As dificuldades de levar a criança autista a uma consulta médica

8/07/2022Família, Escola & Sociedade2 Comentários

Primeiro desafio mais comum das famílias é lidar com a quebra de rotina; veja dicas

Muitas mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) se queixam sobre o momento de ir a uma consulta com o pediatra. Aqui neste texto vamos expor algumas preocupações e tentar esclarecê-las.

A primeira dificuldade já surge em casa, quando é necessário sair do dia a dia habitual para ir ao médico.

Esse momento costuma ser difícil porque é necessário mudar a rotina da criança para ir a uma consulta. Sabemos que a rotina é algo muito importante para os autistas e mudá-la drasticamente causa sofrimento.

Deixar a criança a par de tudo o que vai acontecer é muito importante

Para tentar aliviar um pouco essa tensão, podemos encaixar a consulta em algum momento que mude o menos possível a rotina .

Por exemplo: se ir à escola todos os dias faz parte da rotina, vamos encaixar a consulta depois da aula para que a criança não precise faltar. É importante contar a ela o que vai acontecer e deixá-la ciente, não apenas tirá-la de casa, o que a deixaria assustada.

Depois do translado, temos a dificuldade da sala de espera. Dê preferência a consultas com hora marcada. Dessa forma, a espera será a menor possível.

É difícil para criança autista ficar parada em meio a multidões e sons diversificados. Por conta da sensibilidade aguçada e da dificuldade de ter noção de temporalidade, a espera na sala cheia pode ser agoniante.

Autistas têm direito à fila de prioridades estabelecido pela lei brasileira

Já se a consulta for via pronto atendimento, geralmente em casos de doenças mais agudas, como emergências ou resfriados e diarreias, o ideal seria utilizar a fila de prioridade, diminuindo assim o tempo de espera e a exposição à lotação da sala de espera.

A Lei 12.764 de 27/12/2012 determina no artigo 1º, § 2º “A pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais.”

A Lei 10.048 de 08/11/2000 garante no artigo 1º “As pessoas com deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de colo e os obesos terão atendimento prioritário, nos termos desta Lei.”

Dietas e horários de prescrições podem ser mais difíceis de serem cumpridos por crianças autistas

Além disso, é possível utilizar fones antirruído para diminuir a hipersensibilidade aos barulhos diversos do local ou carregar objetos que cativem a criança para acalmá-la nesses momentos.

Durante o atendimento, em consultas agendadas ​, onde podemos escolher o profissional que irá nos atender, é importante procurar aqueles que conheçam o transtorno e tenham ideia de como lidar com as particularidades dos autistas. Isso é importante para conseguirmos seguir com um tratamento correto.

Por exemplo: algumas apresentações de medicações são muito difíceis de serem realizadas e alguns horários são muito incômodos. Portanto, serão necessárias adaptações na prescrição deste paciente. Além disso, solicitar certas dietas para pacientes com seletividade alimentar também seria de improvável realização.

É importante que o médico explique antes, em detalhes, à criança todo procedimento que será realizado

Durante o atendimento em consultas de pronto atendimento, que costumam ser mais rápidas e para resolver queixas pontuais, dificilmente conseguimos escolher o profissional a dedo.

Nessa consulta, é importante que o profissional seja um bom ouvinte, calmo e transmita informações de forma clara. Aqui, é importante novamente explicar para criança tudo o que está acontecendo, antes de simplesmente tocar na criança para examiná-la.

Quando o profissional explica, por exemplo, “vou colocar esse estetoscópio nas suas costas para escutar o pulmão. Só vai encostar, tá bom? Isso não dói”. Essa simples explicação já facilita o atendimento e acalma a criança.

Agulhas são ainda mais temidas por crianças autistas do que por crianças típicas

Quando for necessário o uso de medicações endovenosas ou intramusculares, é preciso ter em conta que crianças autistas costumam ter uma dificuldade ainda maior em lidar com agulhas do que as crianças típicas. Converse com o médico sobre essa necessidade, veja se a medicação pode ser realizada de outra forma.

Tire todas as suas dúvidas durante a consulta e exponha as dificuldades da criança. Assim, pensando juntos, é mais fácil chegar a tratamentos que sejam possíveis de serem seguidos pela criança. E não esqueça de manter as consultas de rotina com o pediatra em dia!

Bárbara Bertaglia

Bárbara Bertaglia

Médica residente na pediatria da Santa Casa de São Paulo, pesquisadora na área de Transtorno do Espectro Autista e membro da equipe Autismo e Realidade desde 2019

2 Comentários

  1. Prezados, boa tarde. Sou Rita avô e guardiã da bebê Alice com 1 ano e 11 meses. Há mais 03 meses em consulta de rotina identificamos possível TEA (ela não fala – emite somente grunhidos, não aponta, irritabilidade bastante acentuada, não atende pelo nome, não olha nos olhos, não brinca de faz de conta, gira em torno de si mesma virando os olhos, anda muito nas pontas dos pés etc). O que acontece que sou professora aposentada da rede estadual de SP e telefono ao IAMSPE quase todos os dias, sem sucesso para um diagnóstico mais preciso e início ao tratamento. Vocês podem me ajudar de alguma forma. Obrigada.

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  2. Como conseguir concluir uma consulta , se a criança grita e chora

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