao se pensar em um tratamento e acompanhamento de um indivíduo adulto com TEA.

A preparação da transição para a fase adulta deve começar ainda na adolescência. É importante que o autista, pais e cuidadores conversem sobre os interesses, habilidades e necessidades do indivíduo para entender quais serão as prioridades desta nova fase. Com isto definido, é hora de analisar os serviços de apoio que serão necessários, como treinamento vocacional, educação técnica ou superior, coaching para empregos e suporte para habitação, entre outros. Para isso também é importante debater sobre a inclusão social.

Autonomia financeira por autistas depende de aumento da inclusão no mercado de trabalho

A transição para a fase adulta é marcada pela independência. Essa independência é conquistada, entre outros aspectos, pela autonomia financeira a capacidade de gerir seus custos de vida, seja para sobreviver, com necessidades de alimentação e moradia, ou para qualidade de vida, como lazer.

O aspecto financeiro gira, principalmente, em torno de empregos no mercado profissional. Para que eles aconteçam, é importante que a pauta da inclusão social esteja em alta. O mercado de trabalho é o espaço que, além de proporcionar base financeira para pessoa autista, proporciona inclusão na sociedade e convívio entre pessoas típicas e atípicas.

Já discutimos neste blog sobre como diminuir as limitações e aumentar a inclusão dos autistas e da importância da difusão de conhecimento para a sociedade, para diminuição de estigmas e preconceitos, do acesso precoce ao diagnóstico e tratamento do autismo, para auxiliar no melhor desenvolvimento de habilidades, além de acesso de autistas a escolas regulares e ao mercado de trabalho. Todos esses aspectos contribuem para o aumento da inclusão social.

Além disso, existem as doenças associadas que podem surgir na faixa etária idosa de qualquer pessoa. Pressão alta, diabetes, artrose e demência são apenas algumas doenças que podem ser citadas para essa idade e também precisam de um diagnóstico e tratamento conjunto. Mesmo sabendo que ainda são necessárias mais pesquisas para investigar a saúde de idosos com TEA em específico, temos a necessidade de acompanhar as doenças de presença comum à população em geral juntamente com o TEA nesta faixa etária.

Assim como na infância, diagnóstico na idade adulta depende da observação dos comportamentos

A melhor maneira de ajudar os autistas e todos que os cercam é garantindo acesso a um sistema de saúde de qualidade e a oportunidades de estruturação da vida social e financeira.

Antes de qualquer coisa, também é necessário que haja um diagnóstico correto. Mesmo que o TEA seja um distúrbio que está cada vez mais em pauta, ainda não existem exames laboratoriais para o diagnóstico.

Então, o autismo é definido a partir de critérios clínicos baseados no comportamento do indivíduo. Dessa forma, mesmo na fase adulta, o diagnóstico irá se basear no modo de agir da pessoa. Há fatores que podem servir como indicadores, como:

  • dificuldade durante a vida toda de interagir com outras pessoas e manter relacionamentos;
  • dificuldade de olhar nos olhos, dificuldade de entender figuras de linguagem;
  • presença de gestos repetitivos ou expressões verbais atípicas;
  • apego a rotinas e/ou padrões ritualizados de comportamento;
  • recordações do desenvolvimento infantil, como a de que houve um atraso no início da linguagem.

Como obter acesso ao diagnóstico de adultos com autismo no Brasil?

A partir do momento em que se constatam características do TEA, é hora de consultar um especialista para confirmar o diagnóstico.

No caso de crianças e adolescentes, as famílias devem buscar atendimento com um neurologista pediátrico (neuropediatra ou neurologista infantil) ou um psiquiatra infantil. Já os adultos podem se consultar com um psicólogo, que vai identificar os sintomas e fazer uma avaliação inicial com base em observação, entrevistas e análise de histórico, ou com psiquiatra ou neurologista. O diagnóstico final, no entanto, precisa ser laudado por um médico (psiquiatra ou neurologista).

No Brasil, para ter acesso a esses atendimentos, pode-se utilizar tanto a rede privada de saúde quanto o SUS, não só para diagnóstico como também para acompanhamento de TEA. No SUS, a Unidade Básica de Saúde (UBS), o chamado “postinho”, é a principal porta de entrada para a atenção à saúde. Nem todo município tem uma equipe completa de saúde mental, mas há Unidades Básicas de Saúde que gerenciam e acionam outros pontos de cuidado de diferentes densidades tecnológicas. Além da UBS, outras unidades para diagnóstico e acompanhamento terapêutico por via gratuita podem ser: NASFS, CAPS, Universidades e Unidades de Referência.

CAPS é responsável pelo projeto terapêutico e a referência em saúde mental

Casos de menor gravidade podem ser mantidos em tratamento pelas UBS, com equipes de Estratégia de Saúde da Família (médicos de família, enfermeiros, dentistas), com apoio do NASF. O apoio do CAPS pode ser importante em casos de maior gravidade ou dúvida diagnóstica porque os CAPS têm equipes que atuam no refinamento de diagnóstico, ou seja, na realização de novas análises que geram mais informações para o diagnóstico definitivo.

O CAPS é responsável pelo projeto terapêutico e a referência em saúde mental para o cuidado ao TEA. Quando necessário, ele pode também acionar outros pontos da rede, como serviços universitários ou referências específicas para atendimento ao TEA para diagnóstico ou acompanhamento mais aprofundado dos casos mais graves ou atípicos, com avaliações de comorbidades com patologias em geral ou deficiência intelectual. O CAPS pode ser acessado por meio de encaminhamentos via UBS ou por demanda espontânea (pessoas que o procuram diretamente).

Além disso, algumas localizações podem contar com pontos de auxílio de diagnóstico e tratamento, principalmente no sentido de abarcar casos mais graves. Por exemplo, a Secretaria de Estado de Saúde do Estado de São Paulo conta com unidades de tratamento conveniadas, cujas vagas estão disponíveis para pacientes conforme a necessidade e regulamentação de Resolução do Secretário.

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