Jú Maia: Minha existência é um tabu pra muita gente

6/06/2022Histórias0 Comentários

Influenciadora autista lésbica fala sobre importância do acolhimento familiar e da guinada na autoestima após receber o diagnóstico aos 22 anos

“Neurobióloga, lésbica e autista que fala sobre suas vivências de forma leve” é como se define a pesquisadora Juliana Maia, a Jú, em seu perfil do Instagram, @atipicamente__ , que soma hoje cerca de 12 mil seguidores. Jú é uma pessoa alegre e expansiva, disposta a falar sobre qualquer assunto.

“Não tenho tabu com nada, relações sexuais, sexualidade, e várias outras coisas que são polêmicas. Mas a gente sabe que a sociedade tem vários, principalmente quando se trata de autismo. Acho que só a minha existência já é um tabu pra muita gente”, disse a influenciadora em entrevista ao Autismo e Realidade. “Porque ninguém espera que autistas cresçam, tenham trabalho e que autistas também tenham sexualidade.”

Apoio familiar é essencial para o enfrentamento do capacitismo

Jú recebeu o diagnóstico de autismo há dois anos e conta que, desde então, vem aprendendo a lidar com os arranhões provocados pelo capacitismo em sua autoconfiança e sua autoestima.

Hoje, aos 24 anos, diz que é uma pessoa que consegue se amar e que, graças ao acolhimento que sempre recebeu dentro de casa, tem forças para enfrentar quem ainda é incapaz de lidar com as diferenças. Esse acolhimento familiar, diz Jú, é essencial inclusive para que uma pessoa autista e LGBT possa sobreviver a altas taxas de suicídio. “Nós, LGBTs, temos uma tendência muito maior ao suicídio. Se for autista, isso é maior ainda. (…) Por isso, aceite seu filho (..) se dentro de casa, ele não tiver o menor acolhimento, vai ficar muito pior pra ele. Quando você tem o acolhimento de casa, você se sente forte pra encarar o mundo.”

Além do perfil na rede social, Jú está preparando o lançamento de um podcast com outras duas mulheres autistas, onde deve continuar a falar sobre o que bem entende. O nome do projeto ainda não pode ser divulgado, mas o segredo deve acabar em breve. Enquanto o lançamento não sai, uma das dicas para quem quer aprender um pouco mais sobre autismo é a leitura do quadrinho “A Diferença Invisível”. Confira a entrevista na íntegra:

“O capacitismo, ele destrói totalmente sua confiança em várias coisas”

– Em um de seus posts você diz que o capacitismo te fez acreditar que nunca seria digna de nada e que ninguem gostaria de você. Você conseguia perceber essa crença negativa de forma consciente ou ela só foi ficando clara à medida que se fortaleceu a ideia de que você é, sim digna de ser admirada e amada? Como esse processo de transformação aconteceu?

Isso, na realidade, é um processo em que estou até hoje. Porque o capacitismo, ele destrói totalmente sua confiança em várias coisas. Ele faz com que você se sinta inferior, indigna de conquistar as coisas, parece que ninguém nunca vai gostar de você e tal.

Eu realmente tenho essa questão até hoje, é claro que assim, tá melhor hoje em dia do que no passado, mas ainda há uma certa questão em relação a isso, porque foi uma construção feita a vida inteira por conta da forma com que a sociedade me enxerga. Então realmente ainda estou neste processo, mas estou bem melhor que antes. E essa mudança toda aconteceu desde o diagnóstico.

– A interação com seus seguidores e com outros produtores de conteúdo nas redes sociais influenciou a forma como você se relaciona com as pessoas fora das redes?

Olha, na realidade, não, porque eu sempre fui uma pessoa muito aberta pra conversar, mas desde que as pessoas sejam bacanas, não sejam pessoas com posicionamentos que eu não concordo.

Na realidade, a internet acabou sendo uma forma de eu conhecer novas pessoas e interagir com outro tipo de pessoas além das que eu já conheço, porque eu tenho um círculo de amizades muito fechado, acho que me ajuda nesse ponto. Mas em relação a me ajudar a me relacionar com as pessoas fora das redes, não fez nenhuma diferença, não.

Ainda há poucas produções em que autistas representem a si próprios

– Em um de seus posts você faz uma alerta sobre o uso de cripface, que é usar pessoas típicas para representar pessoas atípicas. Ainda hoje, a maior parte dos personagens autistas vistos nas produções de TV e cinema são interpretados por pessoas típicas. Quais séries e filmes respeitam essa representatividade?

São poucas que realmente têm esse respeito à nossa neurodiversidade. Uma das que eu acho bem interessante é um curta, na realidade, o nome é “Fitas”. Esse curta mostra uma autista não verbal se relacionando com um garotinho neurotípico e é muito interessante você ver essa relação dos dois.

-Que outras produções culturais – livros, quadrinhos, sites, podcasts, séries, revistas, etc -você indicaria?

Em relação a quadrinhos, eu gosto muito de um chamado “A Diferença Invisível”, me ajudou bastante no meu processo de diagnóstico. Se trata da descoberta do autismo e como o diagnóstico pode mudar sua vida – no bom sentido, é claro. Em relação a pocast, vem aí uma novidade. Eu e mais três meninas autistas estamos juntas fazendo um podcast pra falar sobre as nossas vivências. O nome vem aí e logo em breve, acho que em um mês mais ou menos, vocês já vão estar sabendo sobre ele.

