Abafadores de ruído ajudam autistas a lidar com estímulos do ambiente, mas uso deve ser regulado

28/11/2023Tratamentos0 Comentários

Uso contínuo pode fazer a pessoa com TEA se isolar do ambiente

Pode ser o barulho do cachorro latindo, do liquidificador ligado, da bola batendo ou só das crianças correndo na hora do recreio. Se, para os neurotípicos, alguns sons incomodam, para parte dos autistas eles provocam angústia, medo e até dor física. A condição é geralmente derivada de uma dificuldade de compreensão do ambiente, mas também pode revelar uma hipersensibilidade auditiva e, de acordo com o caso, exigir o uso esporádico de abafadores de ruído.

Definida somente após uma análise individual das necessidades de cada pessoa diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa utilização deve ter como regra o equilíbrio. Segundo o otorrinolaringologista foniatra Gilberto Ferlin, do Hospital Paulista, a indicação tende a ser bastante específica e por um período curto de tempo ao longo do dia para não isolar esse paciente de seu ambiente natural.

E, assim como nas questões comportamentais ou de fala, a hipersensibilidade auditiva precisa ser tratada com terapia. Neste caso, com a intenção de fazer com que a criança (quanto mais cedo intervir melhor) se adapte aos estímulos do cotidiano e sofra menos com situações inesperadas. Sessões com esse objetivo simulam os barulhos que geram incômodo de forma gradativa, com volume baixo e ajuda visual.

De acordo com especialistas, o trabalho deve compor o plano comportamental e ser compartilhado pelos demais profissionais envolvidos, como terapeutas ocupacionais, psicólogos, educadores e, claro, familiares.

‌Sensibilidade exacerbada de autistas a sons do ambiente pode ser sinal de transtorno do processamento sensorial

Analista do comportamento aplicado, a psicóloga Júlia Sargi explica que o transtorno do processamento sensorial é uma comorbidade que pode ser diagnosticada em pessoas com TEA após uma percepção conjunta da família e dos profissionais envolvidos em seu tratamento. “Ele se caracteriza por uma dificuldade do sistema nervoso de compreender e digerir alguns estímulos do ambiente”, diz.

Segundo Júlia, em alguns casos mais exacerbados essa dificuldade pode ser dolorida, além de gerar estresse e dificuldades de concentração. “É neste tipo de situação que o abafador pode ser utilizado para amenizar o desconforto aguçado, mas sempre de forma equilibrada e como parte de uma estratégia terapêutica”, afirma a psicóloga, que é diretora do Grupo Conduzir.

Ferlin acrescenta que a sensibilidade auditiva nem sempre está relacionada a sons altos, como o de uma furadeira, por exemplo, mas a aumentos repentinos de volume. “Pode acontecer durante um desenho visto pela TV ou celular ou mesmo na sala de aula”, destaca.

‌Escola é fundamental no processo de adaptação auditiva das pessoas com TEA

TEXTO | A escola, neste contexto, é figura fundamental para o sucesso do processo de adaptação do aluno com sensibilidade auditiva. “É a escola, inclusive, que deve reconhecer quais sons atrapalham a participação da pessoa com TEA na turma, assim como seu aprendizado. Com essa avaliação feita, a instituição pode sugerir em quais momentos o abafador deve ser usado e documentar essa indicação no Plano Educacional Individualizado do aluno ”, explica Júlia.

O PEI é um direito do aluno neurodivergente. Ele é elaborado pelos professores no início do ano, compartilhado com os pais e demais integrantes da equipe que atende esse estudante e, caso preciso, alterado ao longo do ano letivo de acordo com a evolução do trabalho.

Segundo Júlia, os incômodos mais frequentemente relatados no ambiente escolar ocorrem em aulas de educação física (barulho de bola, criança correndo, apito) e no horário do recreio (quando há mais alunos juntos no mesmo espaço), mas também podem ser percebidos na sala de aula. “Mais um sinal da importância de os colégios investirem em salas de recurso”, destaca a psicóloga.

As salas de recurso multifuncionais são previstas pelo Ministério da Educação como forma de apoiar a organização e a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE) em escolas públicas e privadas. No dia a dia, o espaço é usado para proporcionar a regulação de alunos com transtornos globais do desenvolvimento, assim como a realização de tarefas com mais tempo e com menos estímulos sonoros. Não devem ser usadas como uma sala de aula, mas sim como sala de apoio.

Fones de ouvido comuns não servem para reduzir estímulos sonoros

A psicóloga Júlia Sargi explica que os fones comuns de ouvido não cumprem a função de abafar ruídos, já que eles têm outra função, que é a de transmitir sons e não barrá-los. Da mesma forma, nem todos esses equipamentos são confortáveis, condição imprescindível para que um autista com transtorno do processamento sensorial se acostume a usá-los.

“Esses abafadores devem ser confortáveis e ajustáveis individualmente. E, levando-se em conta que muitas crianças com TEA podem ter também uma sensibilidade tátil, sua utilização exige um trabalho cuidadoso de aproximação.” Segundo Júlia, isso significa uma apresentação cuidadosa, gradual e técnica, com acompanhamento profissional e da família.

“E sempre lembrando: a indicação nunca será de uso contínuo. A intenção não é isolar a pessoa com TEA, eliminando seu contato com os sons do ambiente, mas trabalhar a sua adaptação a todos os estímulos”, completa.

Com o avanço da legislação dedicada a assegurar os direitos das pessoas neurodivergentes, alguns estabelecimentos comerciais, como shoppings e restaurantes, começam a emprestar abafadores de ruído com o intuito de proporcionar maior conforto sensorial.

Escrito por Adriana Ferraz, Teia.Work

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