Os sapatos de Louis, neurodiversidade e inclusão escolar

21/07/2022Histórias0 Comentários

Animação francesa aborda os desafios enfrentados na escola por um garoto autista que não sabe amarrar cadarços e prefere os pés descalços

“Sempre mudo de escola, mas nunca de sapatos”, diz o garoto Louis, de 8 anos e meio, protagonista do curta-metragem francês de animação Les Chaussures de Louis (Os sapatos de Louis, em tradução livre). Os sapatos de Louis são azuis e têm fitas de velcro, porque ele não sabe amarrar cadarços. Louis é um garoto autista e provavelmente, por conta do transtorno, tem algum prejuízo em sua coordenação motora fina.

O termo médico usado para autismo é TEA (Transtorno do Espectro Autista). A palavra espectro indica que o autismo pode se manifestar de formas diversas – o número de manifestações do autismo equivale ao número de autista. Cada um é autista à sua maneira. O professor Stephen Shores costuma dizer: “Se você conheceu uma pessoa com autismo, você conheceu apenas uma pessoa com autismo”.

Há, no entanto, duas características comuns a todos os autistas:

– Dificuldades na reciprocidade socioemocional, ou seja, na compreensão e aprendizado de comportamentos comunicativos não verbais e na interação social.
– Comportamentos restritos ou repetitivos, como apego à rotina e adoção de rituais específicos que podem gerar crises quando não acontecem.

Personagem do filme tem dificuldades de interação social e gosta das coisas “quadradas e retas”

Louis, por exemplo, não compreende porque, ao cumprimentar, as pessoas abanam as mãos ou precisam manter contato visual. “Dizer oi é o suficiente”, diz o garoto. Ele também gosta de coisas “quadradas e retas”. “Quando não são, eu fico perdido”. Louis também não sabe mentir e suas falas sinceras podem machucar algumas pessoas. Além disso, ele entende as frases de forma literal.

O influenciador Nicolas Brito tem uma publicação sobre essa diferença de interpretação. Ele critica as expressões falar pelos cotovelos, pisar em ovos e engolir sapo. “Quem fala pelos cotovelos? Ou a pessoa fala com a boca, ou, se for surda, através de Libras. (…) Já que significa que a pessoa fala muito, e nós temos estas palavras em português, por que não dizemos ‘essa pessoa fala muito’?”, questiona Lucas, indignado.

Isso acontece porque o cérebro dos autistas funciona de maneira diferente do cérebro de pessoas típicas. Há quem faça uma comparação entre cérebros típicos e atípicos usando os sistemas de computador Windows e Macintosh. Ou os sistemas de videogame Playstation e Xbox. “Não é ruim, apenas diferente”, diz a mestre em programação neurolinguística e escritora Jolene Stockman, diagnosticada aos 36 anos.

Neurodiversidade é a ideia de que autistas e não autistas são parte das infinitas composições cerebrais humanas

O conceito de neurodiversidade ajuda a deixar ainda mais clara essa ideia. Registrada pela primeira vez pela socióloga australiana Judy Singer, o conceito de neurodiversidade engloba toda a gama de composições neurológicas humanas, sejam elas típicas ou atípicas. Assim como a biodiversidade é integrada por moscas, fungos, rosas e baleias, a neurodiversidade abrange todas as formações cerebrais da humanidade, incluindo os cérebros com e sem transtornos. Portanto, somos todos neurodiversos.

Assim como você e Louis. “Ser diferente das outras pessoas não é mais estranho do que tentar caber numa forma. As formas são boas, mas para fazer waffle”, diz o garoto.

A ideia de neurodiversidade entende os transtornos como inerentes a um ser humano. O autismo, portanto, é uma característica da pessoa, e não algo que se possa curar. Não cabe, portanto, fazer qualquer juízo de valor a qualquer diagnóstico de transtorno mental. O que se faz necessário é garantir e respeitar o direito ao desenvolvimento pleno de cada pessoa. Porém, não é exatamente o que acontece com Louis.