“Mesmo PHDs em neurociência não sabem nada sobre o autismo”

– Em diversas publicações, você aponta comentários desconfortáveis que as pessoas típicas costumam fazer com a maior naturalidade. Como você costuma reagir quando isso acontece na rua ou em ambientes informais? Você já teve de lidar com isso no trabalho? Se sim, como lidou com o constrangimento no ambiente corporativo?

Olha, pra me proteger, eu não falo que sou autista pra qualquer um. Eu bloqueio muita gente do meu trabalho nas redes sociais. Eu prefiro ficar dessa forma pra me proteger desses comentários que eu não acho que seja algo bom pra mim ficar sofrendo essa invalidação em um local que já é muito preconceituoso. Eu sou acadêmica, eu trabalho num laboratório, é muito difícil você ter abertura pra falar desses temas. Eu já tenho dificuldade pra falar da minha sexualidade, que dirá de uma parada que ninguém sabe.

No fundo, no fundo, é isso: ninguém sabe nada sobre autismo. Mesmo os PHDs em neurociêcia, que é a minha área, eles não sabem sobre autismo, não sabem como é a vivência além daquilo que é posto no DSM, por exemplo (DSM é a sigla de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, referência médica na busca por diagnósticos em saúde mental).

Jú diz que autismo gera mais comentários de ódio que sua sexualidade; há quem duvide de seu diagnóstico

– Você também costuma falar abertamente sobre sexualidade. Que reações as pessoas costumam manifestar quando você aborda o tema?

Olha, muito tranquilo, sabia? Normalmente não recebo muito comentário de ódio em relação a isso, não. Normalmente eu recebo mais sobre autismo, que as pessoas me questionam muito “como assim você é autista” e tal. Mas em relação à sexualidade é bem tranquilo mesmo. Até porque eu não abordo diretamente sexualidade, porque eu acho que tem que ser uma coisa natural, sabe? Até porque é da minha vida mesmo, falo abertamente que sou lésbica e ponto final, não tem muito o que falar sobre isso.

– Que outros influenciadores que abordam sexualidade você indicaria?

De quem fala sobre sexualidade e autismo eu recomendo muito minha amiga Tábata, do @meumundoatipico, ela é maravilhosa, ela é lésbica e autista, minha amiga pessoal, vale muito a pena conhecê-la. Mas também tem uma outra amiga minha, a Tartaruga Albina, que o nome dela é Alice, ela também é autista, ela é bissexual, ela também aborda esse tema. Tem vários outros também, mas de cabeça só vou estar lembrando dessas duas, que são minhas amigas e somos bem próximas.

Autistas e LGBTs são mais vulneráveis ao suicídio, o que torna essencial o acolhimento pela família

– Que mensagem você mandaria para mães, pais e cuidadores de pessoas com autismo que ainda não sabem como conversar sobre sexualidade com seus filhos?

Eu entendo que muitos pais não conseguem aceitar essas questões de diversidade, tanto de autismo, quanto de sexualidade. Todavia, se você não aceita… O mundo já não nos aceita. O mundo não aceita, mas se dentro de casa você não tem o menor respeito, a menor aceitação, o menor cuidado, você tá levando seu filho pro penhasco.

Por que eu digo isso? Porque nós, LGBTs, temos uma tendência muito maior ao suicídio. Se for autista, isso é maior ainda. Porque tanto autistas, quanto LGBTs, têm um grau muito alto [de risco de suicídio] e isso tem vários trabalhos que abordam esse tema. Por isso, aceite seu filho. Se você não o trouxer para perto de ti, o mundo já vai arrebentar ele. Então, se dentro de casa, ele não tiver o menor acolhimento, vai ficar muito pior pra ele. Quando você tem o acolhimento de casa, você se sente forte pra encarar o mundo.

Graças a deus, eu tenho uma família que me apoia inteiramente, em todos os sentidos. Eu sou feliz hoje em dia por causa disso, porque eles me aceitam integralmente. Não há questão nenhuma, nem o autismo, nem a sexualidade, muito pelo contrário. A questão pra eles é quando alguém é preconceituoso comigo.

“Eu me senti liberta”, diz Jú sobre a descoberta do diagnóstico

– Que outros assuntos você ainda percebe como tabus? Existe alguma que te deixa ainda desconfortável em abordar?

Olha, sinceramente, eu não tenho tabu com nada, relações sexuais, sexualidade, e várias outras coisas que são polêmicas, até sobre bebida alcoólica eu vou falar. Eu não tenho tabu com nada. Mas a gente sabe que a sociedade tem vários, principalmente quando se trata de autismo. Acho que só a minha existência já é um tabu pra muita gente, porque ninguém espera que autistas cresçam, tenham trabalho e que autistas também tenham sexualidade. Então acho que eu sou o próprio tabu dessa galera conservadora. Mas eu não tenho receio de falar nada.

– O que ser autista significa para você hoje?

Sempre enxerguei o autismo como uma parte de mim. É algo que faz parte de quem eu sou, e que sem ele eu seria outra pessoa que não seria a Juliana. É algo que é muito natural pra mim e que é só uma diferença, no caso. Uma diferença que precisa de suporte, eu sei que eu preciso de mais apoio.

Mas isso é algo que foi essencial eu descobrir pra eu que eu tivesse uma boa qualidade de vida, como estou tendo. Eu só descobri meu autismo aos 22 anos, hoje em dia eu tenho 24. Nesses dois anos desde que eu descobri, eu mudei da água pro vinho, eu me senti liberta. Acho que descobrir essa diferença me libertou. Deixei de ser aquela pessoa frustrada, deprimida, pra ser alguém que se ama de verdade. Hoje em dia eu consigo enxergar que o autismo é parte de quem eu sou e eu passei a me amar depois que eu descobri que sou autista.

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