Nas férias, quebra da rotina exige planejamento para amenizar estresse de autistas

1/12/2023TEA no Dia a Dia0 Comentários

Família deve se preparar com antecedência para passeios e viagens

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se manifesta de diferentes formas. Parece chavão, mas um autista nunca é igual ao outro, apesar das características que os unem no diagnóstico. Uma delas, no entanto, parece ser quase unanimidade: a dificuldade em lidar com as quebras de rotina, situação acentuada durante as férias da escola e das sessões de terapia. Se tem viagem programada, então, o risco de estresse aumenta, e para toda a família.

Diante do inevitável, é preciso tentar amenizar os danos de acordo com a compreensão de cada um. Autistas não verbais, com níveis de suporte 2 e 3, costumam ter mais dificuldades para “virar a chave”. Neste caso, especialistas sugerem um trabalho de preparação dias antes do início das férias com dicas visuais, a partir do próprio calendário.

“O ideal é que a criança já tenha um treino de rotina. Um calendário com fotos ou figuras pensadas para cada dia da semana que a ajude a compreender o que vem pela frente. Essa organização é muito importante para o planejamento das férias e também da volta às aulas”, explica a psicóloga Paula Kenyon, que é doutora em análise do comportamento e consultora do Grupo Método.

Em casa, mantenha os horários das refeições e do sono

A partir da rotina visual, portanto, a criança com TEA poderá checar qual a sua “agenda” do dia seguinte, se tem aula na escola, terapia na clínica ou se é fim de semana. “Quem já segue esse plano ao longo do ano tem mais chances de se adaptar à quebra de rotina. No calendário, as férias terão a mesma cara do final de semana, por exemplo, ou de um feriado.”

A previsibilidade, no entanto, também pode gerar uma ansiedade exacerbada, fazendo com que a criança não durma à espera daquele compromisso, por exemplo. Neste caso, a orientação é postergar um pouco o aviso, mas seguir com as dicas visuais, que podem incluir vídeos do local a ser visitado.

Se o descanso for cumprido em casa, o risco de estresse diminui, mesmo sem as saídas frequentes para a escola e a terapia. Isso porque, em um ambiente familiar e confortável, há a chance de a criança cumprir alguns aspectos da rotina. “É indicado seguir os horários das refeições. O mesmo serve para o número de horas de sono. Isso proporciona bem-estar”, diz Paula.

‌Família pode intercalar novas atividades com brincadeiras já conhecidas

Da mesma forma, a psicóloga sugere que a família não permita que a pessoa com TEA deixe de usar roupas em casa ou fique descalça o tempo todo. Observar esse tipo de regra é essencial para amenizar os impactos do retorno das férias, onde ocorre outra quebra de rotina. “É uma exigência que serve para crianças típicas e atípicas.”

Dentro do possível – nem sempre os pais estão também em férias -, o período pode ser usado para novos desafios. Se houver tempo livre, é a chance de experimentar novas brincadeiras e atividades prazerosas, mas que demandam tempo, como fazer um bolo com a família.

A “novidade” pode ser intercalada com tarefas mais facilmente reconhecidas, como jogos de pareamento e contagem, além de atividades físicas que auxiliam na regulação da criança. Cada uma tem a sua preferida, que pode ser balançar ou pular na cama elástica. Para quem tem a chance, piscinas e brincadeiras com água também costumam ajudar.

“Mas pais são pais, não são terapeutas. Não se pode exigir que eles apliquem a terapia nas férias. O que a família deve fazer é incentivar a continuidade da comunicação neste período e proporcionar um ambiente gostoso.”

‌Visita a locais públicos é desafio extra para autistas; prefira horários menos disputados

Já os programas externos tendem a aumentar o nível de estresse das pessoas com TEA e de seus familiares. Isso porque apesar de a legislação ter evoluído no Brasil sobre a questão da prioridade em filas, por exemplo, nem todos os estabelecimentos oferecem as condições necessárias para um passeio agradável. Mas, lembre-se: lugar de autista é onde ele quiser!

Definido o local, pesquise horários menos disputados e até mesmo se há a possibilidade de uma visita adaptada – o Museu do Amanhã, no Rio, por exemplo, abre para grupos neurodivergentes às sextas e sábados pela manhã. De acordo com a rede, cinemas promovem as chamadas sessões azuis, com som mais baixo, iluminação leve e ocupação reduzida. Em São Paulo, os estádios de futebol do Corinthians, Palmeiras e São Paulo dispõem de espaços sensoriais para o torcedor com TEA.

Levar uma mochila com algumas guloseimas e outros itens de preferência também pode ajudar, assim como os dispositivos usados em sua comunicação. O importante é que o passeio seja agradável e que a criança tenha condições de mostrar se está ou não gostando.

Escrito por Adriana Ferraz, Teia.Work

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