Taxa de autistas que sofrem bullying na escola é quatro vezes mais alta que a de alunos típicos

Um estudo de 2012 aponta que 46% dos alunos autistas no ensino fundamental e médio já revelaram aos pais que sofriam bullying. Entre crianças não autistas, a taxa é de 10% (confira aqui a íntegra do estudo, em inglês).

O comportamento fora do padrão de Louis incomoda os outros alunos. Ele tem dificuldades de lidar com ambientes cheios de gente ou muito barulhentos. Também não gosta de ser tocado. São características comuns a autistas, que frequentemente apresentam distúrbios sensoriais. Ir a um shopping ou a um supermercado pode ser insuportável, por causa das luzes, do movimento intenso de pessoas, dos sons e da mistura de aromas. Quem tem hipersensibilidade pode sofrer crises intensas.

Por causa justamente de um episódio de bullying, Louis tem de mudar de escola. O curta-metragem mostra o primeiro dia em sua nova escola e sua apresentação aos novos colegas.

A inclusão escolar de autistas é um desafio para as famílias. Garantir um ambiente que estimule a criança a se desenvolver e dê suporte às suas limitações ainda é um desafio no Brasil. Faltam dados de inclusão escolar no país, além do número de pessoas com deficiência em sala de aula, conforme alerta Lucelmo Lacerda, doutor em educação e pai de autista. Faltam ainda acompanhamento qualitativo da aprendizagem e a adoção de métodos cientificamente comprovados para estimular o desenvolvimento das crianças com autismo.

Filme se inspirou em proposta de filósofo autista: que a criança possa se apresentar no 1º dia de aula

Mãe de autista, a advogada Michela Caron conseguiu, a muito custo, estabelecer uma parceria com a escola para que seu filho, em primeiro lugar, se sentisse acolhido e recebesse suporte emocional da escola e dos colegas. Um ambiente de confiança, para Caron, é o primeiro passo para o desenvolvimento das habilidades acadêmicas. “Criança infeliz não aprende”, afirma.

A história de Louis foi criada justamente com a intenção de mostrar o que se pode fazer para uma criança com autismo se integrar melhor ao ambiente escolar. A trama se inspira na proposta de um renomado filósofo francês que é autista, Josef Schovanec, que se dedica a decodificar o cotidiano e seus costumes. Segundo Schovanec, deixar que a criança autista se apresente no primeiro dia de aula a toda a classe pode permitir que ela comece a relação se abrindo e contando sua história, em vez de experimentar a exclusão.

Sapatos foram ponto focal para mostrar a importância dos rituais para os autistas

Com a proposta em mente, os quatro criadores do curta-metragem entrevistaram autistas para construir o roteiro. Chamou atenção do time a importância dos rituais na vida dos autistas com quem conversaram. Decidiram que no caso de Louis, os sapatos seriam o foco de seu ritual. O garoto tira os sapatos sempre que não precisa se apoiar no chão – se sobe em uma pequena escada, ou senta em um banco ou na carteira, por exemplo.

Os sapatos são também seu ponto de apoio, para onde ele volta sempre que precisa pisar no chão. “Ele tem todos os seus rituais diários específicos com os sapatos para se sentir mais à vontade”, dizem os criadores no site oficial do curta.

O filme foi o trabalho de conclusão do grupo, que encerrou em 2020 seus estudos na Ecole Mopa, especializada em animação 3D e localizada em Arles, no sul da França. Dali, o curta-metragem rodou o mundo. Foi convidado para mais de 60 festivais internacionais e exibido na TV aberta francesa. O curta está disponível gratuitamente no YouTube com legendas em inglês, neste link. “Este filme capturou apenas um fragmento da vida de Louis. Ele terá muitos desafios a superar depois que o filme terminar, mas os sapatos de Louis sempre estarão lá para ele”.

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