Seletividade alimentar extrema no autismo: quando investigar Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE/ARFID)?

10/08/2026Pesquisa & Evidências0 Comentários

Seletividade alimentar extrema no autismo: quando investigar Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE/ARFID)?

 

A alimentação é um pilar fundamental do desenvolvimento infantil, mas para muitas famílias, a hora da refeição é um momento de grande estresse. Embora a neofobia alimentar (o medo natural de experimentar novos alimentos) seja comum entre crianças, principalmente entre os 2 e 6 anos, no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA) as dificuldades alimentares costumam ser mais persistentes e complexas.

Entendendo as siglas e o contexto

Para compreender este tema, é necessário clarificar alguns conceitos e sigas comumente utilizadas quanto se trata deste assunto:

O Transtorno do Espectro Autista (TEA): condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação social, a interação e o comportamento. No autismo, o cérebro processa informações de forma específica, o que frequentemente inclui uma sensibilidade atípica aos estímulos sociais e ambientar (APA, 2013).

ARFID (Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder) ou TARE:  sigla em inglês ARFID é traduzida no Brasil como TARE – Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo. Diferente de uma “fase”, o TARE é um diagnóstico clínico psiquiátrico, no qual a pessoa evita ou restringe a comida de tal forma que sua saúde física e mental é prejudicada (Nogueira-de-Almeida et al., 2025).

A relação do TEA com o TARE (ARFID)

A seletividade alimentar pode atingir a entre 51% e 89% das crianças com autismo, uma prevalência significativamente superior à observada em crianças com desenvolvimento típico (Mirizzi et al., 2025). Estudos recentes indicam que cerca de 12,1% das crianças se encaixariam também no critério diagnóstico para TARE e já possuem o diagnóstico de TEA, revelando que essas condições frequentemente coexistem (James et al., 2024).

A causa dessa relação pode estar relacionada ao Transtorno do Processamento Sensorial – TPS. No autismo, o cérebro pode interpretar o cheiro de um vegetal como um odor insuportável ou a textura de um purê como algo doloroso na boca. Isso gera uma defensividade sensorial intensa, onde a criança recusa o alimento para se proteger de uma sensação aversiva (Takeuchi & Moraes, 2026).

Os três perfis do TARE (ARFID)

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o TARE se manifesta principalmente de três formas, que podem aparecer isoladas ou juntas (APA, 2013; Guimarães et al., 2026). Veja a seguir:

Sensibilidade sensorial – A evitação baseada em cor, cheiro, textura ou temperatura. A criança pode aceitar apenas alimentos de uma cor específica (como a “dieta bege”) ou de uma marca exata.

Falta de interesse – A criança parece não sentir fome ou não demonstra nenhum prazer ou recompensa no ato de comer.

Medo de consequências aversivas – A recusa surge após um trauma, como um episódio de engasgo, vômito ou dor abdominal severa.

Sinais de alerta: quando o cuidado médico é urgente?

A seletividade alimentar comum se torna um TARE (ARFID) quando gera, pelo menos, um dos seguintes prejuízos (Guimarães et al., 2026; Nogueira-de-Almeida et al., 2025):

  • Consequências no crescimento e desenvolvimento com perda de peso ou falha em crescer conforme o esperado;
  • Deficiência nutricional importante (como anemia por falta de ferro ou falta de vitaminas) ou dependência de suplementos para manter a nutrição;
  • Impacto psicossocial: quando a criança não consegue mais ir a festas, restaurantes ou lanchar na escola devido ao pavor da comida.

Atenção a questão do peso

Um erro comum é acreditar que, se a criança está acima do peso ou no peso certo, ela está saudável. O Índice de Massa Corporal (IMC), que calcula a relação entre peso e altura, não é a única forma de avaliar o estado nutricional da criança. Muitas crianças com TARE mantêm o peso dentro do ideal, mas consumindo grandes quantidades de alimentos ultraprocessados, altamente calóricos. Isso mascara a “fome oculta”, onde o corpo tem calorias, mas sofre com a falta crítica de vitaminas e minerais como zinco, cálcio e vitamina D (Takeuchi & Moraes, 2026; Nogueira-de-Almeida et al., 2025).

O tratamento da seletividade extrema exige uma atenção da equipe multidisciplinar, incluindo um psiquiatra que faça o diagnóstico. O foco nunca deve ser forçar a criança a comer, o que aumenta o trauma, mas sim utilizar técnicas de aproximação gradual e dessensibilização sensorial, criando um ambiente de segurança e previsibilidade à mesa (Esposito et al., 2023).

Referências:

American Psychiatric Association (APA). DSM-5. 2013.

Esposito M, et al. Food Selectivity in Children with Autism. 2023.

Guimarães NS, et al. (Re)apresentando os alimentos na seletividade. 2026.

Mirizzi P, et al. Food Selectivity and Sensory Processing. 2025.

Nogueira-de-Almeida CA, et al. Nutritional Factors in ASD. 2025.

Takeuchi N, Moraes AA. Conhecendo o Autismo. 2026.

Nutricionista e pesquisadora do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi. Possui mestrado e especialização pela Unifesp. Além de formação internacional em alimentação infantil, é autora de livros e artigos científicos.

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