Estratégias para manejar a estereotipia em autistas

13/05/2022Tratamentos0 Comentários

Comportamento surge na infância, pode acompanhar o autista por toda a vida e não deve ser reprimido

Entre as principais características dos autistas estão os padrões restritos e repetitivos de comportamento, de interesses e de movimentos motores. Também é muito comum que apresentem falas estereotipadas, hiper (muita) ou hipo (pouca) reatividade a estímulos sensoriais do ambiente, além de uma adesão inflexível a uma rotina ou a padrões ritualizados.

Os comportamentos estereotipados podem começar a aparecer na infância e acompanhar o autista durante toda a vida.

De acordo com estudos de Gershon Berkson, especialista em psicologia da Universidade de Illinois, a estereotipia é um comportamento voluntário, que persiste ao longo do tempo e é imutável, ou seja, não se modifica frente a mudanças ambientais. E não necessariamente condiz com o nível de desenvolvimento do sujeito.

Atualmente, o autismo é dividido em nível 1, que demanda baixo grau de suporte e é ainda hoje popularmente conhecido como autismo leve; nível 2, que demanda grau moderado de suporte, e nível , que demanda um grau severo de suporte.

Não existe um padrão para a estereotipia, que se manifesta de forma específica em cada autista

A estereotipia é diversa em cada autista. Pode se manifestar por balançar o corpo e a cabeça, virar as mãos, ranger os dentes, girar objetos, andar na ponta dos pés, alinhar objetos, levar a mão ou objetos à boca, ecolalias tardias ou imediatas, movimentar objetos na visão periférica, comportamento auto lesivo repetitivo e dificuldade motora para sentar ou permanecer sentado.

O comportamento estereotipado ocorre independentemente das consequências sociais, ou seja, reprimir esse tipo de comportamento com justificativas de cunho social não irá diminuir a sua ocorrência. Frases como, “não faça isso na frente nas pessoas” ou “é feio fazer isso em público” não agem como reforçadores negativos.

Uma boa estratégia é a utilização de atividades ou brincadeiras sensoriais, pois elas proporcionam o mesmo tipo de estimulação que o comportamento estereotipado.

Os brinquedos sensoriais são aqueles que exercitam os sentidos das crianças por meio da coordenação motora, curiosidade e criatividade, como garrafas sensoriais, pulseira tátil de silicone, luva de microfibra, mordedor, unzip (brinquedo que dobra e gira uma corrente para criar diversas formas), bola de gel, neve artificial que expande na água e colete ponderado.

Comportamento repetitivo dos autistas é uma forma de regular as próprias emoções

O autista apresenta sensibilidade em relação a estímulos e variações do seu próprio corpo. Dessa forma, se ele tem uma infecção no ouvido, por exemplo, pode apresentar o comportamento repetitivo de bater na orelha. Pode ainda colocar as mãos nas orelhas quando estiver em algum ambiente barulhento. Nesses casos, os responsáveis devem iniciar imediatamente o tratamento para infecção de ouvido e podem trabalhar com as contingências do ambiente, como utilizar fones abafadores de ruídos.

A estereotipia pode também agir como uma maneira de lidar com as emoções e os sentimentos. Pessoas neurotípicas utilizam maneiras corporais de auto regulação quando há presença de emoções como felicidade ou tristeza (geralmente, ocorre o riso ou o choro).

Não autistas possuem repertórios sensoriais para lidar com as próprias sensações. Já os autistas utilizam o comportamento repetitivo para lidar com o que sentem.

Portanto, uma estratégia seria ensinar rotinas sensório-sociais, que auxiliam a criança a integrar os seus sentidos e a aprender outras formas de auto regulação, diversão e estimulação.

Em suma, o autista pode aprender a ter outros estímulos prazerosos, sejam sociais ou motores, como jogar uma bola sensorial para cima, brincar de correr e girar em volta de brinquedos no parque com outras crianças. À medida que se aumenta a funcionalidade e a frequência das brincadeiras sensório motoras há uma diminuição gradual das estereotipias.

Yasmine Martins

Yasmine Martins

Psicóloga Clínica formada pelo Centro Universitário São Camilo, com especialização em Neuropsicologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), aprimoramento em Psicologia Hospitalar e mestrado em Ciências da Saúde Infantil no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo (IAMSPE). É doutoranda em Saúde Baseada em Evidências na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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