Entenda o papel da musicoterapia para autistas

24/10/2023Tratamentos0 Comentários

Não confunda com aula de música o acompanhamento terapêutico individualizado com estratégias focadas no desenvolvimento do autista

Mães, pais e cuidadores de autistas precisam ter muito claro que uma sessão de musicoterapia não é uma aula de música. É importante frisar, porque há ainda um grande desconhecimento sobre o trabalho dos musicoterapeutas no país. É comum, por exemplo, que ouçam propostas para oferecerem aulas experimentais, o que não existe.

“Precisamos pensar musicoterapia como um processo terapêutico, então não podemos fazer aula experimental de musicoterapia”, explica a musicoterapeuta Luisiana Passarini.

As sessões de musicoterapia são focadas em estratégias específicas de desenvolvimento e exigem planejamento individualizado e objetivos claros. É o que explica Passarini, fundadora do Centro de Musicoterapia Benenzon Brasil e pesquisadora do Grupo Neurociência e Música da UFABC. Ela foi uma das palestrantes do VIII Simpósio de Atualização do Transtorno do Espectro Autista, promovido pelo Instituto PENSI.

‌Musicoterapia tem impacto emocional, comunicativo e até no bem-estar espiritual de uma pessoa

O que é, então, musicoterapia? Luisiana explica: “É quando usamos a música e elementos musicais (ritmo, melodia, harmonia, canção, dança), tudo aquilo que a música proporciona, como terapia. A música é o veículo principal para acessar a pessoa e buscar os objetivos terapêuticos. O que é diferente de usar a música como fundo, em outras terapias.”

A definição da Federação Mundial de Musicoterapia é a seguinte:

“Musicoterapia é o uso profissional da música e seus elementos como intervenção em ambientes médicos, educacionais e cotidianos com indivíduos, grupos, famílias, ou que buscam otimizar sua qualidade de vida e melhorar suas capacidades físicas, sociais, comunicativas, emocionais, intelectuais e de saúde e bem-estar espiritual. A pesquisa, a prática, a educação e a formação clínica em musicoterapia baseiam-se em padrões profissionais de acordo com os contextos culturais, sociais e políticos” (WFMT, 2011).

Formação profissional leva em conta o tripé que envolve estudos de música, saúde e musicoterapia

A profissão de musicoterapeuta ainda não é regulamentada no Brasil. Em toda a América Latina, a profissão é regulamentada apenas na Argentina. Para atuar, o profissional precisa ter formação superior em musicoterapia. No Brasil, é possível se formar após quatro anos de graduação ou fazer uma especialização.

A formação é pensada em um tripé formado por estudos de música, saúde e musicoterapia. Inclui estudos de antropologia da música, etnomusicologia musical (como ancestrais se relacionavam com a música), música e genética, além da fluência em instrumentos musicais (para acompanhar o paciente), percepção e harmonia musical, ciências da saúde e neurodesenvolvimento humano.

Há ainda aulas de anatomia, fisiologia, neuroanatomia, psicopatologia, filosofia e neurociência. “Estou no grupo de pesquisa da UFABC de neurociência, onde tentamos entender como a música atua no neurodesenvolvimento”, diz a palestrante. Além disso, há os conhecimentos específicos da área: teorias, técnicas e aplicabilidade da musicoterapia – com gestantes, bebês, na primeira infância, na intervenção precoce, na saúde mental, na gerontologia, etc.

Plano terapêutico é traçado a partir dos laudos da equipe multidisciplinar e após alinhamento com a família

Em hospitais, é comum o uso de música para alegrar os pacientes. Mas é preciso diferenciar este uso em contexto médico, onde a relação terapêutica não se dá primariamente por meio da música. “Na musicoterapia, a relação terapêutica está primariamente embasada no fazer musical”, diz Luisiana. Ela detalha de que forma o trabalho começa:

“Com musicoterapia no TEA, não dá para fazer aula experimental. A gente faz avaliação inicial, recebe a família, faz entrevista, tem instrumentos específicos, lê os laudos dos médicos, do psicólogo, do fonoaudiólogo, de todo mundo que atende à criança. A gente faz uma avaliação clínica, em que a gente pode olhar para aquela criança, que é única, e pensar em um plano terapêutico individualizado, a partir dos objetivos que precisamos trabalhar com ela.”

