Comportamento alimentar está associado a hipersensibilidade no autismo?

29/10/2021TEA no Dia a Dia0 Comentários

Transtorno de processamento sensorial pode afetar a comunicação social e o comportamento do autista

Quando pensamos em características do autismo, lembramos que pode haver a sensibilidade sensorial, seja ela hipersensibilidade ou hiposensibilidade. Essa característica pode afetar diversos momentos da rotina do autista, desde os tipos de brinquedos que mais chamam atenção dele até o cotidiano alimentar, por exemplo.

Segundo estudos recentes, de 2018 a 2021, entre 70% e 80% das crianças autistas sofrem com o transtorno de processamento sensorial, enquanto este é observado entre 5% a 23% da população em geral. Essa diferença de entendimento da sensibilidade também pode afetar a comunicação social e o comportamento.

Problemas alimentares afetam até 90% das crianças autistas

Diferentes estudos mostram que pelo menos de 70% a 90% dos pais de crianças autistas relatam problemas de alimentação, enquanto estas dificuldades atingem de 10% a 45% das crianças da população em geral.

Entre autistas, os pais relatam, com variados graus de gravidade, comportamentos alimentares difíceis, recusa alimentar, aversão a alimentos, seletividade alimentar, repertório alimentar limitado e padrões de alimentação obsessiva, entre outros.

“As questões em torno das escolhas alimentares merecem destaque, pois, se mal administradas ou não tratadas, tornam-se crônicas, afetam a dinâmica familiar e podem provocar problemas nutricionais”, afirma a fonoaudióloga, especializada em dificuldades alimentares, Claudia de Cássia Ramos, que já falou aqui no blog sobre problemas alimentares no TEA.

“Crianças com TEA são mais restritivas em relação à categoria e às texturas dos alimentos e apresentam uma maior incidência de recusa alimentar. As dificuldades sensoriais com sabores e cheiros e a dificuldade de incluir novos alimentos na dieta também são comuns”.

Repertório de alguns autistas pode não passar de 20 alimentos

Claudia diz ainda que o repertório alimentar de autistas pode ser menor. Alguns demonstram extrema seletividade, com menos de 20 alimentos no repertório alimentar. Além disso, pode haver desejo persistente de comer sempre a mesma coisa, assim como preferência por determinadas texturas ou marcas.

Para analisar as diferenças na alimentação de pessoas autistas, foi publicado em 2021 um estudo com título traduzido como “Comportamentos alimentares de crianças com autismo”. Participaram dois grupos de crianças, com idade entre 2 e 12 anos. O primeiro foi o grupo de estudo, com 41 crianças autistas. O segundo foi o grupo controle, com 34 crianças típicas.

Pesquisa comparou crianças autistas e não autistas em relação à amamentação

A comparação das crianças ao término da amamentação, calculada em meses de vida, não indicou diferença estatisticamente significativa. Em ambos os grupos, metade das mães que amamentaram relatou problemas relacionados à amamentação. A análise dos problemas particulares, por outro lado, indicou que o problema significativamente mais frequente no grupo das crianças autistas foi o tempo encurtado de amamentação, já que as crianças dormiam enquanto estavam no peito.

Mesmo que a idade de interrupção da amamentação não mude muito, de acordo com a literatura, as crianças autistas são amamentadas com uma frequência significativamente menor.

Existem várias razões para a parada precoce da amamentação, desde as somáticas até as emocionais e sensório-motoras.

Entre os distúrbios do processamento sensorial que afetam o processo de amamentação de uma criança, os mais importantes incluem: hipersensibilidade tátil orofacial (oral e da face), a hipersensibilidade tátil de todo o corpo e a hipersensibilidade a cheiros, sabores e sons (ativados durante o contato pele a pele, pelo toque frequente da mãe e pelo gosto ou cheiro intenso do leite materno).

Tempo menor de amamentação pode indicar atraso no desenvolvimento alimentar

A redução do tempo de amamentação das crianças autistas, que dormem ao seio, pode indicar, entre outros, o atraso na maturação do comportamento alimentar, que leva ao encurtamento do tempo de sucção. Outras pesquisas mostram que o ritmo e as sessões de sucção mais longas são parte integrante do desenvolvimento geral de um organismo.

Aparentemente, os distúrbios de desenvolvimento do sistema nervoso podem ser uma indicação diagnóstica valiosa. Além disso, a prontidão normal de um recém-nascido ou lactente para a amamentação está relacionada à organização comportamental e à energia para agir, que é alcançada mantendo-se acordado, mantendo uma boa postura com o tônus ​​muscular normal e tendo interesse em sugar. Possivelmente, todos esses aspectos estariam alterados na criança autista.

Há texturas que são menos aceitas por crianças autistas

A pesquisa constatou também que as crianças do grupo com autismo foram introduzidas aos alimentos com textura granulosa e sólida significativamente mais tarde do que as típicas. Só não houve diferença em relação a alimentos com textura líquida ou pastosa.

Também houve diferença nas respostas às questões relacionadas à textura preferida do alimento e à intolerância à textura particular de um alimento pela criança com mais de seis meses.

A relutância dos bebês autistas ou as dificuldades em ampliar a dieta da criança autista pode ser decorrente da hipersensibilidade sensorial e do distúrbio motor orofacial. Os comportamentos também podem ser resultado de problemas de autorregulação.

Sensibilidade pode interferir nos acessórios usados para se alimentar

A hipersensibilidade a texturas pode interferir também nos objetos usados na alimentação. A comparação indicou que uma mamadeira com bico foi usada com muito mais frequência pelas crianças autistas, e que essas crianças comeram independentemente, usando as mãos, com muito menos frequência. Entrar em contato com a textura da mamadeira pela boca pode ser agradável, enquanto a sensibilidade aos alimentos pela mão pode não ser.

Essas alterações de sensibilidade podem se manter ao longo de toda a vida do autista. Por isso, em muitos casos, são necessárias terapias específicas para estimular uma aceitação maior de alimentos variados.

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