O plano terapêutico é traçado junto com a família. O musicoterapeuta alinha o que foi observado na avaliação inicial com o que a família sente que é importante para a criança. O plano leva em conta técnicas específicas da musicoterapia, que são experiências musicais, como recriar músicas conhecidas, cantar, tocar, improvisar ou compor, por exemplo. A técnica mais usada é a improvisação.

“Meu compositor preferido é um menino que atendi há 11 anos e ele compunha muito, era muito criativo. Trazia muitas músicas para a sessão. A gente engaja a partir dessas estratégias e vai fazendo uma avaliação”, diz Luisiana.

As experiências musicais são um convite para que a criança interaja com leveza e ludicidade. Elas geram prazer, validação, gratificação, estimulam a autonomia e a criatividade e promovem engajamento e motivação.

Por meio das canções, a criança desenvolve a capacidade de interação socioemocional

As canções dão sentido aos objetos, ao corpo e aos movimentos. Às vezes, as crianças não conseguem ter noção do corpo. A canção ajuda a nomear aquela parte, o que ela faz, como a criança pode usá-la. Elas também permitem a expressão das emoções e a contextualização das ações.“Claro que não para todas as crianças”, diz Luisiana. “O trabalho é muito individualizado.”

As canções também organizam as palavras e o discurso, melhorando a comunicação, a linguagem e a interação social. “Às vezes, as crianças entram na sala muito desorganizadas, desconectadas. Você vai dando um fio para aquelas palavras, vai organizando aquele discurso. E a família consegue replicar isso e organizar melhor as coisas com a criança em casa”, diz a pesquisadora.

As melodias são importantes para a percepção e discriminação de diferentes sons, o que influencia positivamente no processamento auditivo, na percepção prosódica, na percepção temporal e especial. A prosódia é a variação de entonação que a pessoa usa para passar informações de forma implícita em sua fala – e o entendimento das mensagens implícitas é justamente um ponto fraco dos autistas.

‌Explorar os ritmos ajuda a entender a formação das palavras e favorece a alfabetização das crianças autistas

‌Os ritmos organizam os movimentos e a exploração do corpo no espaço, as expressões corporais e vocais . Eles integram as áreas sensorial e motora e atuam tanto na motricidade grossa como na fina.

“Os estudos mostram cada vez mais a questão motora da criança autista. Às vezes, uma hipotonia [falta de tônus muscular] é muito importante na criança com TEA. Muitas vezes, você precisa trabalhar esse corpo primeiro, trabalhar essa hipotonia ou organizar esse corpo para que ela possa desenvolver outras habilidades, inclusive de linguagem. A parte rítmica toda atua organizando isso para uma sincronicidade não só pelo ritmo externo, mas também neuronal”, conta a musicoterapeuta.

Os ritmos também desenvolvem a cognição (atenção, memória e funções executivas, como o controle inibitório) e a linguagem. “Muitos estudos vão mostrando a importância do ritmo na linguagem. A nossa fala é ritmada. O ritmo ajuda a criança a entender que uma palavra é divida em dois, ajuda na divisão de linguagem e no processo de alfabetização e de leitura e na escrita”, diz Luisiana.

A interação musical estimula importantes aspectos da comunicação: contato visual, atenção compartilhada, imitação e troca de turno. O processo terapêutico da musicoterapia é, portanto, bastante complexo. Envolve ainda a criação e manutenção de vínculo com o autista e o reconhecimento diário da criança e suas necessidades. Ao longo do trabalho, o profissional busca principalmente, melhorar a qualidade de vida da criança e da família.

“Se a criança é pequena, sempre peço que a mãe ou o pai estejam dentro da sala na sessão, porque a gente vai instrumentalizando os pais para que possam usar a música em casa também. Assim, podem se comunicar e desenvolver uma escuta diferenciada para essa criança. O que a gente vê na prática é que, muitas vezes, é difícil para a família e, muitas vezes, até para profissionais poderem escutar a comunicação desta criança, que é uma comunicação diferenciada”, diz Luisiana.

Todo o material do simpósio, incluindo a íntegra da palestra de musicoterapia, está disponível gratuitamente aqui.

Escrito por Clarice Sá, Teia.Work

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